domingo, 29 de agosto de 2010

Amigo da Onça, ontem como hoje

A charge, abaixo, de 50 anos atrás - 1960 - do AMIGO DA ONÇA, no traço do genial Péricles, já retrata com muito bom humor o que dá vontade de fazer, hoje, com tanto candidato desqualificado.



Nossa lembrança saudosa da sátira,
ironia e crítica inteligente de costumes de
Péricles de Andrade Maranhão,
aniversariante desse mês de agosto.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Pelas esquinas cariocas...

Esquina da Rua do Catete com Rua Benjamim Constant
(Antiga Rua Santa Isabel até 1891, quando mudou de nome)

Foto: Fanfulla, 1905

O endereço era Rua da Glória nº 100, onde foi construído o Palacete Bahia.


O Palacete pertenceu ao nobre Manuel Lopes Pereira Bahia, o Barão do Meriti, que o havia legado à sua filha Maria Carolina, então casada com o Marquês de Abrantes, Secretário dos Negócios Estrangeiros de 1862 a 1864. Algum tempo depois da morte do Marquês, em 1864, Maria Carolina casou-se com o médico Joaquim de Araújo e Silva, Barão do Catete, pelo Brasil, e Visconde de Silva, por Portugal.


Em outubro de 1869, o palacete foi alugado para a chancelaria brasileira, passando a funcionar ali a Secretaria dos Negócios Estrangeiros e, de 1891 a 1899, já com a denominação de Ministério das Relações Exteriores. Da Glória foram dirigidos os destinos da nossa diplomacia.

O prédio principal era fronteiro ao atual Largo da Glória, havendo na área extensos jardins e outras dependências. Com a expansão dos serviços diplomáticos, em janeiro de 1899 houve a transferência para o Palácio Itamaraty, na Avenida Marechal Floriano, comprado pelo governo aos herdeiros do Conde de Itamaraty, Francisco José da Rocha.


Após a saída da Secretaria, o Palacete Bahia foi ocupado pelo English Hotel, que existiu até 1908, quando foi demolido o prédio. Entre 1915 e 1918 o terreno recebeu a construção do Palácio Episcopal da Arquidiocese do Rio de Janeiro, o Palácio São Joaquim.

O Palácio São Joaquim , hoje Rua da Glória 446, é um prédio em estilo eclético, projeto do arquiteto Adolfo Morales de los Rios para a residência do primeiro Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

24 de agosto no Rio de Janeiro

Uma data cheia de curiosidades.
Primeiro, nesta data em 1954, se deu o suicídio do presidente Getúlio Vargas, acuado após atentado contra Carlos Lacerda, à época jornalista.

E se foi construindo uma sucessão de fatos que a cada ano, o 24 de agosto se tornava representativo. Ou seja, pouco mais de um mês depois do suicídio, Lacerda derrotou outro Vargas: Lutero, seu filho e presumido herdeiro político, batido por Lacerda na eleição de 3 de outubro para a Câmara dos Deputados com uma diferença expressiva de quase 40 mil votos.

Quatro anos depois, do alto de um "caminhão do povo", Carlos Lacerda comandou a campanha que levou Afonso Arinos ao Senado, derrotando, mais uma vez, Lutero Vargas.

Fotos CPDOC/FGV - Reprodução


E aí veio a campanha majoritária para o governo carioca, em 1960. Nela Lacerda sentiria o peso do "24 de agosto" como obstáculo à conquista dos votos das zonas suburbana e rural.

No dia 22 de agosto de 1960, o jornal Tribuna da Imprensa estampou um vistoso artigo de primeira página denunciando "o plano de provocações para o dia 24". Sabedor do peso que representava para a sua candidatura a rejeição dos getulistas, Lacerda queria passar pela data-símbolo.

E passou. Elegeu-se governador do Estado da Guanabara.

No ano seguinte, em 1961, já na condição de governador da Guanabara, ocupou a televisão, justamente no 24 de agosto, para denunciar o suposto plano golpista de Jânio Quadros - de quem disse "Nunca vi um político brasileiro mentir tanto a tanta gente em tão pouco tempo" - , que acabou resultando na renúncia do presidente e reforçando o dito segundo o qual, na política brasileira, agosto rima com desgosto.

Em 1963, o anúncio de que o presidente Goulart estaria presente ao grande comício a ser realizado na Cinelândia no dia 24 de agosto, em lembrança do nono aniversário da morte de Vargas, levou Lacerda a denunciar que se estaria tramando uma "agostada", com intervenção na Guanabara e seu afastamento do governo.


domingo, 22 de agosto de 2010

Avenida Atlântica bem diferente

Já há 60 anos, pouco mais de vinte anos após as imagens de ontem, outra Avenida Atlântica, já com seus arranha-céus.





Vídeo Youtube/ Reprodução


Interessante reparar a moda à beira-mar.

sábado, 21 de agosto de 2010

Uma Avenida Atlântica irreconhecível...

...há 80 anos.

A pista com canteiro central dividindo as duas mãos, um casario elegante e o morrete do Inhangá, que foi demolido para a construção da piscina e do anexo do Copacabana Palace.



Reprodução/ Vídeo Youtube
Copacabana- anos 30

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dunas de Ipanema

A Praia de Ipanema começa hoje uma saudável volta ao passado.


O Globo Online registra hoje que alunos de escolas municipais vão fazer, a partir das 10h, o plantio de 2.800 mudas em cerca de 300 metros quadrados de canteiros cercados na areia, entre as ruas Farme de Amoedo e Vinícius de Moraes. O objetivo do projeto é recuperar e preservar as dunas da praia. Para isso, já foi despejada no local areia retirada do canal do Jardim de Alah. A vegetação ajudará na fixação das dunas.


Primeiro, serão recuperadas duas dunas. Até setembro, serão cinco no total. A tubulação de águas pluviais, hoje aparente, ficará coberta pela areia e pela vegetação. A meta é levar o projeto até o Arpoador, totalizando 18 dunas recuperadas numa área de 7.025 metros quadrados. A previsão é que os trabalhos sejam concluídos em 2011. A espécie de planta escolhida pelos técnicos para o projeto foi a Ypomeia. A planta é ainda mais importante quando a cidade enfrenta ressacas e ventania.


Se observarmos fotos antigas, veremos a vegetação de restinga.

Foto/ Reprodução: Augusto Malta


Veja aqui as dunas nos anos 70.

Nos anos 40, na administração de Henrique Dodsworth a vegetação de restinga foi recuperada. O urbanista e arquiteto Azevedo Neto, incluiu nessa recuperação da vegetação um tratamento paisagístico completo, que ainda tinha a finalidade de diversificar o uso da praia e até mesmo fazê-la ser frequentada parcialmente à noite.

Foto Internet/ Reprodução: Foi um Rio que passou

Além das espécies rasteiras, foram plantados coqueiros, bromélias, feitos arranjos com pedras e plantas e instalados equipamentos como iluminação pública, em postes do tipo americano, quiosques de sapê para vendas de bebidas e pequenos lanches, brinquedos e alguns equipamentos de ginástica. Tudo isso também resolveu o problema do carreamento de areia para as pistas da Av. Vieira Souto, já que o calçadão junto à areia foi contruído somente nos anos 60.

As dunas começaram a ser plantadas pela Prefeitura, na gestão anterior, há dois anos atrás, na altura do Posto 10, e, hoje estão, neste trecho, bonitas e recuperadas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Millôr Fernandes

Hoje é aniversário do carioca Millôr Fernandes.



Nascido Milton no subúrbio carioca do Méier - 16 de agosto de 1923 - já no final da adolescência optou por Millôr. E estava ali pronto o novo nome próprio, com o qual vem assinando, desde então, sua extensa obra de escritor, humorista, desenhista, artista plástico, dramaturgo, tradutor e também de mais um título: o de inventor do frescobol.

Famoso por não ser saudosista, certa vez em uma entrevista, disse que só existe algo em que o mundo tenha sido melhor do que hoje:

"Ah, sem dúvida: Ipanema nos anos 60. Fui morar lá em 1954. Meu edifício foi o primeiro, tive que espantar os índios da praia. Não havia sinal de trânsito. O Rio era uma aldeia. Antes disso eu morava na avenida Atlântica, a duas quadras do meu amigo Sérgio Porto. É impressionante o modo como a gente trabalhava. Eu ficava na praia até as onze. Todo dia tinha mil coisas para fazer, mas às sete da noite estava no bar Vilariño, às nove no Juca's Bar. Como pode? Não sei. Levava para a praia um cestinho com os jornais, ia escrevendo uns negócios e guardando ali, enquanto a gente conversava. Foi quando inventamos o frescobol."
.

Brrrrrr...que frio!

Agosto, 15 graus.
É o Rio que mora no mar e... gelado.



Fotos: Praia de Ipanema, manhã dessa segunda-feira
Globo Online/ reprodução


No entanto isso não chega nem perto do recorde oficial de menor temperatura já registrada na cidade: 4,8ºC, no Campo dos Afonsos, em julho de 1928.

Mas as temperaturas mínimas, no período de 1946 e 1955, também alcançaram média inferior a 15 °C, em vários desses anos, chegando a registrar a mínima de 12 °C, em julho de 1946.

Em junho de 1962, o Rio sofreu com os 14ºC, de média, registrados na cidade.

No Alto da Boa Vista as temperaturas costumam despencar. Por lá é comum a temperatura passear pelos 10 graus e vizinhanças.

Brrrr.....

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Rio, perdoa os ingratos

A falta de interesse pelo passado está aumentando cada vez mais, em busca de um imediatismo só do agora.

A vizinhança tão próxima ou tão distante acaba apagada , nesses tempos sem memória, sem os traços de quem por ali passou e morou. Triste. Poucos se importam.
Deixar registrado os locais onde residiram personalidades da vida carioca é fazer um saboroso passeio, na imaginação, pelos bairros e ruas da cidade em outros tempos. Voltamos a ver o que não existe mais, sentimos as perspectivas e expectativas de outros tempos, convivemos com a atmosfera de um Rio que passou.

David Nasser, em uma de suas crônicas da revista O CRUZEIRO, há 50 anos atrás, fez um passeio desses, inspirador, misturado à saudade do Rio que acabara de deixar de ser capital. Revisita a cidade e se interroga por tantos ondes...


Eu gosto de saber que, do outro lado da minha rua morou Elis Regina, à direita Roberto Menescal compunha e repartia seu térreo com sua música e suas cabras; que Fernando Sabino datilografou O Encontro Marcado ali à direita, que Rubem Braga curtiu as janelas do seu terraço cheio de árvores, na sua cobertura agrária inspiradora, lá no alto, pregada ao morro do Cantagalo e que adiante ficava a casa de Ernesto Nazareth. Vizinhança de outros tempos, que fizeram o Rio e acabam esquecidas.
Mas... vamos curtir um trecho da crônica de David Nasser. Vale a pena. O título dela me faz pensar que somos, todos, meio ingratos nesse esquecimento das nossas vizinhanças de outros tempos.




"Rio, perdoa o ingrato
David Nasser - 1960DOU uma volta pelo Rio, agora que deixou de ser capital. Quero ver a diferença.
Começo pelo Palácio Guanabara, vindo da Zona Sul. Naquela sacada, há muitos anos, um gaúcho teve a vida à mercê de um tenente invasor. O gaúcho era Vargas. O tenente, Severo Fournier. Poderia ter mudado o curso da História. Não o fêz, porque o gaúcho se mostrou corajoso.

SAIO do Palácio e cruzo a rua no ponto onde João Alberto teve casa. Tipo invulgar, aquêle. Quando falava, todo mundo virava auditório. Atravessou a vida brasileira em vinte e cinco anos demorados, marcando a sua presença em cada revolução, em cada aventura. Onde se mostrou mais esplêndido foi na aventura da morte. Estava em Genebra, a última vez em que o vi, e falava do Rio como de uma mulher bonita, de que não tivesse mágoa nem saudade. Aqui havia amado,vencido, e conhecera belos momentos, antes de sofrer marcas inapagáveis. Falava de Goes Monteiro, um general que muitos de vocês, guanabarinos, já esqueceram. Um general político, politizado, politizante, que guerreara os paulistas em 32, nas margens do Itararé, se é que Itararé era rio mesmo.

Num prédio velho da Rua Gustavo Sampaio morava Chico Campos, a quem os estudantes daquela época apelidaram de Chico Ciência. Mineirão de óculos. Senhor de respeitável cultura jurídica. Seu vizinho, jovem pianista, também de aros de tartaruga, também mineiro, se chamava Ari Barroso. Do outro lado da rua morava por acaso - só por acaso os cariocas moram no Rio - um carioca de nome Francisco Alves. Ari Barroso ia às vêzes à sala de Chico Alves e o acompanhava ao piano, ensaiando, enquanto da varanda do lado, Chico Campos os espiava, sem saber que estava espiando, musicalmente, a história desta cidade.

Havia outro bangalô, mais adiante, na mesma rua, onde morava um casal tranqüilo. Ela, Dona Santinha. Êle, Eurico Dutra, ou simplesmente, o Gaspar. Na manhã das eleições presidenciais, encontrei-o dando milho às galinhas, homem em paz com a vida. Venceu as eleições contra o Brigadeiro. O Brigadeiro era o que se pode chamar de cinzento, sombrio, fechado como o aeroporto de S. Paulo em dia de chuva. Morava no Flamengo.

No Leblon, entretanto, morava Cristiano, o bom Cristiano Machado, irmão do Aníbal e de Lúcia. Fizeram maldade com o puríssimo Cristiano, acenando-lhe com uma impossível Presidência da República. O honesto mineiro, que estava pagando mensalmente o apartamento do Leblon ao Instituto dos Comerciários, atrapalhou se todo, deixou-se embalar com o sonho durante meses.

Mais experiente, o General Canrobert morava do outro lado da cidade, na Zona Norte, quase no Méier, precisamente na Bôca do Mato. Quiseram torrá-lo com a candidatura à Presidência, mas percebeu o jôgo. Era homem direito e patriota. Foi o primeiro a me falar de Lott, que naquele tempo todos conheciam por Duffles. -“Lá em S. Paulo” - disse-me Canrobert - “o Duffles opinou contra a intervenção.” - “Duffles?” - indaguei. - “Duffles com um F ou dois FF?”

PELAS mesmas bandas morava, por acaso, um carioca. Chamava-se Orestes Barbosa. Chama-se ainda, graças a Deus, pois está vivo. Só bastante míope. Vive na Ilha de Paquetá e ainda faz versos, mas ninguém quer musicá-los, porque são lindos.

VINDO pela Tijuca, encontramos a casa do General Etchegoyen, um Chefe de Polícia que mandou fechar a zona, prender os bicheiros e demitir os venais. Nunca vi homem dar tanto murro em faca de ponta. Morreu naturalmente, pobre e esquecido. Também na Tijuca. Lá onde vive até hoje êsse boa praça que é o Peixoto de Castro. Aos setenta anos, mandou fazer uma piscina nos fundos de casa. Não o conhecia, mas tôdas as tardes, ao voltar do trabalho, eu passava pelo casarão de muro baixo e aberto, e perguntava a quem estivesse no jardim: - “Como vai o Peixoto?” - Invàrialvelmente, o homem respondia: “Vai bem”. Um dia, o substituto respondeu: - “Vou bem”.

SUBO pelos flancos de Santa Teresa, o único morro do Rio que não tem samba, e não posso esquecer a figura de Oswaldo Aranha, num velho solar, rodeado de amigos, e falando a um môço que começava no jornalismo, com a mesma atenção que daria a Drew Pearson quinze anos depois. Essa esplêndida casa seria ocupada depois pelo Barreto Pinto. O mesmo Barreto Pinto que iríamos encontrar, mais tarde, em trajes de veraneio, naquela mesma Rua Gustavo Sampaio, do Dutra, do Chico Campos, do Chico Alves, do Ari. Uma rua de saudade.

VENHO pela Urca onde estão hoje em dia os estúdios do Canal 6, e lembro o Cassino, um cassino bipartido, pois passava uma avenida no meio. Na entrada, pareço estar vendo um homem magro e trigueiro, Joaquim Rolla. Em Minas fôra tropeiro. Levara mulas pela serra acima, trouxera mulas pela serra abaixo. Aqui, na Urca, arrancava com tôda a dignidade as rendas de outras mulas, fazendo melhor redistribuição de riquezas. Para isso, organizava “shows” monumentais. Lucienne Boyer, Pedro Vargas, Carmen Miranda e, nascendo profissionalmente, Grande Otelo, Linda Batista, Emilinha. Um falso maestro regia a orquestra: Carlos Machado. Vinha de Paris, dos braços de Mistinguette, e ninguém imaginava a sua carreira fabulosa.

DEPOIS, a guerra. O Rio hospedando, abrindo os braços, recolhendo náufragos da catástrofe, sem se importar com a origem, a raça, a condição social. Um príncipe polonês, outro romeno, um carpinteiro francês. Do navio desce um homem gordo e estranho. Seu nome é Bernanos. Noutro dia, desembarcam dois jovens franceses: Jean Manzon e Pierre Daninos. Manzon traz uma carta de Alberto Cavalcanti, carioca exilado em Londres, para Lourival Fontes, sergipano. A guerra passa. Nova gente começa a aparecer. A estrêla, a velha estrêla de Valadares brilha sempre. Êle traz pela mão um môço deputado, de muito futuro. Seu nome é Juscelino Kubitschek de Oliveira.

FIGURAS antigas se misturam com figuras recentes, lá dentro. Flôres da Cunha parece relíquia. Mas, quando fala, impõe silêncio e respeito. O potiguar Café Filho é o deputado mais trabalhador: apresenta um projeto por dia. Desponta um novo sol, Carlos Lacerda. Na Presidência, ainda Gétulio. Já não há mais cassinos. Dutra fechou. Surgem rótulos novos para a política nacional. Jango, Jânio, Armando Falcão e Vieira de Mello. De vez em quando, emergem dos sarcófagos os fantasmas de Capanema, Mangabeira, Mello Franco. O Sr. Adhemar de Barros visita a cidade, mas todos percebem ressentimento quando fala no figurino da época, Jânio Quadros. Logo aparece Ferrari com a legenda das mãos limpas. Os Brizola, os Eloy Dutra, os Silveira, os Jurema passam a fazer história e a cidade olha os Mendes de Moraes, Ruy Carneiro, Filinto Müller, Capanema, Bias Fortes, Gilberto Marinho, como gente da Idade Média.

...

...O Rio, nesta manhã, deixou de ser a capital brasileira...

...

O DIA amanhece igual. O Rio também. O Distrito Federal vira Estado da Guanabara, o Prefeito passa a ser Governador, o Chefe de Polícia é Secretário de Segurança. Alguma confusão a princípio, muito natural, numa cidade que se enviúva de repente. Os jornais não mudam de fisionomia, mas passam a falar de certas pessoas como de gente que está longe. Faço a minha ronda de saudade. O
Palácio Tiradentes? E do Senado, no fim da Avenida? Espio aquêle monstro que é o Palácio da Fazenda. De que servirá, depois que todo o Ministério se transferir realmente para Brasília? Terei saudade do Sebastião? E o Ministério da Guerra, o Palácio da Guerra, que acontecerá ao edifício comprido, depois da mudança? O Catete, já se sabe, vira museu. O Ministério do Trabalho, o da Educação que Portinari ilustrou como um livro de azulejos? Qual será o destino disso tudo? Quem irá ocupar o austero Supremo Tribunal? Haverá gente para ocupar o Ministério da Marinha?

GANHAMOS todos êsses prédios Ganhamos a liberdade de ser município sem os ônus de Capital da República. Somos ao mesmo tempo cidade, município e capital de município. Um pedacinho de terra, feliz, do Joá a Santa Cruz. Ficamos com o nosso Corpo de Bombeiros valente e mal pago, com a nossa policiazinha mambembe viajando de bonde, com a nossa falta de água, com a nossa falta de telefones, com as nossas enchentes. Mas os nossos problemas são, de agora em diante, inteiramente nossos. Não precisamos transferi-los ao Arquiprefeito, queera, nesta cidade, o Presidente da República. As levas de nordestinos, famintos, explorados, irão para Brasília, a nova meca, onde há trabalho. Aqui haverá apenas paz de criança dormindo, como diria Dolores. Não mais os Itas, os trenda Central,os aviões desembarcando aventureiros em busca de empregos. No lugar onde se espremia uma cidade-pardieiro, uma espécie de metrópole-cortiço, surge uma boa casa, de varanda para o mar. Rachel pode voltar à Ilha, apesar da ponte, Pongetti voltará a passear de madrugada pelas ruas da Lapa, ouvindo trechos de conversa, pedaços de vida, que cantará em prosa, como o poeta da cidade, onde Castro Alves não mais desembarcará. Nem Gonçalves Dias virá do Maranhão. O caminho é Brasília. Vão todos para Brasília. Perco um amigo, Geraldo Carneiro.

OBRIGADO, Juscelino, por fazer disto uma cidade.

O RIO os viu partir com tristeza. Eram alegres paus-de-arara que haviam chegado, trazidos pela ambição e aqui se tornaram poetas famosos, funcionários de categoria, tabeliões, médicos ilustres e até Ministros de Estado. Eram mineiros, mineirões e mineirinhos, todos felizes na nova dinastia. Eram paulistas que haviam subido aos melhores cargos. Ou sulistas que perderam o sotaque, os hábitos, na cidade desprendida e hospitaleira. O Rio os viu partir com emoção. Nesses dois séculos de capital, ninguém se sentira estrangeiro dentro das fronteiras invisíveis desta cidade amiga, a menos bairrista, a menos apaixonada, a mais brasileira do Brasil. Tão senhora de si, que nada lhe restando para dar, na hora em que a despojavam de tudo, transformava em cidadãos cariocas aquêles que sedespediam. Como aquela história da árvore que perfuma o machado do lenhador. O Rio, amante, velha, enrugada, beijava as mãos do senhor que a trocava pelo amor mais môço, pela nova aventura de outono, pela Brasília mulata.

NESTA manhã chuvosa, quase fria, neste dia cinzento, o Rio deixa de ser capital do Brasil, mas não se sente infeliz por isso. Que imaginam vocês da responsabilidade, da utilidade ou da necessidade de uma beleza como esta, plantada na orla marítima, inundada de sol, feliz com os seus defeitos, qual a vantagem de ser capital política e administrativa? Acenaram-nos o consôlo de que, por muitos séculos, o centro literário, musical, artístico, não sairá daqui. Na verdade, tais condições não se improvisam, não se constroem. Até isso, entretanto, osforasteiros poderiam ter levado. Nesses duzentos anos, não temos feito outra coisa, nós, os ingratos que chegamos ao Rio, à velha Côrte, senão levá-la aos poucos, senão mudá-la aos poucos.

DE qualquer forma, obrigado, Juscelino, por fazer disto uma cidade. Com a sua Brasília, fêz do Rio uma cidade autônoma, habitável e mais vazia, embora sem o encanto de sua presença. Nós, os ingratos, nem de longe poderíamos imaginar como é bom viver longe dos políticos, das confusões, de todo êsse aglomerado humano que faz da Côrte uma cidade hostil, atravancada, sem nenhum atrativo. Ninguém podia imaginar que de repente voltássemos, sem sair daqui, a uma ilha de paz, de sol e de perdão. Obrigado, Juscelino, por não te haveres esquecido de nossas aflições na hora de nossa morte como capital, deixando-nos, como herança êsse mineirinho simpático e promissor, êsse filhote de Juscelino, que é o jovem Sette Câmara, presença imaterial de Juscelino na solução de nossos problemas deixados em meio. Obrigado, Juscelino, por haveres trocado está cidade por uma paixão recente.

O Rio te agradece por Brasília, a noiva que preferiste a um velho amor. "

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Praia do Flamengo, 132

A UNE, União Nacional dos Estudantes ,foi fundada no Rio de Janeiro em agosto de 1937.

A sua sede, na Praia do Flamengo número 132, foi originalmente o prédio da Sociedade Germania, inaugurada em 1929, e que funcionou ali até 1942, quando pela Segunda Guerra Mundial, após a Convenção dos Chanceleres em janeiro desse ano, o país rompeu relações diplomáticas com a Alemanha.

Com o início dos torpedeamentos dos navios brasileiros o clube fechou no mês de maio.

A UNE em seguidas reformas muito desfigurou o belo prédio, fechando o terraço com telhas de zinco e outras alterações sem sentido, no interior. Infelizmente, o que restava do fausto alemão desapareceu no violento incêndio do dia 1 de Abril de 1964 e demolido em 1980.

Sede da UNE, Praia do Flamengo, 132

Praia do Flamengo, 132,
quando ainda era o prédio original da Sociedade Germânia

A primeira sede própria, porém, da Sociedade Germânia foi inaugurado em 27 de Agosto de 1900, à Praia do Flamengo número 60 ( foto abaixo), e fechada em 1929 ,com a mudança para a então nova sede, no número 132.



Praia do Flamengo número 60


A Sociedade Germânia foi fundada por imigrantes estrangeiros, principalmente alemães, no mês de agosto de 1821, num pequeno restaurante na Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto, no centro da Cidade.
No ano de 1862, D. Pedro II, Imperador do Brasil, aprovou o estatuto pelo decreto número 2.698, de 6 de setembro, com o seguinte texto, respeitada a grafia da época:

"Concede à sociedade allemã GERMANIA
autorização para continuar a exercer suas funções e approva os respectivos
estatutos.

Attendendo ao que representou a sociedade allemã Germania, estabelecida neste côrte e de conformidade com a minha immediata resolução de 17 de julho do anno passado, tomada sobre parecer da secção dos negócios do império do conselho do estado, exarado em consulta de 11 de junho do mesmo anno; hei por bem, para que a dita sociedade possa continuar a exercer as suas funcções, aprovar os respectivos estatutos, com a declaração: 1o de que ficão salvas as disposições legislativas ou regulamentares relativas aos casos de dissolução da sociedade; 2o de que as alterações que nelles se fizerem, ficarão dependendo de approvação do governo imperial.

O Marquez de Olinda, conselheiro de estado, senador do império, presidente do conselho de ministros, ministro e secretário de estado dos negócios do império, assim o tenha entendido e faça executar.

Palácio do Rio de Janeiro, em 6 de Setembro de
1842, 41o da Independência e do Império.

Com a rúbrica de Sua Magestade o Imperador.

ass. Marquez de Olinda"


sábado, 7 de agosto de 2010

Pérolas do baú_2

Um compacto do baú!

Gravado em 1960, nele Luiz Bonfá canta ao violão Manhã de Carnaval.

Há 50 anos...




A música “Passeio no Rio" foi originalmente um jingle para a Varig, e seu título foi alterado, posteriormente, para “Amor em Brasília”, a fim de evitar constrangimentos ao seu amigo Tom Jobim, devido à semelhança com “Samba do avião”.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A TV de outro tempo

Quem assistia quando era criança não esqueceu. A maioria dos "cinqüentões" de hoje guarda com ternura a lembrança de "Gladys e seus bichinhos".




Exibido às segundas-feiras na TV Tupi do Rio, a partir de maio de 1955 , tinha a duração de quase meia hora. Por 10 anos, a jovem contadora de histórias desenhou seus personagens , a carvão, numa folha de cartolina. O programa, em preto e branco, era apresentado ao vivo e ...encantava com todas as cores que ela despertava em nossa imaginação.

Primeira apresentadora de programas infantis na televisão brasileira, Gladys criou a esperta e meiga formiguinha Gilda, a gatinha Clarinha, a peixinha Marci, a abelhinha Domi, a cachorrinha Lelete - um cachorrinho pequinês que eu insistia em desenhar começando pelo focinho que era um "8" deitado - e o sapo Godô.

Na década de 60, o programa saiu da Tupi e foi para a TV Excelsior, mas também saiu do ar. Dizem que foi pelos comerciais de bebidas alcoólicas nos intervalos. Depois do programa ela escreveu 38 livros, divididos nas coleções "Gladys e seus Bichinhos", "Histórias do meu Jardim", "Mundo Infinitamente Pequeno" e gravou 20 discos.

Recentemente Gladys se tornou personagem do documentário de Marina Pessanha, que conta o que ela representou para a TV.

Vamos ver um pouquinho do documentário pra matar saudades?

Clique AQUI  


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pérolas do baú

Remexendo, lá estava esse Lp, que é de 1960.





As 12 faixas são:
1 Amor Amor – (Luiz Antonio)
2 Longe É O Céu – (Tom Jobim)
3 Poema Das Mãos – (Luiz Antonio)
4 Corcovado – (Tom Jobim)
5 Eu e O Rio – (Luiz Antonio)
6 Outra Vez – (Tom Jobim)
7 Chorou Chorou – (Luiz Antonio)
8 Só Em Teus Braços – (Tom Jobim)
9 Estrada Do Amor – (Luiz Antonio) )
10 Fotografia – (Tom Jobim)

11 Ri – (Luiz Antonio)
12 Este Seu Olhar – (Tom Jobim)

Há 50 anos... essa bela capa, belos arranjos e a interpretação sempre forte de Lana Bittencourt que a midia esqueceu.

Este LP marca o grande lançamento do samba canção "Se todos fossem iguais a você"- de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, até então pouquíssimo registrado e percebido - grande sucesso da carreira de Lana Bittencourt.

Para ouvir, clique aqui. O download é em MP3 e tem a versão free.