quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Rio pelo olhar de Genevieve Naylor

 Genevieve Naylor fotografou o Brasil, em 1941 e 1942, sob os auspícios do Office of Inter-American Affairs (OIAA), órgão dirigido por Nelson Rockefeller e responsável pela implementação da Política da Boa Vizinhança.  Viajou como funcionária do governo norte-americano tendo de cumprir protocolos fotográficos bem definidos. O resultado desse jogo de influências é um conjunto de fotografias que tiveram certo impacto na conformação de uma certa imagem de Brasil por lá.
 


Genevieve Naylor chegou ao Brasil como funcionária do Departamento de Estado, então dirigido pelo miliardário Nelson Rockefeller. Tinha apenas 25 anos. Era de família pertencente à elite de Boston, tendo estudado desenho e pintura. Apaixonou-se pelo professor, o ucraniano Misha Reznikoff, que a acompanhou na viagem ao país.

Outubro marca o aniversário de sua passagem pela cidade.
 
Quando desembarcou no Rio, em outubro de 1940, necessitava de salvo-conduto assinado por Lourival Fontes, que só foi concedido em 1942. Não se importou muito com isso. Viajou por dezenas de cidades do país e fotografou, mesmo sem a permissão da ditadura de Getúlio. O DIP queria que ela fotografasse a arquitetura moderna, os bairros nobres, os domingos de sol, as obras de caridade da primeira-dama Darcy Vargas. Assim o fez. Mas, apaixonada pelas ruas do país e por gente comum, fez dezenas de fotos de homens do povo, de pobreza, de transportes caóticos.

“O filme está sendo racionado para todos. Não posso me dar ao luxo de fotografar tudo o que quero”, escreveu ela à irmã.
Gabava-se do domínio das coisas cariocas: 
“Orson Welles conhece os tradicionais roteiros dos grandes desfiles do carnaval. Mas não conhece nada sobre a Praça Onze, onde acontece o verdadeiro carnaval negro carioca”, tripudiava. 


"Genevieve  parece ter saído
de uma história de Robin-Hood,
com seu arzinho de jovem pajem,
sua elegância bem colorida,
uma pena sempre atrevidamente
espetada no chapéu."

Genevieve Ingressou na Associated Press em 1939, a primeira mulher numa agência americana. Daí, publicou na “Life”. E muito das características da revista estiveram presente nesse trabalho em terras brasileiras. Nele mostrou  o corpo e os lugares. O primeiro como suporte de relações sociais,  através do qual elas se revelam e os lugares -  por onde viajou  - foram figurados na elaboração de uma geografia sensível que mostrou um Brasil múltiplo.

Blind Man in Rio, 1941


Rio de Janeiro, 1941 

 

Sunday Strollers on Copacabana Beach, 1941

http://www.columbia.edu/cu/record/archives/vol21/vol21_iss18/record2118.20c.gif 

Copacabana                  Carnival Celebrants                
 


Esse trabalho originou uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, a terceira individual de uma mulher, por lá.  Mas a obra de Genevieve Naylor não é muito conhecida no Brasil. 

Vinicius de Moraes encantou-se por Genevieve Naylor:
 
“Nada escapa... à maquininha dessa enfeitiçada.
Perto dela não há momento fotográfico
que passe sem cair naquela arapuca bem armada.
Genevieve dá um pulinho — e a vida ali ficou
batendo asa na sua chapa impressionada.”

Genevieve morreu em 1989 aos 74 anos. Nos quase 50 anos seguintes à sua temporada brasileira, tornou-se prestigiada fotógrafa de moda. Tem ainda registros famosos do escritor Jean-Paul Sartre, da família de Henry Fonda e do músico Stan Getz, que ouviu tocar ao lado de Tom Jobim em encontros em Nova York.


Fotos: reprodução de  www.facebook.com/pages/Genevieve-Naylor/124544120897330

domingo, 27 de outubro de 2013

Ainda na Avenida Atlântica, em Copacabana

EDIFÍCIO OK, AVENIDA ATLÂNTICA.
Ele ainda está por lá, mudou de nome, hoje é edifício Ribeiro Moreira, foi o primeiro arranha-céu da orla, na praça do Lido, em Copacabana e viu ao seu redor crescer um bairro.




O edifício OK, o primeiro à esquerda da foto, foi construído em 1928 e um dos clássicos do art-decô carioca.

Na  foto ainda vale reparar: 
  • . o edifico Palacete Atlântico -  na área de sombra -  um dos primeiros da orla e demolido em 1975;
  • depois da casa, o edifício Londres, também foi demolido no meio da década de 80 e em seu lugar construído o Rio Atlântico Hotel.
  • o morro do Inhangá ainda bem visível da praia;
  • e, também, bem no fundo vemos o edifício Itabira - de 6 andares -  da av Nossa Senhora de Copacabana, 249  (segundo nos acrescentou o amigo do blog Ruffio Machado)
Detalhes

  •  Folheto de lançamento

  • A varanda e o elegante bar OK, no térreo do edifício, em 1941, pelas lentes refinadas de Genevieve Naylor





  •  em 1950


  • Hoje o entorno do prédio é bem diferente e ele, também, com inúmeros "puxadinhos".


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Adeus à última casa da Avenida Atlântica

Casa de pedra vai ao chão.





Casa de Pedra, última da Avenida Atlântica, em Copacabana, é demolida para dar lugar a um hotel luxuoso
Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo

Fotos - reprodução da internet

Desde esta segunda-feira a última casa da Avenida Atlântica , o número 2691, localizada na esquina com a Rua Santa Clara, já não faz parte da paisagem da Praia de Copacabana.

No fim da tarde, a retroescavadeira colocava abaixo as últimas paredes do imóvel, conhecido como a “casa de pedra”. A demolição levou três dias e ainda vai levar cerca de um mês para o terreno ficar todo limpo.

No lugar será erguido um hotel de luxo e levará dois anos para ficar pronto, antes das Olimpíadas

O comprador, o empresário Omar Peres, dono do restaurante La Fiorentina, tem como sócio no negócio o dono da Avianca, German Efromovich.



Omar Peres em frente à casa antes da demolição

A propriedade saiu por R$ 32 milhões — corretores estimam entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões o valor de um imóvel do gênero na orla do bairro e terá projeto arquitetônico da iraquiana Zaha Hadid, que incluirá na  entrada, uma parede com pedras da casa, que receberá, do designer Aroeira, imagens de grande nomes do Rio. A construção terá 12 andares e cerca de cem apartamentos.

O hotel terá o diferencial, além da vista (é claro!) dos mimos aos clientes, como mordomo bilíngue exclusivo — que pode fazer compras e arrumar o armário, por exemplo —, carro para buscar e levar ao aeroporto, bebidas como bons vinhos e uísque na diária e um spa no terraço.

A avenida Atlântica que já foi uma avenida de casarões hoje se tornou um paredão de espigões.

Avenida Atlântica em 1919


A casa de pedra que se foi pertencia a Zilda Azambuja Canavarro Pereira,  ali morou desde 1917  entre prataria, ourivesaria, tapeçaria, objetos em marfim e tantas outras lindas peças e obras de arte. Inclusive obras únicas, como uma autêntica escultura criselefantina em bronze patinado de Demetre Chiparus, além da tela “O Voto de Heloisa”, do pintor Pedro Americo e um par de poltronas no estilo Luis XV, datado do século 19, que pertenceu à coleção pessoal de Elizabeth Taylor.

Madame Canavarro - como a conheciam - nasceu no dia 2 de julho de 1911 e os que com ela conviveram, dela diziam que sempre teve um coração imenso! Linda, inteligente, poderosa, digna e uma das últimas damas da sociedade carioca.

Zilda ,  que de solteira era Azambuja Lowndes, famílias cariocas tradicionalíssimas, vivia cercada de empregados leais e era sempre visitada por vários sobrinhos seus herdeiros, que cuidavam dela. Foi casada com Olavo Canavarro Pereira, falecido em 1968.

Muito generosa com os empregados, que a cercavam de carinho, Zilda recebia todas as quartas-feiras para almoço os sobrinhos e os parentes. Com problemas de garganta, apesar de já não mais falar, Zilda caminhava com agilidade, sem mesmo precisar de qualquer ajuda. À última grande festa que compareceu - bodas dos Lowndes, seus primos, no Country Club - Zilda foi calçando salto alto, então, aos 99 anos!...
Segundo consta na vizinhança, Zilda deixou todos os bons empregados garantidos em seu testamento.

Zilda morreu em maio de 2012, aos 101 anos.

Tramitou no Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural um processo de consulta sobre a demolição da casa de pedra. Embora a construção não fosse tombada, o caso precisou passar pelo conselho porque é o que determina a lei para todos os imóveis da cidade erguidos antes de 1938. Infelizmente a demolição foi autorizada e, mais uma vez, a história da cidade virou pó.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Design RIO

O design ainda é bastante mal compreendido, e a Semana Design Rio que está acontecendo na cidade tem importância central na democratização e conscientização da sociedade sobre como o design está presente na qualidade do seu dia a dia.
O design está relacionado à experiência de uso das coisas. Se estou no shopping e quero ir ao banheiro, por exemplo, procuro aqueles dois bonequinhos que indicam o masculino e o feminino. Eles são como se fossem letras. Quando colocamos uma seta na placa, formamos a frase. O designer ensina a sociedade a ler de uma forma mais criativa.
Todos sabemos que design não é apenas uma boa idéia. Design é um substantivo, mas acima de tudo um verbo. “Fazer design” é todo um processo que só se completa e triunfa quando sai do papel e interage.

 Inovar é um trabalho duro e teimoso. Design é solução e também é problema. Design é desejo e também é necessidade.
Vemos bancos de praça, postes, fachadas e  objetos, produtos, detalhes de prédios ou projetos do mobiliário urbano que são verdadeiras aulas de design. O design está em qualquer esquina, está presente em todos os lugares, marcos arquitetônicos e espaços.
VEJA O RIO... QUANTO DESIGN! Pelas ruas do Centro, da Zona Sul e  bairros do Rio ele está por todo o canto. É só olhar!
É comum nos produtos eletrônicos de hoje a inscrição “Made in China” vir junto com uma outra: “Designed in California”. Como se sonha que o DESIGNED IN RIO se propague e se popularize. 
Trabalhamos – e eu me incluo nesse nós -  muito para isso!


sábado, 19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes, 100 anos, mais curiosidades

Nas últimas semanas, a reportagem da ÉPOCA vasculhou seu acervo pessoal e localizou dez letras inéditas de canções de Vinícius de Moraes.

 São músicas em parceria com Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell e Toquinho. Também surge do baú a revelação de uma parceria surpreendente: Vinícius com João Gilberto. É um encontro raro, até hoje desconhecido, de dois expoentes da Bossa Nova.

As letras estavam no arquivo de Vinícius na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.



 Depois de compor “Goste de mim”, Vinícius e Carlos Lyra consideraram que a música não cabia em seus repertórios. “Saudade de lá”, também dos dois, foi escrita para a peça Pobre menina rica, de 1959. Acabou engavetada, porque o espetáculo ficou longo demais.

Outra canção, “Desafio”, em parceria com Baden Powell, não veio à luz por desavença entre os parceiros.

As músicas encontradas trazem versos à altura do talento e da criatividade de Vinícius. É o caso de versos melodiosos, como o samba vai sair com suas cores, seus enredos, seus amores, seus pastores mais gentis (de “Desafio”).

Ou do jogo de palavras terra seca mais danada, não dá nada, dá saudade (de “Saudade de lá”).

O resgate das músicas pode gerar, quem sabe, um álbum de inéditas .Carlos Lyra e Francis Hime, pretendem musicar as letras de “Amando demais” e “Tema do Francis”, cuja melodia se perdeu.

As letras de duas canções inéditas de João Gilberto feitas em parceria com Vinícius estavam datilografadas e continham algumas rasuras, com a caligrafia de Vinícius. Falam de amor, flor e dor, como era comum nos primórdios da Bossa Nova.Como não havia partitura, não é possível avaliar a qualidade das canções. João Gilberto, que vive recluso em seu apartamento no Rio, confirmou a parceria, mas não deu detalhes.

A dupla de João Gilberto com Vinícius é ainda mais surpreendente pela distância das duas personalidades.
 
João Gilberto, pouco afeito ao convívio, é o oposto de Vinícius, sujeito gregário que escolhia suas parcerias pela amizade. 

Os dois chegaram até a se estranhar na década de 1960.

Um primeiro atrito aconteceu por causa de amortecedores de automóvel. Em janeiro de 1963, Vinícius escreveu a Tom: “João passou por aqui e fez uma de suas gilbertadas: não me telefonou nem procurou. Não sei se por que esqueceu (ou gastou o dinheiro) (...) que eu lhe mandara para me conseguir dois amortecedores dianteiros para o Mercedes”. Em dezembro daquele ano, Vinícius tomou um bolo de João Gilberto na Itália. Ele estava de passagem por Roma, João Gilberto estava em Paris. Conversaram ao telefone. João Gilberto disse que precisava muito encontrá-lo. Vinícius passou uma semana num hotel com diárias caras para esperá-lo. João Gilberto não apareceu.

A dupla Tom e Vinícius, a mais famosa da música brasileira produziu perto de 60 canções. Como tudo em que puseram a mão virou ouro, não ficou praticamente nada na gaveta. As duas letras encontradas agora são uma surpresa até para seus herdeiros.

A parceria com Carlos Lyra deixou pelo menos duas músicas inéditas. Uma delas, “Goste de mim”, tem ritmo de Bossa Nova e foi criada naquele início da década de 1960. Nenhum dos dois parceiros gravou. “Há música que não tem carreira. A gente espera que alguém se interesse, que alguém grave, mas não acontece”, diz Lyra. A segunda canção é um xote com título “Saudade que dá”, composta para a peça musical Pobre menina rica, escrita em 1962.

A última parceria de Vinícius, com o músico Toquinho, foi a que rendeu uma produção mais extensa. A dupla compôs 85 músicas, gravou cerca de 30 discos e fez mais de 1.000 shows no Brasil e no exterior. Foi a fase mais popular de Vinícius.  A música inédita da dupla foi uma das únicas canções da dupla, que foi censurada. Ela seria o tema de abertura da novela O Bem-Amado, de Dias Gomes, a primeira em cores da televisão brasileira.

Curta alguma letras perdidas

"Veleiro vai"Edu Lobo e Vinícius de Moraes

Vaga, meu veleiro inocente
Tua vela contente, vento sul
Vai indo, vai veleiro!
Vai , tua vela vai longe
Tua vela vai lindo neste azul...
Ruma para a ilha perdida
Uma ilha esquecida, vida
Vida e amor...
Venho de uma terra tão triste
Onde o amor não existe
Sem adeus...
Tenho, meu veloz veleirinho
Que encontrei meu caminho
De esperança
Lança a âncora agora
Teu amor não demora
Ah, que saudade! Ah, que tristeza!
Lança âncora agora
Meu veleiro da aurora...


(Petrópolis, 17 de março de 1966)

CURIOSIDADE:
Posteriormente, Lobo acabou passando a melodia, de sua autoria, para Torquato Neto, e surgiu, então, "Veleiro". 

"Menininho triste"
Tom Jobim e Vinícius de Moraes
Menininho triste
Espiando na janela
O rostinho triste
Colado na vidraça
A gente que passa
Nem sabe que existe
Um menininho triste
Cheio de saudade.

Saudade de alguém
Alguém que nunca vem
Alguém que não vem mais...

Você não se importe
menininho triste
O amor é mais forte
Que a sua tristeza
Há uma menininha
Que é uma beleza
E sempre que passa
Olha pra você

E um dia vai chegar
E ser só de você
E nunca mais partir...

dá/mas não – dá



"O primeiro amor"
João Gilberto e Vinícius de Moraes
Onde está
O meu primeiro amor
E a canção que eu fiz
A canção...
Estará
Nos versos que não diz
O meu coração

Onde estará a flor
Que eu dei ao meu primeiro amor?

Se morreu
Ai não morreu em vão
Porque reviveu
Na canção que eu fiz
Na canção feliz
Que nasceu.




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vinícius de Moraes 100 anos! VIVA!


 
Onde anda você...?


É verso da sua bela canção...

...que agora inspira o blog pra encontrar, nos dias atuais, o poetinha carioca.
Encontrar na sua música, nos seus versos, textos, sorrisos, shows gravados.Tanto material que nos traz de volta seu jeitinho, sua vidinha, plagiando os diminutivos tão presentes na sua fala.

Certa vez, dele disse Carlos Drummond de Andrade:
"Vinicius é o único poeta brasileiro
que ousou viver sob o signo da paixão.
Quer dizer, da poesia em estado natural.
Eu queria ter sido Vinicius de Moraes". 

Otto Lara Resende assim o definiu:
"Manuel Bandeira viveu e morreu
com as raízes enterradas no Recife.
João Cabral continua ligado à cana de açúcar.
Drummond nunca deixou de ser mineiro. 
Vinicius é um poeta em paz com a sua cidade, o Rio.
É o único poeta carioca.
 

Mas Vinicius dizia, de si mesmo, nada mais ser que

"um labirinto em busca de uma saída."

Por falar em saudade...

Quero nessa semana de seu centenário recordar, e homenagear, o grande Vinícius, listando vários posts, aqui do blog, que passeiam pela sua obra e vida.

Clique e saboreie!

Vinicius 95 anos, parte1

Vinicius 95 anos, parte2

Vinicius 95 anos, parte 3

Vinicius 95 anos, parte 4

Vinicius 95 anos, parte 5

Vinicius, trinta anos sem o poetinha

Vinicius e a garota de Ipanema

Vinicius e o Orfeu Negro

Ernesto Nazareth e Vinicius de Moraes

Vinicius, o filme

"...cada volta tua há de apagar
o que esta ausência tua me causou..."
 
VIVA DIA 19 DE OUTUBRO, CENTENÁRIO DE VINÍCIUS DE MORAES!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Crônicas cariocas de todos os tempos


Rodrigo Melo Fardo de Andrade disse, em artigo de jornal, em 1923:
(A prosa do senhor Ribeiro Couto, O Dia. RJ, 17.02.1923)

 "O sr. Ribeiro Couto tem, fundamentalmente, um temperamento de poeta. A sua prosa não poderia, pois, deixar de ser prosa de poeta. Não, que isso signifique páginas de divagação transcendente, escritas em estilo precioso e eriçado de imagens. Muito ao contrário. O que se quer dizer é que a sua prosa é um quadro mais amplo apenas que ele encontrou para o desenvolvimento dos "motivos" de suas canções."

E é essa prosa poética que faz o texto abaixo tão saboroso.

O bloco das mimosas borboletas
Ribeiro Couto

 Ribeiro Couto


Foi na véspera do carnaval que encontrei o Sr. Brito. Ele esperava o bonde junto ao Hotel Avenida.

— Boa tarde, Sr. Brito !

— Boa tarde!

E, como eu parasse para acender um charuto, o Sr. Brito, aproximando-se, pediu com humildade:

— O seu fogo, faz favor?

Estava ali há dois minutos, com o cigarro apagado, à, espera do bonde e de um conhecido para emprestar-lhe o fogo. O Sr. Brito ouviu dizer, ou leu num almanaque, que o banqueiro Laffite obteve o seu primeiro emprego porque o futuro patrão o viu curvar-se para apanhar um simples alfinete. Então faz economias de caixas de fósforos, de cafés, de engraxate. Pode ser que algum capitalista se aperceba disto e o convide para um alto negócio.

Aliás, há uma outra razão para o Sr. Brito agir desse modo: possui duas interessantes filhas, as duas com vinte anos e pouco, as duas caríssimas, as duas impondo uma importância social que está em absoluto desacordo com o modesto cargo que o Sr. Jocelino de Brito e Sousa ocupa, silenciosamente, no Ministério da Fazenda.

Eram cinco e meia da tarde. Como a multidão nos acotovelasse, convidei o Sr. Brito a tomar um aperitivo na Americana. O Sr. Brito, aceso o seu cigarro, principiara a lamentar-se; e a conversa, ainda que fastidiosa, excitava a minha curiosidade.

O Sr. Brito é dos homens mais notáveis da cidade. Eu é que sei. No entanto, ninguém lhe dá importância. Tem uma obesidade caída, um desânimo balofo, um desacoroçoado j eito de velho funcionário pobre que se desespera em casa com as meninas. As meninas querem vestidos, precisam freqüentar a sociedade, consomem-lhe todo o ordenado. Ultimamente, deram para um furor de luxo que não tem medida. E o Sr. Brito, triste, cogitativo, anda sempre assim, de fazer dó: os braços cheios de embrulhos, o paletó-saco poeirento, os cabelos grisalhos esvoaçando-lhe pelas orelhas, sob o chapéu de palha encardida.

— Sr. Brito, um vermute.

— Acho bom, doutor, acho bom.

Tem um pormenor impressionante no rosto: as sobrancelhas muito peludas, também grisalhas, como que enfarinhadas de cinza. São agressivas as suas sobrancelhas.

Na pessoa mansa do Sr. Brito, esse ponto enérgico é único, isolado. Tirando as sobrancelhas, todo ele é doçura.

A pêndula do bar martelou seis horas. O Sr. Brito, que ia engolir o vermute, teve uma indecisão, o cálice suspenso à boca.

Li nos seus olhos inquietos esta frase : “As meninas estão à minha espera”.

Exatamente. O Sr. Brito bebeu o gole e disse:

— As meninas estão à minha espera.

Ah, a minha feroz alegria! O Sr. Brito é assim : um homem que eu, há tempos, venho surpreendendo, desvendando. Tomando posse da sua individualidade sem resistência. Estou a ponto de “saber” todo o Sr. Brito. Há ocasiões em que, encontrando-o, digo para mim mesmo : “Ele vai falar-me de um artigo tremendo que saiu hoje contra o presidente da República na Vanguarda”. É delicioso : o Sr. Brito depois de me apertar a mão põe-se a conversar sobre vagas coisas e, de repente, como se obedecesse ao meu comando, pergunta:

— Leu hoje a Vanguarda? Que artigo tremendo! Que horror!



* * *

— Tome outro vermute, Sr. Brito.

Sacudiu a cabeça que não.

— As meninas devem estar impacientes.

— E como vão elas?

— Assim, assim. O senhor é que não quis mais aparecer?

(Ele pergunta isso sem o menor interesse oculto. Sabe perfeitamente que não pretendo casar-me.)

— Muito serviço, não calcula.

— Mas aos domingos, doutor! Uma vez ou outra ! Dá-nos sempre muita honra e principalmente muito prazer.

— Obrigadinho, obrigadinho. Hei de aparecer. O senhor sabe que aprecio muito as suas meninas.

— Elas são boazinhas, isso é verdade. Gostam de divertir-se, de dançar, de brincar. Não pensam na vida.

Não pensam na vida! Para os seus olhos de pai essas duas interessantes princesas de arrabalde não pensam na vida. E elas não pensam senão na vida! Tratam exclusivamente de suas preciosas pessoinhas, dos seus preciosos proj etos de casamento, do seu precioso luxo que custa as lágrimas secretas do pai desconsolado.

— Faça o favor, beba outro.

Aceita. E expõe o seu caso de hoje, o caso que eu há vinte minutos estou esperando, como um caçador mau, de emboscada:

— Não avalia as dificuldades que passei de ontem para cá! Imagine que era necessário arranjar um conto de réis e eu não encontrava agiota nenhum que me quisesse emprestá-lo. Afinal, sempre convenci o Moraes, aquele da Rua da Misericórdia, que por sinal todos os meses já me rói metade do ordenado. Esta vida, meu caro doutor!

— Sei o que ela é, Sr. Brito. Eu também tenho os meus apertos.

O vermute o perturbou um pouco, predispondo-o para a confidência. Continuo insinuando a expansão, pelo meu ar atento, pelo meu todo solicito, pelas minhas frases curtas que deixam sempre uma ponta, para o Sr. Brito emendá-la com o que tem no íntimo.

- As meninas morreriam de tristeza se eu não conseguisse nada.

— Ah!

— O senhor sabe, são moças, querem divertir-se.

— É natural!

— O carnaval faz todo mundo perder a cabeça. O senhor compreende: qual é o pai que numa ocasião destas não f ará um sacrifício?

— Justo!

Pedi mais dois vermutes ao garçom.

— Esses empréstimos abalam muito a bolsa de um homem, Sr. Brito.

- Um horror. Nem fale.

— Mas obteve, então?

Toma um gole. Chupa os beiços, enxugando-os. E desabafando:

— Ah, felizmente!

— Meus parabéns sinceros.

Sorriu, feliz. Seus olhos, debaixo das sobrancelhas crespas e peludas, cintilaram contentes. As filhas morreriam de tristeza se não tivesse arranjado! Tomou outro gole.

Tive uma sensação inefável de haver ganho a tarde.

— Sr. Brito, há de me dar licença...

— Pois não, pois não!

Paguei a despesa, levantei-me. Ele bebeu o resto do cálice e levantou-se também, sobraçando os embrulhos. Senti que ia dizer-me qualquer coisa ainda sobre as meninas, sobre o carnaval, sobre aquele embrulhos, sobre o empréstimo...

— Elas estão ansiosas. Está vendo isto? São as fantasias que já haviam escolhido na cidade. E caixas de lança-perfume. E confete.

— E serpentinas.

— Tudo !

O Sr. Brito, na sua ternura, ter-me-ia abraçado se não foram os embrulhos.

— Não sabe o que é ter duas filhas, dois anjos como eu tenho !

O bonde da Gávea parara para o assalto dos passageiros. O Sr. Brito ia precipitar-se, mas uma idéia lhe fuzilou no cérebro:

— Não quer tomar parte no bloco das meninas?

Desta, vez o Sr. Brito me apanhara de surpresa. Não gostei. Aquilo me escapara.

— Ah, elas organizaram bloco este ano?

— Alugamos um autocaminhão . Elas se lembraram do senhor, mas tinham perdido o telefone da sua pensão. E eu ia-me esquecendo, que cabeça! É o Bloco das Mimosas Borboletas. Então, vem?

O bonde partia, campainhando.

— Telefone para lá!

Falou isso correndo, querendo voltar a cabeça para mim e ao mesmo tempo preparar o pulo sobre o estribo. Pulou. Dependurado, com os embrulhos lhe atrapalhando os movimentos, era sublime o Sr. Brito. E o bonde virou a esquina da Rua S. José, levando a bondade, a ventura, o êxtase daquele pai. O Moraes, da Rua da Misericórdia, estava na porta da Brahma, torcendo os bigodes.


* * *

Devo tomar parte no Bloco das Mimosas Borboletas?


* * *

Quarta-feira de Cinzas eu entrava tranqüilamente num café quando o Sr. Brito surgiu, súbito. Quase nos abalroamos.

— Oh, Sr. Brito! Vamos a um cafezinho?

Estendi-lhe o braço procurando envolvê-lo pelo ombro. Ele tentou esquivar-se, esboçando uma recusa frouxa. Insisti com veemência e ele entrou afinal, sombrio.

Observei-lhe que o laço da gravata estava desfeito. Teve um gesto nervoso, apalpando o colarinho e o peito da camisa, como se aquilo lhe tivesse feito lembrar qualquer coisa desagradável ou dolorosa.

Tive receio de pensar o que ele iria dizer-me... Aquele desleixo na gravata era significativo. Eu sabia que era Lalá, a mais velha, quem lhe dava o nó, todas as manhãs. Ele ia dizer... Não, o Sr. Brito dessa vez não disse nada.

Então puxei conversa.

— Divertiu-se muito no carnaval?

Deu de ombros, molemente, num desânimo de vida. E, puxando um cigarro de palha do fundo do bolso do paletó, fez-me com os dedos trêmulos o gesto de pedir fósforos.

Minutos escoaram-se. Não tínhamos assunto. Era mais prático nos despedirmos.

— Bem, Sr. Brito, vou aos meus negócios.

Segurou-me pelo braço. Tive um choque. A revelação ia sair.

Passaram-se ainda uns momentos de silêncio. Perguntou-me, enfim:

— Por que não quis tomar parte no nosso bloco?

— Ora, Sr. Brito, eu não sou carnavalesco. Acredite: não saí de casa os três dias.

— Pois lamentei, lamentei muito a sua ausência.

— Ora, por que, Sr. Brito?

— O senhor é um moço sério. Se o senhor tivesse vindo, olharia pelas minhas filhas.

Senti um susto e uma pérfida vontade de rir. Tive a impressão do ridículo e ao mesmo tempo de um vago drama palpitante. As sobrancelhas do Sr. Brito, um instante fitas em mim, moviam-se agora, acompanhando um tique nervoso de piscar, indício de comoção.

— Muito agradecido pela confiança, Sr. Brito. Porém, não sei se sou digno.

— Sei eu, sei eu.

Comecei a ficar impaciente.

— Que houve de extraordinário, Sr. Brito?

— Imagine o senhor que ontem, último dia, como estivesse com os meus rins muito doloridos não pude acompanhar as meninas ao carro. Sabe, os meus rins...

— Sei, Sr. Brito.

— O bloco era grande, umas trinta pessoas. Enfim, havia o Gomes, da minha repartição. O Gomes com a senhora. Fiquei tranqüilo por esse lado e confiei-lhe as meninas. Sabe, os rapazes me pareciam distintos, mas nunca é bom confiar demais.

— Claro.

— Pois meu caro, não lhe conto nada; até esta hora as meninas ainda não voltaram.

— Oh, Sr. Brito!

— O Gomes está abatido. Diz que não sabe como é que elas lhe escaparam das vistas.

No rosto tranqüilo do Sr. Brito os olhos, sempre doces, faiscaram de dor. As sobrancelhas tremeram-lhe.

— E verdade o que me diz?

— Des-gra-ça-da-men-te!

Caiu-lhe a cabeça sobre o peito, no desconsolo da calamidade. Não tendo o que dizer (e já um pouco arrependido de não haver tomado parte no bloco, mas por motivos inconfessáveis) reuni todas as minhas cóleras contra aquele Gomes:

— Porém, Sr. Brito, esse suj eito, esse Gomes, é um patife!

O Sr. Brito fez com a cabeça que não, que o Gomes não era um patife. E disse devagar, com tristeza:

— A mulher dele também até agora não chegou em casa.


* * *

Íamos pela rua cheia de povo barulhento e feliz.

— Sr. Brito, cuidado com esse auto.

Atravessamos.

Eu tentava qualquer coisa em prol daquela dor :

— Sossegue. Elas dormiram com certeza em casa de amigas.

— Ninguém sabe delas.

— Paciência, Sr. Brito, paciência. Talvez já estejam em casa, até.

Barafustamos por um telefone público. Esperamos um momento até que D. Candinha (irmã solteirona e velhusca do Sr. Brito, que criara as meninas, sem mãe, desde cedo) atendeu do outro lado do fio.

— Elas já chegaram? — rompeu o Sr. Brito, com a voz gritada e comovida, ansioso da resposta.

Largou o fone no gancho, sem ânimo.

— Vamos embora, doutor. Não apareceram! Não há notícias!

E fomos para o Jornal do Brasil. No balcão da gerência o Sr. Brito redigiu com letra trêmula o anúncio : “Um conto de réis — Gratifica-se com um conto de réis a quem der notícias positivas sobre o paradeiro de duas moças que anteontem, vestidas à século XVIII, tomaram parte no Bloco das Mimosas Borboletas, da Gávea. Dirigir-se à Rua República de Andorra nº 7”.

O empregado do jornal pegou o anúncio,leu-o, teve um sorriso discreto e fez a conta.

O Sr. Brito pagou o anúncio e saímos.

Na rua teve uma idéia repentina:

— E verdade, onde vou buscar outro conto de réis?

E a sua doce pessoa crispou-se de angústia.


* * *

Ao nos despedirmos, ele queixou-se de uma dor de cabeça. Parou um momento levando a mão à testa. E, súbito, amontoou-se na calçada. Eu não tivera tempo de ampará-lo. Então, com esforço, suspendi aquela massa pesada. Pessoas que passavam me ajudaram. Estava morto.

Seu cadáver foi no automóvel da Assistência Pública para casa, depois das formalidades legais.

Acompanhei-o.

D. Candinha estava fazendo o jantar e veio ver quem batia, manca de reumatismo, limpando as mãos no avental. Espantou-se. Atrás dos óculos os olhos se esbugalhavam, sem compreender. Até que, como que se lembrando, deu um grito:

—As meninas! — e ergueu os braços exclamativos.

— É o Sr. Brito, D. Candinha — intervim com calma. Está doente. Muito doente.

— O Jocelino! Pobre Jocelino! Que foi que aconteceu pro Jocelino?

E pôs-se a limpar os olhos com o avental sujo.


* * *

Entre as pessoas que velavam o cadáver, Gomes destacava-se pelo seu ar digno de homem ferido no seu amor próprio. A mulher desaparecera definitivamente. Suspeitava-se de um estudante de medicina, um certo Aristóteles, sergipano, um dos influentes do Bloco.

Havia quem apertasse a mão de Gomes, com comoção, apresentando-lhe condolências. Dava a impressão de um parente. A fuga da mulher estabelecera entre ele e o defunto um laço confuso de família.

Gomes agradecia, com um lenço sempre encostado ao rosto.



* * *

Pela madrugada entrou Cotinha, a filha mais moça.

Entrou pé ante pé. Ninguém lhe perguntou donde vinha nem por que vinha. Havia na sala apenas três ou quatro pessoas pobres da vizinhança, além de mim. Todas as demais — Gomes inclusive — se tinham retirado por volta da meia-noite. (Gomes explicou que estava abatido, precisava retirar-se, repousar.) D. Candinha dormia lá dentro, numa cadeira de balanço da sala de jantar, vencida pelas agitações das últimas quarenta e oito horas.

Cotinha caminhou receosa para o meio da sala e atirou-se sobre o caixão. E chorou, chorou, sacudida, como que se esvaziando a repelões.

Quando acabou de chorar, veio para onde eu estava, toda encolhida como uma criminosa, de olhos inchados e vermelhos. Apertei-lhe a mão que me estendeu e ficamos em silêncio. Depois de uns minutos, como um sentimento surdo e talvez hostil nos impelisse a explicações, perguntei:

— E D. Lalá?

— Não sei. (Deu de ombros, espichando o beiço num muxoxo contrariado.) Cada uma de nós foi para o seu lado.

Fiquei estarrecido.

— E a senhora do Gomes?

Disse que ignorava também o destino da outra. Formosíssimo! Eis o epílogo do Bloco das Mimosas Borboletas no carnaval de 1922 na muito leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro — pensei com os meus botões.

Depois Cotinha contou que soubera da morte do pai por acaso, porque passara de automóvel pela porta, “com um senhor”... E acrescentou tímida rompendo o pudor:

— O senhor com quem eu estou.

Tive um baque. Era possível? Um cinismo lavado de lágrimas, assim, era possível?

— Mas D. Cotinha: que bicho mordeu as senhoras, desse modo, de repente? Ficaram doidas?

Sacudiu os ombros, pondo as duas mãos nos olhos, como uma criança e chorando de novo:

—É a vida... Que é que o senhor quer?

As outras pessoas da sala olhavam-nos, a cochichar entre si. Sem dúvida faziam mau juízo. Talvez pensassem até que era eu o comparsa de Cotinha.

Um cheiro de flores pisadas e cera errava, acre. Um sentimento pungente me dominava, abafando uma vaga, uma imprecisa sensação de sarcasmo. As oito velas ardiam silenciosas em torno do caixão do Sr. Brito, que tinha um crucifixo de prata à cabeça. Eu não conseguira ainda, até aquele instante, definir o meu estado de alma. Parecia-me, profanamente, que qualquer coisa de cômico se insinuava por tudo aquilo. Talvez, porém, fosse engano meu, ruindade minha, tendência cruel do meu temperamento. No fundo, eu estava zonzo com o que me rodeava: o Sr. Brito, a filha que voltava, as pessoas pobres e imbecis da vizinhança, as oito velas,. o cheiro de flores pisadas, a idéia do cavalheiro com quem Cotinha passeara de automóvel, a idéia de Lalá, a idéia de Aristóteles furtando a mulher do Gomes, a lembrança do anúncio que saíra de manhã no Jornal do Brasil, o ridículo do Bloco das Mimosas Borboletas — tudo aquilo ainda não recebera uma forma definitiva no meu espírito.

Cotinha merecia umas bofetadas?

O problema de saber se Cotinha merecia ou não umas bofetadas me invadiu, súbito. Fiquei a remoer essa inspiração, como se ela encerrasse um alto valor poético ou filosófico. Eram quatro da madrugada. Uma pessoa levantou-se, em bico de pés. Outra pessoa levantou-se também. Daí a um quarto de hora Cotinha e eu estávamos sós.

Ficamos nós dois, longo tempo, calados, olhando o Sr. Brito.

Por duas vezes Cotinha soluçou:

— Coitado do meu paizinho!

Por outras duas vezes suspirou:

— E Lalá que não sabe de nada! Que horror!

Claridades pálidas do dia nascente entraram vagarosas pelas janelas. Um torpor me tomou. Cotinha chorava agora encostada a mim.

O barulho do primeiro bonde, que vinha vindo longe, me ergueu na cadeira. Cotinha encostou a cabeça ao espaldar, fatigada, humilhada, amarrotada, sem valor e sem destino, como uma pobre coisa.

Para vencer o torpor, tomei a deliberação de sair, de andar. Fui olhar então, de perto; o meu defunto amigo, o meu campo de observações e de conquistas psicológicas, o meu infeliz Jocelino de Brito e Sousa. O rosto estava calmo, como a sorrir. As sobrancelhas peludas continuavam agressivas, enérgicas, na fisionomia doce, doce para todo o sempre. Aquela massa humana estava agora liberta de pensar no Moraes da Rua da Misericórdia.

— D. Cotinha, até logo, à hora do enterro.

Ela veio até a porta da sala, que dava para uma área. Levantei a gola do paletó por causa do frio da madrugada.

Estendi a mão para Cotinha. Encarei-a com piedade e revolta: gordinha, morenota, um leve buço enegrecendo-lhe o lábio .superior. E irresponsável, camaradinha, fácil, derrotada nas suas vaidades de princesa de arrabalde por aquele complicado drama de fuga e morte.

Olhando-me a fito, vi nos olhos dela a recordação da vida j á antiga: o lar do Sr. Brito, os domingos de visita ou passeio com outras pessoas que freqüentavam a casa, os projetos ambiciosos de bons casamentos, o luxo, a comodidade quotidiana de uma situação de respeito e prazer. Agora, tudo acabado, para nunca mais!

Desabou a chorar sobre o meu ombro : que era muito infeliz, que ia sofrer muito, que não sabia como perdera a cabeça, que agora estava perdida, que queria morrer também...

Consolei-a como pude, segurando-a pelos pulsos. Dei-lhe o conselho de mandar procurar Lalá (ela devia suspeitar, pelo menos suspeitar onde estivesse a irmã) e despedi-me rápido.

A rua! A rua deserta, vazia, livre, para os meus passos e para o meu rumo! Corri por ali afora, corri para alcançar o bonde e para desentorpecer. E enquanto corria levava a sensação de fugir a uma coisa fascinante e ameaçadora, de que eu me libertava enfim... uma coisa suave e horrenda que não poderia mais acontecer na madrugada pura do arrabalde...

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( extraído do livro "Antologia Escolar de Contos Brasileiros", Edições de Ouro - Rio de Janeiro)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Como o Rio tem mudado nos últimos anos!

Essa é a frase que disse
o escritor Luis Martins, em 1948, 
quando escreveu a observação curiosa - abaixo -
sobre o Rio de Janeiro:



"Como o Rio tem mudado nos últimos anos! 

Pode-se quase dizer que Copacabana vai aos poucos matando o Rio. 

Porque Copacabana pouco ou nada tem a ver com o Rio. 

Copacabana é alegre, é luminosa, é turística, cosmopolita, vitaminada, esportiva e incontestavelmente bela.

Mas não é o Rio. 

O Rio é a velha cidade imperial das ruas mal calçadas que os crepúsculos se iluminavam a bico de gás. Soa os becos estreitos e sinuosos, com recordações coloniais apontando a cada passo. 

É a evocação persistente e viva dos romances de Macedo, da música de Nazareth, das serenatas boêmias dos bairros sossegados dos subúrbios tristonhos, em noites profundamente quietas de misterioso luar... 

O Rio é a rua da Misericórdia, a praça da Bandeira, o Catete, o largo do Machado, a Tijuca, Vila Isabel, Flamengo, Laranjeiras, Andaraí, Engenho Novo. 

O Rio é a Lapa."
(trecho de Noturno da Lapa)
                          

Em 1957,  entrevistado para o Correio da Manhã, lhe perguntaram se, longe, tinha saudades do Rio, respondeu:

" Não . Tenho muitas saudades do Rio quando estou no Rio.


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Pra pensar! 



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Protestos no Rio


Em tempos de protestos tão violentos... flash de um protesto com muita elegância, em 1942, captado pelas lente, tão elegantes quanto, de Genevieve Naylor, fotógrafa americana.

Outros tempos.





terça-feira, 1 de outubro de 2013

Festival do Rio e a alma carioca

O Festival do Rio , dentre suas inúmeras atrações está exibindo interessantes documentários em que o Rio de Janeiro é o ponto de partida de suas histórias, como:

 

'Carioca era um rio'

Documentário de longa-metragem, de Simplício Neto
Você sabe por que quem mora no Rio é chamado de carioca?
É uma referência ao nome de um rio que hoje é um canal de esgoto que deságua na Baía de Guanabara. Aborda a história desse curso de água, que muitos anos atrás ajudou no desenvolvimento urbano da capital.

  veja o trailer




'Fla x Flu'

Documentário de longa-metragem , de Renato Terra
Fala sobre essa histórica rivalidade futebolística através de depoimentos de personalidades como Zico, Assis, Leandro, Junior, Romário, Pedro Bial e Tony Platão, além, claro, de torcedores.
- É um filme sobre paixão. Não é cronológico, não é didático, não é para boleiro.
Queríamos sair do nicho de documentário sobre futebol
e reproduzir um pouco a experiência que é a realidade do torcedor.
A gente acha que esse formato pode agradar a públicos que torcem por outro time.
Quando se fala de paixão, se fala para um público mais amplo
– explica o cineasta Renato Terra.

 
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'Boteco'

Documentário de longa metragem, de Ivan Dias
Quando o assunto é alma carioca, não se pode deixar de falar sobre um lugar com o qual os moradores do Rio têm muita familiaridade: o bar.
O documentário "Boteco" usa esse ponto de encontro sagrado dos cariocas
para explorar um tema mais amplo: a imigração portuguesa no Brasil.
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