quinta-feira, 28 de março de 2013

A Paixão de Cristo e o carioca Machado de Assis


 
“Perdoai-lhes, Senhor”, disseste quando
Quase a expirar os olhos levantaste
Ao céu anuviado
E já da morte gélido arquejando
Com fraca e triste voz pronunciaste: 
“Tudo está consumado!”
E o mundo remiu-se! De Deus à morada,
Gozando outra vida, se eleva Jesus!…
Cristãos! Penetremos a casa sagrada,
E a Cristo adoremos em torno da cruz!



caricatura de Machado de Assis
por Fabio Nienow


A Paixão de Cristo sempre ganha releituras e adaptações. O poema acima chama-se Consummatum est! e foi publicado em 1856 por um jovem de apenas 16 anos nos primeiros passos na literatura. O autor?  Machado de Assis.

Dois anos depois de lançar Consummatum est!, Machado publica no jornal Marmota Fluminense - jornal de modas e variedades do jornalista Francisco de Paula Brito - ,
o poema A morte no Calvário,
dedicado ao amigo Padre Silveira Sarmento.






A MORTE NO CALVÁRIO

Ao meu amigo
PADRE SILVEIRA SARMENTO

Consummatum est! 



 EI-LO, VAI sobre o alto Calvário

Morrer piedoso e calmo em uma cruz!
Povos! naquele fúnebre sudário
Envolto vai um sol de eterna luz!

Ali toda descansa a humanidade;
É o seu salvador, o seu Moisés!
Aquela cruz é o sol da liberdade
Ante o qual são iguais povos e reis!

Povos, olhai! - As fachas mortuárias
São-lhe os louros, as palmas, e os troféus!
Povos, olhai! - As púrpuras cesáreas
Valem acaso em face do Homem-Deus?

Vede! mana-lhe o sangue das feridas
Como o preço da nossa redenção.
Ide banhar os braços parricidas
Nas águas desse fúnebre Jordão!

Ei-lo vai sobre o alto do Calvário
Morrer piedoso e calmo em uma cruz!
Povos! naquele fúnebre sudário
Envolto vai um sol de eterna luz!
II
Era o dia tremendo do holocausto...
Deviam triunfar os fariseus...
A cidade acordou toda no fausto,
E à face das nações matava um Deus!

Palpitante, em frenético delírio
A turba lá passou: vai imolar!
Vai sagrar uma palma de martírio,
E é a fronte do Gólgota o altar!

Em derredor a humanidade atenta
Aguarda o sacrifício do Homem-Deus!
Era o íris no meio, da tormenta
O martírio do filho dos Hebreus!

Eis o monte, o altar do sacrifício.
Onde-se vai operar-se a redenção
Sobe a turba entoando um epinício
E caminha com ela o novo Adão!

E vai como ia outrora às sinagogas
As leis pregar do Sião e do Tabor!
É que no seu sudário as alvas togas
Vão cortar os tribunos do Senhor!

Planta-se a cruz. O Cristo está pendente;.
Cingem-lhe a fronte espinhos bem mortais;
E cospe-lhe na face a turba ardente,
E ressoam aplausos triunfais!

Ressoam corno em Roma a populaça
Aplaudindo o esforçado gladiador!
É que são no delírio a mesma raça,
A mesma geração tão sem pudor!

Ressoam como um cântico maldito
Pelas trevas do século a vibrar!
Mas as douradas leis de um novo rito
Vão ali no Calvário começar!

Sim, é a hora. A humanidade espera
Entre as trevas da morte e a eterna luz;
Não é a redenção uma quimera,
Ei-la simbolizada nessa cruz!

É a hora. Esgotou-se a amarga taça;
Tudo está consumado; ele morreu,
E aos cânticos da ardente populaça
Em luto a natureza se envolveu!

Povos! realizou-se a liberdade,
E toda consumou-se a redenção!
Curvai-vos ante o sol da Cristandade
E as plantas osculai do novo Adão!

Ide, ao som das sagradas melodias,
Orar junto do Cristo como irmãos,
Que os espinhos da fronte do Messias
São as rosas da fronte dos cristãos! 


Quase cinqüenta anos após a primeira publicação sobre o assunto Paixão de Cristo e quatro antes de morrer, Machado revisita a Sexta-feira Santa com o texto A Paixão de Jesus, e o publica anonimamente no Jornal do Commercio.

 
   Quem relê neste dia os evangelistas, por mais que os traga no coração ou de memória, acha uma comoção nova na tragédia do Calvário. A tragédia é velha; os lances que a compõem passaram, desde a prisão de Jesus até a condenação judaica e a sanção romana; as horas daquele dia acabaram com a noite de sexta-feira, mas a comoção fica sempre nova; por mais que os séculos se tenham acumulado sobre tais livros. A causa, independente da fé que acende o coração dos homens, bem se pode dizer de duas ordens.

   Não é preciso falar de uma. A história daqueles que, pelos tempos adiante, vieram confessando a Jesus, padecendo e morrendo por Ele, e o grande espírito soprado do Evangelho ao mundo antigo, a força da doutrina, a fortaleza da crença, a extensão dos sacrifícios, a obra dos místicos, tudo se acumula naturalmente diante dos olhos, como efeito daquelas páginas primitivas. Não menos surge à vista o furor dos que combateram, pelos séculos fora, as máximas cristãs ouvidas, escritas e guardadas, alguma vez esquecidas, outras desentendidas, mas acabando sempre por animar as gerações fiéis. Tudo isso, porém, que será a história ulterior, é neste dia dominado pela simples narração evangélica.

  A narração basta. Já lá vai a entrada de Jesus em Jerusalém, escolhida para o drama da paixão. A carreira estava acabada. Os ensinamentos do jovem profeta corriam as cidades e as aldeias, e todos se podiam dizer compendiados naquele sermão da montanha, que, por palavras simples e chãs, exprimia uma doutrina moral nova, a humildade e a resignação, o perdão das injúrias, o amor dos inimigos, a prece pelo que calunia e persegue, a esmola às escondidas, a oração secreta. Nessa prédica da montanha a lei e os profetas são confessados, mas a reforma é proclamada aos ventos da terra. Nela está a promessa do benefício aos que padecem, a consolação aos que choram, a justiça aos que dela tiverem fome e sede. Jerusalém destina-se a vê-lo morrer. Foi logo à entrada, quando gente do povo correu a receber Jesus, juncando o chão de palmas e ramos e aclamando o nome daquele que lhe vinha trazer a boa-nova, foi desde logo que os escribas e fariseus cuidaram de lhe dar perseguição e morte, não o fazendo sem demora, por medo do povo que recebia a Jesus com hosanas de amor e de alegria.

  Jesus reatou então os seus atos e parábolas, mostrando o que era e o que trazia no coração. Os fariseus viram que ele expelia do templo os que lá vendiam e compravam, e ouviram que pregava no templo ou fora dele a doutrina com que vinha extirpar os pecados da terra. Alguma vez as imprecações que lhe saíam da boca, eram contra eles próprios: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque devorais as casas das viúvas, fazendo longas orações...” — “Ai de vós, escribas e fariseus, porque alimpais o que está por fora do copo e do prato, e por dentro estais cheios de rapinas e de imundícies...” — “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque rodeais o mar e a terra por fazerdes um prosélito, e depois de o terdes feito, o fazeis em dobro mais digno do inferno do que vós”. Era assim que bradava contra os que já dali tinham saído alguma vez, a outras partes, a fim de o enganar e enlear e ouviram que ele os penetrava e respondia com o que era acertado e cabido. As imprecações seguiram assim muitas e ásperas, mas de envolta com elas a alma boa e pura de Jesus voltava àquela doce e familiar metáfora contra a cidade de Jerusalém: “Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar teus filhos, do modo que uma galinha recolhe debaixo das asas os seus pintos, e tu não o quiseste!”

  A diferença que vai desta fala grave e dura àquele sermão da montanha, em que Jesus incluiu a primeira e ingênua oração da futura igreja, claramente mostra o desespero do jovem profeta de Nazaré. Não havia esperar de homens que a tal ponto abusavam do templo e da lei, e, em nome de ambos, afivelavam a máscara de piedade para atrair os que buscavam as doutrinas antigas de Israel. Sabendo que tinha de morrer às mãos deles, não lhes quis certamente negar o perdão que viessem a merecer, mas condenar neles a obra da iniqüidade e da perdição. Todo o mal recente de Israel estava nos que se davam falsamente por defensores do bem antigo.

  A comoção nova que achamos na narração evangélica abrange o espaço contado da ceia à morte de Jesus. Judeus futuros, ainda de hoje, ao passo que negam a culpa da sua raça, confessam não poder ler sem mágoa essa página sombria. Em verdade, a melancolia do drama é grande, não menor que a do próprio Cristo, quando declara ter a alma mortalmente triste. Era já depois da ceia, naquele horto de Gethsemani, a sós com Pedro e mais dois, enquanto os outros discípulos dormiam, foi ali que ele confessou aquela profunda aflição. Tinha já predito a proximidade da morte. A aversão dos escribas e fariseus, indo a crescer com o poder moral do Nazareno, punha em ação o desejo de o levar ao julgamento e ao suplício, e cumprir assim o prenúncio do jovem Mestre. Tudo foi realizado: a noite não acabou sem que, pela traição de Iscariotes, Jesus fosse levado à casa de Anás e Caifás e, pela negação de Pedro, se visse abandonado dos seus amigos. Ele predissera os dois atos, que um pagou pelo suicídio e o outro pelas lágrimas do arrependimento.

  Talvez ambos pudessem ser dispensados, não menos o primeiro que o segundo, por mais que o grupo dos discípulos escondesse o Mestre aos olhos dos inimigos. Se assim fosse, o suplício seria igualmente certo, mas a tragédia divina não teria aquela nota humana. Nem tudo é lealdade, nem tudo é resistência na mesma família.

  A parte humana nasceu ainda, não já naqueles que deviam amor a Jesus, se não nos que o perseguiam; tal foi esse processo de poucas horas. Jesus ouviu o interrogatório dos seus atos religiosos e políticos. Era acusado de querer destruir a lei de Moisés e não aceitar a dominação romana, fazendo-se Rei dos Judeus. “Mestre, devemos pagar o imposto a César?”, tinham-lhe perguntado antes, para arrastá-lo a alguma palavra de rebelião. A resposta (uma de tantas palavras que passaram daqueles livros às línguas dos homens) foi que era preciso dar a César o que era de César e a Deus o que era de Deus. Caifás e o Conselho acabaram pela condenação; para o crime político e para a pena de morte era preciso Pilatos. Segundo o sacerdote da lei, era preciso que um homem morresse pelo povo.

  Pilatos foi ainda a nota humana, e acaso mais humana que todas. Esse magistrado romano, que, depois de interrogar a Cristo, não lhe acha delito nenhum; que, ainda querendo salvá-lo da morte, pensa em soltá-lo pelo direito que lhe cabia em tal ocasião, mas consulta ao povo, e ouve deste que solte Barrabás, e condene a Jesus; que obedece ao clamor público, e faz a única ressalva de lavar as mãos inocentes de tal sangue; esse homem não finge sequer a convicção. A consciência brada contra o crime que lhe querem impor, mas a fraqueza cede aos que lho pedem, e entrega o acusado à morte.

  A morte, fecho da Paixão, termo de uma vida breve e cheia, foi cercada de todos os elementos que a podiam fazer mais trágica. O riso deu as mãos à ferocidade, e o açoite alternou com a coroa de espinhos. Fizeram do profeta um rei de praça, com a púrpura aos ombros e a vara na mão. Vieram injúrias por atos e palavras, agravação do suplício dado entre dois ladrões; mas ainda nos falta alguma coisa para completar a parte humana daquela cena última.

  As mulheres vieram rodear o instrumento do suplício. Com outro ânimo que faltou alguma vez aos homens, elas trouxeram a consolação e a paciência aos pés do crucificado. Nenhum egoísmo as conservou longe, nenhum tremor as fez estremecer de susto. A piedade era como alma nova incutida naqueles corpos feitos para ela. Com os olhos nos derradeiros lampejos de vida, que estavam a sair daquele corpo, aguardavam que este fosse amortalhado e sepultado para lhe darem os bálsamos e os aromas.

  Tal foi a última nota humana, docemente humana, que completou o drama da estreita Jerusalém. Ela, e o mais que se passou entre a noite de um dia e a tarde de outro completaram o prefácio dos tempos. A doutrina produzirá os seus efeitos, a história será deduzida de uma lei, superior ao conselho dos homens. Quando nada houvesse ou nenhuma fosse, a simples crise da Paixão era de sobra para dar uma comoção nova aos que lêem neste dia os evangelistas.

 
(Machado de Assis, 1904)

terça-feira, 26 de março de 2013

Abricó carioca

Ao invés da pedra, no meio do caminho tem uma árvore... tem uma árvore no meio do caminho...

Esse lindo abricó de macaco, ali na movimentada rua São Clemente, em Botafogo.

foto de
Pedro Paulo Bastos
reprodução internet


 Descoberta pelo artista Roberto Burle Marx, foi introduzida no Rio de Janeiro no palco de maior destaque do paisagismo brasileiro, o Aterro do Flamengo. Hoje, a espécie popularizou-se a ponto de se consagrar uma carioca típica.

O que impressiona além de sua beleza é o odor proveniente da decomposição de suas flores e frutos. É desagradável ao olfato mais sensível. Quando o fruto cai, estoura (ficando azul por dentro) e o cheiro da decomposição fica mais forte ainda.

Abricó, na Lagoa

reprodução internet


Abricó, no Aterro do Flamengo

reprodução internet



sexta-feira, 22 de março de 2013

Sobre os trens cariocas

Aqui, em outro post,  já falamos da Estrada de Ferro da Leopoldina. Hoje vamos rememorar a outra estrada de ferro que parte da cidade.

 Em 29 de março de 1858 era inaugurada a Estrada de Ferro Dom Pedro II, atual Central do Brasil.

 Estação Central do Brasil, 1870
Foto: Marc Ferrez

Sob a direção de Christiano Benedicto Ottoni, a estrada de ferro  tinha como objetivo a construção de uma espécie de "espinha dorsal" entre o Rio de Janeiro e a estação de Japeri, que teria conexões com todas as regiões do Brasil através de ramais a serem construídos pela própria companhia, ou, por meio de outras ferrovias.

O trem da época era a vapor. E por sua densa nuvem de vapor e fuligem, expelida por sua chaminé, acabou apelidado de Maria Fumaça, que hoje ainda existe em breves passeios turísticos no interior do país.

D. Pedro II foi um grande incentivador das estradas de ferro do Brasil e sempre que podia, fazia questão de estimular e acompanhar de perto sua construção. Ele e a família imperial estavam na viagem inaugural da ferrovia, que ia da Estação Aclamação, no Rio de Janeiro, até a localidade de Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu, atual Queimados, Mais tarde a ferrovia se estendeu até Belém, atual Japeri, no sopé da Serra do Mar.

Até 1865,  a
Estrada de Ferro Dom Pedro II manteve-se como uma empresa privada - a maior empresa do Império - depois  foi encampada pelo Governo Imperial.

 Certa vez, em viagem ao exterior, D. Pedro II disse


“Na vinda examinei
aqui as oficinas centrais
desta estrada de ferro.
São muito importantes;
porém não tão bonitas
como as da estrada de ferro do Rio” 


(Diário de d. Pedro II, 29 de abril de 1876). 

reprodução da internet

A ferrovia tinha seu traçado semelhante ao da antiga estrada colonial que levava ao porto do Rio de Janeiro as riquezas minerais de Minas. Se pelo Caminho Novo, ganharam o mar, o ouro e o diamante, pela estrada de ferro igual destino encontrou o ouro verde. 

Apesar disso, apesar do vantajoso transporte de café e de cargas gerais, mais de 50% da receita da Estrada de Ferro Dom Pedro II era oriunda dos passageiros. Desde 1861 já existiam os famosos trens de subúrbio do Rio.

estrada de ferro tinha uma extensão de 48210 km, partindo da Estação da Côrte - chamada de Campo- localizada no mesmo local onde hoje se ergue o ainda imponente edifício da Estação D. Pedro II, no Campo da Aclamação (denominação que o Campo de Santana recebeu em 1822 e que perdurou durante um certo período da história, por ter sido o palco da aclamação de D. Pedro I como Imperador Constitucional do Brasil) até Queimados

Além das estações de início e fim da linha (Côrte e Queimados respectivamente), havia quatro intermediárias: Engenho Novo, Cascadura, Sapopemba (atual Deodoro) e Maxambomba (atual Nova Iguaçu).
O transporte suburbano, porém, só começou três anos depois, ao ser inaugurada uma linha entre a estação inicial e Cascadura e que contava com apenas um trem diário, que partia às 17:15h e retornava duas horas depois, com uma só parada intermediária, no Engenho Novo, razão pela qual, naquela época, esse bairro ficou sendo considerado como o marco inicial dos subúrbios. 






Cascadura, a primeira estação do subúrbio
reprodução da internet
O advento da ferrovia proporcionou um forte surto de progresso à região e a cidade foi se expandindo; outras estações foram sendo construídas ao longo da linha para servirem aos arrabaldes já existentes, assim como a outros que surgiram com o decorrer do tempo e que passaram a ser conhecidos como os “subúrbios da D. Pedro II”.

Com a República, em 22 de novembro de 1889, a Estrada de Ferro Dom Pedro II  passou a chamar-se Estrada de Ferro Central do Brasil e essas localidades se tornaram ossubúrbios da Central”

Por analogia, as localidades à margem das demais ferrovias do Rio passaram, também, a ser chamadas de subúrbio. O transporte ferroviário tornou-se, então, no principal fator de desenvolvimento e integração das áreas suburbanas à vida da cidade, hoje relegado a um papel secundário devido ao abandono das autoridades governamentais ao longo do tempo.



quinta-feira, 21 de março de 2013

Canção de Outono




da carioca
                                              Cecília Meireles
 

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão…

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…


quarta-feira, 20 de março de 2013

Nossa homenagem ao carioca Emilio Santiago



Conheci quando participou de um programa,  A Grande Chance, de Flávio Cavalcanti, na extinta TV Tupi.
Depois trabalhou como crooner da orquestra de Ed Lincoln, além de muitas apresentações em boates, como o 706 no Leblon, onde por muito tempo dividiu o palco com a maravilhosa Áurea Martins.

Em 1973 lançou o primeiro compacto com as canções Transa de amor e Saravá Nega.

Sua voz sempre deu o tom perfeito, diferente, para qualquer música, mesmo quando regravada. Sua interpretação ímpar o tornou o maior cantor da MPB dos nossos dias,  e nos deixa órfãos  nessa terra que é repleta de cantoras, mas pobre de cantores.

Ao carioca EMÍLIO SANTIAGO nossa homenagem!


a primeira gravação



o grande sucesso



e

O show " O melhor das Aquarelas"   completo para matar saudades!



terça-feira, 19 de março de 2013

Igreja de São José, da Lagoa

Aqui já falamos da Igreja de São José, no Centro da Cidade.

 Nesse DIA DE SÃO JOSÉ vamos visitar uma outra igreja, na cidade, que leva seu nome: a IGREJA DE SÃO JOSÉ, no bairro da Lagoa.

Cartão postal da época da inauguração

Foto da fachada


 Foto do interior

 
No terreno da atual igreja existia a pequena capela de São José, erguida em 1898 para servir aos funcionários da Fábrica de Tecidos Corcovado e aos operários das demais manufaturas daquela região em franco crescimento industrial.

A Igreja de São José, da Lagoa tem um dos lados para o Colégio de Aplicação da UFRJ e fundos para o Hospital da Lagoa. É uma igreja em formato oval de traços modernos, longamente envidraçada  - a primeira do mundo a ter vidro ray-ban cuja estrutura vertical em curvas é revestida de pastilhas azuis.

O projeto modernista data de 1961e é do arquiteto Edgar de Oliveira da Fonseca, o mesmo autor do projeto da Catedral Metropolitana, da Avenida Chile, e do campus da PUC, na Gávea, que tem como marca os pilotis - um dos fundamentos da arquitetura de Le Corbusier - ," onde todos se encontram e tudo acontece."

Vale revisitar um pouco da história da região.

 No início da ocupação da cidade, os atuais bairros da Lagoa e Jardim Botânico eram repletos de chácaras e sítios.


No final do século XIX, começaram a surgir as fábricas, a partir da criação de linhas de bonde em 1871.  Em 1884, implantava-se no bairro a Companhia de Tecidos Carioca, na atual Rua Pacheco Leão, junto ao Rio do Algodão, onde se instalou a Vila Operária Sauer. Em 1889, surgiu a Fábrica de Tecidos Corcovado, na Rua Jardim Botânico. Depois de demolidas, as fábricas deram origem a ruas residenciais do bairro.

A Fábrica de Tecidos Corcovado foi fundada por José da Cruz, em 1889, em terras da antiga chácara de João Calhau.

A foto de Marc Ferrez, abaixo, mostra a fábrica como vista da Fonte da Saudade.


A fábrica encerrou suas atividades na década de 1940 e teve seu terreno desmembrado em lotes para a construção de moradias, já de população de maior poder aquisitivo que os operários.



A vila dos operários da Fábrica Carioca, composta por 132 casas em 1921, e a Vila Sauer, de propriedade da Companhia de Saneamento, cuja construção se iniciou em 1891 e se compunha por 89 casas para famílias operárias e 22 cômodos para solteiros, estes situados em um mesmo prédio da rua Abreu Fialho.

Quando a América Fabril comprou a Fábrica Carioca de Tecidos, incorporou também a Vila Sauer. 

Assim, na década de 1920, todo o casario operário do Horto passou à propriedade da América Fabril. Porém as terras da região eram, e ainda são, da União. As vilas operárias situavam-se onde hoje se encontram as ruas Abreu Fialho, Caminhoá, Estella, Pacheco Leão, Fernando Magalhães, Alberto Ribeiro e Mestre Joviniano.

A Fábrica Carioca tinha um Clube para os seus funcionários, situado onde hoje é a Rede Globo (Rua Von Martius) e era tradicional no seu time de futebol e nos bailes que promovia. Havia ainda a Escola da Fábrica, a farmácia da Fábrica... uma série de instituições de fomento a Cultura e ao lazer dos trabalhadores. Muito desse patrimônio foi incorporado pela América Fabril e alguma coisa ficou para trás no tempo, restando apenas na memória dos moradores.



Muitos desses operários das fábricas e moradores da Chácara do Algodão eram militantes comunistas e a organização deles era bastante combativa e ligada ao Partido Comunista.



 




Fotos   Reprodução da internet

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ernesto Nazareth e Vinícius de Moraes

Podemos  celebrar as duas comemorações desse ano - 150 anos de nascimento de Ernesto Nazareth e 100 anos de nascimento de Vinícius de Moraes -  com a parceria desses dois cariocas.

A pedido da cantora Nara Leão, Vinícius colocou letra em Odeon, composição de Nazareth.
Ficou lindo! E a gravação - PHILIPS, 1968, arranjo e regência de Rogério Duprat -   vale ouvir sempre!







quarta-feira, 13 de março de 2013

Papa no Rio de Janeiro

Em tempos de eleição papal, vale recordar a visita de João Paulo II,
 o primeiro papa a visitar a cidade do Rio de Janeiro,
e que por aqui esteve duas vezes: 1980 e 1997.

O papa também respirou ares cariocas em 1982,
quando por uma breve escala de seu voo
 rumo à Argentina, fez um rápido discurso.

Momento que se tornou célebre 

Na realidade essa frase estava em outdoor espalhado pela cidade,  em anúncio de oportunidade da  Bradesco Seguros, criação, à época, da agência Arplan, para a visita do papa em 1997.

João PauloII , o "papa peregrino", carismático e com facilidade para usar a mídia, cativou os brasileiros nas suas passagens por aqui.

Em 1980, uma música foi feita em sua homenagem: "A bênção, João de Deus", composta  por Péricles de Barros.

missa no Parque do Flamengo, dia  1° dejulho de 1980, levou uma multidão ao local, que tinha decorada, na ponta da língua, o hino ao papa.

 folheto de divulgação da missa,
que tinha a letra do hino ao papa no verso.


Para esta missa  , só das paróquias da Zona Norte saíram 225 voluntários, para zelar - no meio da multidão que cobriu o gramado em frente ao altar montado no Monumento dos Pracinhas - pelas árvores do esplêndido parque de Burle Marx. 

Algumas curiosidades marcantes se destacaram nos encontros com o papa, pela cidade:
  •  Os garis da Comlurb, ao recolherem toneladas de papel picado e copos descartáveis,do Aterro do Flamengo, tiveram uma surpresa: não encontraram uma lata de cerveja sequer, nem um arbusto depredado.
  • O completo silêncio, no Maracanã ocupado por 150.000 pessoas, ouvindo um sermão de 50 minutos ininterruptos. Algo jamais visto no estádio mais ruidoso do mundo.
  • Não houve registros de ocorrências na delegacia da Cidade de Deus - que normalmente contribuia, à época, para as estatísticas policiais com três homicídios por dia.

Toques místicos e de grande espiritualidades cercaram os ritos pela cidade.A missa campal de 1980 foi  "Um espetáculo de fé, mas um espetáculo" - que começou com um pôr-do-sol cheio de cores, foi ajudado por uma noite de lua e acabou com um show de fogos de artifício cercando o altar na baía de Guanabara.

Na saída do Maracanã, atirou-se diante do carro de João Paulo II o tenente Martinelli, coordenador da segurança no portão 13. Queria beijar a mão do Santo Padre e foi recompensado em seu arrojo: João Paulo II deu-lhe um terço. Durante a missa no Aterro, os soldados da Polícia do Exército acompanharam o "Pai-Nosso" e o cântico do Ofertório, partilharam a água dos cantis com a multidão, por cima de cercas, e saíram de forma para ver, dentro do Monumento dos Pracinhas, João Paulo II sendo vestido com os paramentos litúrgicos.

O papa apesar de percorrer muitas cidades brasileiras nessa ocasião, foi no Rio onde esteve mais próximo, fisicamente, das pessoas.


No Maracanã...o papamóvel, antes de parar diante do altar, deu uma volta e meia lentamente, pela geral do estádio. No Aterro, passeando devagar pela plataforma apenas ligeiramente superior ao mar de cabeças, para que todos pudessem enxergá-lo, e baixo o bastante para estar ao alcance de mães que lhe estendiam crianças e braços que se espichavam para tocá-lo, o papa levou o carioca a um surto desconhecido de delírio: 500.000 pessoas cantando o "Queremos Deus".  ( Revista VEJA)







Outro momento marcante foi quando o papa subiu o Morro do Vidigal.





Pelos alto-falantes instalados nas partes alta e baixa do Vidigal, a associação de moradores divulgava os “Dez mandamentos para ver o Papa”:

1 – Ajude seu irmão a ver o Papa. Não é só você que deseja vê-lo.
2 – Mantenha a calma. Para demonstrar devoção não é preciso exagerar.
3 – Colabore com a Comissão de Segurança. Siga as orientações.
4 – Não corra, não empurre,não se exalte.
5- Antes de você, pense nos velhos, nos inválidos, nas mulheres grávidas.
6 – Vá para a Niemeyer se a sua casa não estiver no caminho do Papa.
7 – Alimente-se, evite o que possa provocar sede, vá ao banheiro.
8 – Peça aos amigos, parentes e patrões que não moram na favela para não insistir em vir ao Vidigal ver o Papa.
9 – Compenetre-se de que o mundo está com os olhos voltados para nós.
10 – Faça com que o Papa se sinta em casa.
 

O papa João Paulo II surpreendeu a todos quando foi  visitar um barraco, o de Dona Elvira Almeida de Lima, na época mãe do presidente da associação de moradores, Armando de Almeida.

“O Papa num barraco, imagina! 
Quando ele entrou na casa da Dona Elvira ninguém acreditou. 
Mas ele provou que é uma pessoa simples. Até tomou café com ela. 
Foi inesquecível. A visita foi rápida, mas muito emocionante."
( estofador de móveis aposentado Luis Alberto Corrêa e Castro,
de 59 anos, 
e um dos moradores)

 O Papa teria dado benção e até entrado na cozinha. Emocionada, ela pensou em transformar seu barraco num museuzinho. Mas Dona Elvira morreu anos depois sem realizar o sonho. Hoje, seu barraco não existe mais.

Após sair do barraco de Dona Elvira, uma nova surpresa. João Paulo II tirou um anel que tinha no dedo e o entregou a um dirigente da Pastoral de Favelas, Padre Ítalo Coelho, dizendo: 

“Padre, venda este anel pelo melhor preço e distribua o dinheiro entre os favelados”.




Mas, ao contrário, a venda não foi feita e o destino do anel  ficou sendo discutido pelas autoridades, que decidiram que o anel seria exposto no Museu de Arte Sacra e uma réplica colocada na Igreja do Vidigal. A réplica foi roubada e nunca mais recuperada. Quando o Papa veio ao Rio em 97 ele deu uma nova réplica para o Vidigal. O anel agora fica guardado num cofre e só é exposto em ocasiões especiais.


Na visita de 1997 do  "João de Deus" ao Rio, mais momentos marcantes.

O papa mesmo mais idoso e mais combalido, continuou a nos encantar.

Um desses momentos foi  no estádio do Maracanã, no Encontro com as Famílias, quando após o lindo momento em que cantou  a bela "Ave Maria" , de Vicente Paiva e Jaime Redondo,  Fafá de Belém quebrou protocolos, e correu para abraçar o papa, e este se levantou.


 "Estava tomada de uma emoção imensa e caminhei até o Papa para abraçá-lo.
Ali fui todos os brasileiros"
(Fafá de Belém)







Outro, Roberto Carlos cantando para o papa, na Missa Campal, no Aterro do Flamengo 







Um grande papa que emocionou a cidade.

Beato João Paulo II,
rogai por nós!


domingo, 10 de março de 2013

Ernesto Nazareth, 150 Anos de Nascimento

"Ele foi um dos grandes arquitetos da brasilidade,
 fundindo linguagem de danças de salão 
com elementos africanos das danças populares."


Comemoramos os  150 anos do nascimento  de Ernesto Nazareth  - Ernesto Júlio de Nazareth  - no próximo dia 20 de março.



 O carioca Ernesto Nazareth nasceu na casa nº 9 da Rua do Bom Jardim, atualmente Rua Vidal de Negreiros, no Morro do Pinto -  antigo Morro do Nheco-  bairro de Santo Cristo, na região do Porto do Rio de Janeiro.

 Para muitos dividiu a música brasileira. Depois dele começou a música ser verdadeiramente brasileira, com ritmos sincopados e brejeirice.

Pianista demonstrador da Casa Vieira Machado & Cia, na Rua do Ouvidor,  atração da sala de espera do Cinema Odeon -  que homenageou batizando sua composição mais famosa, o tango "Odeon" -  Ernesto Nazareth  traduzia para seu instrumento a cultura urbana que se formava e fervia, na virada do século XIX para o XX. Ernesto Nazareth "uniu os dois universos: o salão e a rua, Chopin e os chorões, o negaceio rítmico e a complexidade técnica."

Muitos músicos ao longo dos tempos, se declararam influenciados pela riqueza musical de Nazareth, como o fizeram Tom Jobim, Radamés Gnattali, Villa Lobos, dentre outros.



Vídeo de parte da série de programas apresentados
por Tom Jobim na década de 80, 

na Rede Manchete, intitulado "A Música Segundo Tom Jobim"
e dirigidos por Nelson Pereira dos Santos


A grandeza musical de Ernesto Nazareth, no entanto, não foi enxergada por ele próprio.
Ele queria ter sido não o Ernesto Nazareth, popular, mas um músico erudito. Morreu com essa frustração.

Leia mais AQUI.

sábado, 9 de março de 2013

Histórias de mulheres na cidade do Rio de Janeiro...3

Duas décadas após a expulsão dos franceses comandada por Estácio de Sá,
 caberia a uma mulher, 
Inês de Sousa
a defesa da cidade do Rio de Janeiro, outra vez ameaçada por corsários. 

Esposa do governador da Capitania, Salvador Correia de Sá, Dona Inês conseguiu impedir o desembarque de franceses na Baía de Guanabara. Estes pretendiam saquear a cidade na ausência do governador, que saíra em expedição acompanhado de grande contingente de homens.  


Então, Inês de Sousa reuniu mulheres e crianças, vestiu-as com armaduras masculinas e as fez simular manobras de defesa na praia. 



Os corsários, assustados, desistiram de assaltar a cidade, contentando-se em extrair lotes de pau-brasil do litoral fluminense.




sexta-feira, 8 de março de 2013

Histórias de mulheres na cidade do Rio de Janeiro...2


O primeiro recolhimento feminino sediado na cidade do Rio de Janeiro foi o de Nossa Senhora da Ajuda, que teve sua fundação solicitada à realeza portuguesa por representantes da elite colonial. O principal agente nesse processo foi uma mulher: D. Cecília Barbalho, que teria oferecido recursos do seu próprio bolso às autoridades eclesiásticas locais, para a construção da instituição que seria destinada a abrigar mulheres influentes da cidade.
Assim, em 1678, junto à ermida da Ajuda, localizada no Largo da Mãe do Bispo, atual Cinelândia, ergueu-se a casa da recolhimento que, inicialmente abrigou Cecília, suas três filhas e outras duas meninas de famílias igualmente importantes da cidade.

Em 1750, a casa de recolhimento seria transformado em mosteiro, por autorização da Coroa.

" D. Cecília Barbalho desejava
retirar-se do bulício do mundo."
(Convento da Ajuda, por Vieira Fazenda)


À direita, o prédio do antigo Convento da Ajuda,
 no local onde, hoje, fica a Cinelândia.

Infelizmente, as casas de recolhimento serviram, também, como mais um instrumento de pressão social contra a mulher, durante o longo período que se estende da colônia até fins do século XIX. A ameaça de recolhimento lançada às mulheres, brancas ou negras, em caso de qualquer desobediência doméstica, foi uma constante até o pensamento liberal-iluminista aqui chegar, com sua crítica à vida religiosa em clausura e à condição social parasitária da mulher, o que levou os conventos e recolhimentos à acentuada decadência, sobretudo na capital. Foi o  lado sombrio do convento,  usado como prisão para filhas desobedientes esposas que se rebelavam contra o marido.
No entanto, em resposta a essa condição de confinamento obrigatório, o Convento da Ajuda ficou famoso por suas transgressões às regras monásticas de recato e austeridade. Lá as monjas revertiam a situação em que se encontravam por decisão familiar. Não deixavam, contudo, de sofrer represálias pela conduta desafiadora.

Como essas monjas vinham dos altos extratos da sociedade colonial, elas reproduziam no convento os hábitos de suas vidas : eram servidas por escravas, vestiam jóias e roupas luxuosas e mantinham longas conversações com visitantes nos locutórios, muitas vezes contando com apresentações de peças de teatro e números musicais para entretê-las. 

Com o passar do tempo, as freiras da Ajuda ficaram conhecidas pelos seus dotes culinários, especialmente os doces, encomendados por ocasião dos mais diversos festejos, principalmente no século XIX.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Histórias de mulheres na cidade do Rio de Janeiro


No final da década de 1910, alguma senhoras das sociedades carioca, entre elas a Baronesa do Bonfim, Maria José Vilas Boas de Siqueira Mesquita, a filha Jerônima Mesquita  e sua amiga, a enfermeira Stella Guerra Duval, formaram o grupo denominado Damas da Cruz Verde.

 Jerônima

 Stella

Inicialmente prestaram auxílio no combate à gripe espanhola, que em 1918 assolava as cidades portuárias do Brasil. Dessa experiência nasceu o projeto de fundar a maternidade Pró-Matre, no Rio de Janeiro.

A primeira reunião do grupo aconteceu no dia 1º de abril de 1918 -  há quase 95 anos - e contou com a presença de Laurinda Santos Lobo, Jenny Monteiro Amaral, Helena Figueiredo Araújo, Jerônima Mesquita, Ernestina Passos Bulhões de Carvalho, Nair de Azevedo Teixeira, Maria Engrássia Celso Carneiro de Mendonça e Lo Landbery , além do professor Fernando Magalhães, ginecologista e obstetra, e de Fernando Guerra Duval, marido de Stella,que conduziu o encontro. Decidiram pela implantação de programas de proteção à mulher pobre e à infância carente. 

Como primeiro passo, foram buscar o apoio do Presidente Wenceslau Brás, ao qual solicitaram um casarão na avenida Venezuela para instalarem a entidade.

A maternidade foi inaugurada em 9 de fevereiro de1919, com duas enfermarias, uma de obstetrícia e outra de ginecologia, num total de 40 leitos. O ambulatório para atendimento às gestantes alcançou rapidamente a média semanal de 162 consultas. Criaram ainda, logo a seguir, uma creche com capacidade para abrigar 20 crianças. Em poucos anos ampliaram os postos de atendimento, bem como os serviços de assistência à população feminina e a infância. 

As iniciativas desenvolvidas pelas Damas da Cruz Verde ganharam maior amplitude política com o surgimento da FBPF Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922. A maior parte desse influente grupo ajudou a fundar essa organização, que incorporou as reivindicações assistenciais a seu programa político.

As militantes mantinham sempre um espaço para debates sobre a proteção à maternidade e à infância, tanto nos congressos que realizavam, quanto em suas ações públicas em defesa dos direitos da mulher.


domingo, 3 de março de 2013

“Getz/ Gilberto”, 50 anos de um disco histórico

No bilhete, o baixista Tião Neto mandava notícias (“news quentinhas”, como chamou) dos músicos brasileiros em Nova York:

" Estamos gravando dia e noite. Eu, por exemplo, gravei para a Verve um LP de b.n. (bossa nova), em companhia de Stan Getz, João Gilberto, Tom Jobim e Milton Banana. Embora minha opinião seja suspeita, acho que o disco vai ser o melhor de b.n. internacional gravado até hoje”. 

O texto, publicado em 11 de abril de 1963 na coluna “O GLOBO nos discos populares”, fazia referência a “Getz/ Gilberto”, gravado um mês antes e lançado no ano seguinte — Tião não citara a participação de Astrud Gilberto. Mais que uma “opinião suspeita”, o relato atestava a sensibilidade de seu autor em identificar no álbum, gravado há 50 anos, um clássico — desde o lançamento, louvado por músicos de jazz e aclamada pelo público em geral, acumulando Grammys e semanas nas parada de sucessos, mantendo-se influente até hoje.



João Gilberto parecia não concordar. Na mesma coluna, em 30 de março de 1964, uma nota afirmava, grafando errado seu nome:

“João Alberto não gostou de seu LP da Verve com Stan Getz. Disse que, se pudesse, embargaria o lançamento do micro...”.

No livro “Chega de saudade”, Ruy Castro conta que os dois tinham dificuldade em concordar sobre qual era o melhor take entre os gravados — e muitas vezes o produtor Creed Taylor tinha que dar o voto do desempate. Nesse ambiente, o encontro rendeu, além de um grande disco, um diálogo histórico, com Tom Jobim como intérprete.

João pediu: 
“Tom, diga a esse gringo que ele é um burro”.

 Tom, para Getz:  
“Stan, o João está dizendo que o sonho dele sempre foi gravar com você”.

Mais tarde, o brasileiro reclamaria também da equalização do disco, que fez o saxofone soar mais alto.

João Donato, porém, lembra que seu xará, pouco depois da gravação, mostrava-se empolgado com o encontro:
Logo depois, fomos fazer uma temporada de oito semanas na Itália, eu, João Gilberto, Tião Neto e Milton Banana. Eles falavam animados da gravação com Getz, João me contou que tinha gravado com ele uma música chamada “Garota de Ipanema”, que eu não conhecia. Ele me mostrou ali — recorda Donato, amante do jazz que apresentou a música de Getz a João Gilberto.

Bev Getz, filha do saxofonista, conta que seu pai sempre se referiu com carinho ao fato de ter cruzado caminhos com os brasileiros:
Ele adorou ter trabalhado com Tom Jobim e João Gilberto. Sentiu que houve uma compreensão profunda e instantânea entre eles, baseada na música que estavam criando juntos — conta ela, que atualmente procura João Gilberto, que conheceu quando era criança, para conversar sobre suas memórias da reunião entre ele, Tom e Getz.
 ....

A reunião dos músicos — o sax de Getz, o violão e a voz de João, o piano de Tom, o canto de Astrud, a bateria de Milton Banana e o baixo de Tião Neto (que por anos foi “apagado” da ficha técnica do disco, substituído por Tommy Williams) — foi registrada sem muita atenção pela imprensa brasileira na época, que pouco antes acusara quase em uníssono o “fracasso” do concerto de bossa nova no Carnegie Hall em 1962. A própria Verve não parecia entusiasmada com o álbum, que manteve por um ano na gaveta.

Quando o disco enfim saiu (junto com o single de “The girl from Ipanema”, em versão reduzida, sem os vocais de João, que originalmente gravara um dueto com Astrud) e começou a vender milhões, a atenção imediata foi para a voz feminina que estava ali. Astrud nunca gravara nada antes, apesar de cantar em encontros musicais e de ter se apresentado na histórica “Noite do amor, do sorriso e da flor”, em 1960.
... A cantora, que ganhou US$ 120 pela gravação (a tabela do sindicato), dá outra versão em seu site.

 A ideia teria sido de João:  

“Um dia, poucas horas antes de Stan Getz vir ao nosso hotel em Nova York para um ensaio com João, ele me disse com um ar de mistério: ‘Hoje você vai ter uma surpresa.’” Mais tarde, quando tocava “Garota de Ipanema” com o saxofonista, João teria casualmente chamado a mulher para cantar uma parte em inglês. “Quando terminamos, João virou para Stan e disse (em inglês de Tarzan) algo tipo: ‘Amanhã Astrud canta no disco... o que você acha?’. Stan foi muito receptivo, disse que era uma ótima ideia”, ela conta.


Fosse de quem fosse, a sugestão puxou o disco e rendeu a Astrud, além de enorme popularidade, um Grammy — melhor gravação (ao lado de Getz) e uma indicação (ao lado de Tom) como Revelação.
Perdeu para os Beatles.

Fonte /OGLOBO/youtube