sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

FELIZ ANO NOVO

 O jornal carioca Jornal do Brasil,
em vários dezembros publicou textos que falavam de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade -  o mineiroca de Copacabana, da Rua Conselheiro Lafayete .

Há 40 anos atrás, em dezembro de 1973, ele dizia

"Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança."

E em dezembro de 1997, o JB publicou uma receita especial...

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



A todos os amigos do blog
FELIZ ANO NOVO!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL


As palavras de Guimarães Rosa,
em Grande Sertão: Veredas nos disseram

 “O correr da Vida embrulha tudo,
a vida é assim:
esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega
e depois
desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
 

Tempo de Natal é um pouco assim. 

Corrido, embrulhado pra presente, inquietante.
Principalmente quando a gente é criança. 

Que espera, que ansiedade... realmente desinquieta!

Com o cheiro da rabanada no ar,
as castanhas logo aí já cozidas só pra cortar
(vou comendo desde que aparecem),
os embrulhos, laços, bolas, luzes e o presépio
  - que nos dias de hoje tanto falta, pois esquecem do aniversariante -
deixo com vocês , o lindo poema de Jorge de Lima, 

pra ler e ouvir,
e o desejo de um

Feliz Natal!


"POEMA de NATAL"
Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto de crianças.

Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.

E quem passar
vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!

– Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
– Bom dia, Jesus!  – dirá uma voz.

E outras vozes cochicharão:
– É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!

– Como está forte!  – Nada mudou!
– Que boa saúde!  Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)

Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
–  É o menino do carpinteiro!

E vendo esses modos de operário
que sai aos domingos para passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.

E quando voltarmos
pra casa, à noite,
e forem para o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.

Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.

Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão. "







segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Copacabana, princesinha do mar


Entre os anos 1940 e 1950, o bairro de Copacabana teve um grande crescimento demográfico. 
Praticamente dobrou:  passou de pouco mais de 74 mil para quase 130 mil habitantes.

Nessa época começam a surgir linhas de ônibus ligando a Zona Norte e os subúrbios a Copacabana.


Av. N.S. de  Copacabana, 1935

Av. N.S. de  Copacabana, 1940


Av. N.S. de  Copacabana, 1950


Av. N.S. de  Copacabana, 1950


Numa edição de 1948, a revista Copacabana dizia que 


“as grandes organizações do Rio de Janeiro não podem mais ficar limitadas ao Centro, já que os moradores da Zona Sul possuem mais capacidade aquisitiva, mais senso de progresso e mais realidade de civilização”.

 A decadência da Lapa também contribuiu decisivamente para a boêmia se mudar de mala e cuia para a beira-mar. Copacabana virou símbolo de um Rio moderno e cosmopolita.


CURIOSIDADE:

A história da canção Copacabana, de Alberto Ribeiro e João de Barro, o Braguinha, é bem emblemática do período. 
Ela foi encomendada aos compositores pelo produtor americano Wallace Downey   para um filme e que também planejava abrir uma boate em Nova York decorada “no estilo de Copacabana”. Eles se inspiraram numa outra canção que já tinham feito, o fox-canção Era uma vez, e criaram  o clássico Copacabana.
Como o assunto do night-club não foi à frente, a composição permaneceu inédita até 1946, quando resolveram gravar  - saiu pela gravadora Continental -  na voz inconfundível de Dick Farney e o arranjo histórico do maestro Radamés Gnattali.

Essa canção teve mais de 100 regravações no Brasil e no mundo.
Ouça e acompanhe a letra 

Existem praias tão lindas
Cheias de luz
Nenhuma tem o encanto
Que tu possuis
Tuas areias
Teu céu tão lindo
Tuas sereias
Sempre sorrindo

Copacabana, princezinha do mar
Pelas manhãs tu és a vida a cantar
E à tardinha, ao sol poente
Deixa sempre uma saudade na gente
Copacabana, o mar eterno cantor
Ao te beijar, ficou perdido de amor
E hoje vive a murmurar
Só a ti Copacabana eu hei de amar




sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Ilha de Brocoió



A Ilha do Brocoió fica no interior da baía de Guanabara e no arquipélago da Ilha de Paquetá, da qual fica cerca de 300 metros.

A beleza de Brocoió segue pouco conhecida e também sua história.

Originalmente era constituída por duas pequenas ilhas interligadas e foi  utilizada como presídio para indígenas rebeldes. Depois, foi explorada como caieira, material de construção essencial à época do Brasil Colônia.

Na década de 1930, a ilha pertencia a Octávio Guinle -  empresário brasileiro, mais conhecido por ser o fundador do hotel Copacabana Palace -  quando foi urbanizada e promovidos diversos aterros que alteraram significativamente a sua geografia e hoje a Ilha de Brocoió tem  aproximadamente 200.000 m² de superfície.

Nela tem um casarão, o Palácio de Brocoió, que foi projetado pelo francês Joseph Gire por encomenda de Otávio Guilnle, o mesmo que projetou o Copacabana Palace.

O casarão em estilo normando, além dos telhados muito inclinados, próprios para neve tem mansardas — janelas inseridas no telhado — e a estrutura de madeira aparente na fachada, técnica chamada de enxaimel. O desenho das madeiras em diagonal é apenas decorativo: foi feito em argamassa e pintado de marrom para simular a madeira.

Tem, também, dois pequenos chalés próximos à entrada traseira do casarão. Entre os dois, estão os resquícios do jardim francês projetado por Gire.

Do subsolo ao sótão, há outras surpresas: no andar inferior, um banheiro de praia, usado após o banho de mar como entrada independente, ostenta mosaicos com motivos árabes e até um bar. Ao lado dele, as enormes cozinha, copa e despensa, com desenhos no piso. No hall principal, de pé-direito duplo, uma claraboia. A luz suave chega ao salão de estar, que tem, de um lado, a sala de jantar e, de outro, a de leitura. Os três cômodos têm boiseries (painéis de madeira adornados por molduras) nas paredes e bonitos móveis de época.
Mas é no andar de cima, o dos quartos, que está o ambiente de mais personalidade da casa: o banheiro art déco da suíte, com uma vista deslumbrante para o Rio. A banheira, escavada num bloco maciço de mármore de Lioz, domina o ambiente amarelo, com direito a torneiras de bronze na forma de pássaros, influência do art nouveau. A suíte tem dois quartos e um escritório.

Adquirida em 1944 pela Prefeitura do então Distrito Federal, na gestão de Henrique Dodsworth, atualmente é de propriedade do governo do Estado do Rio de Janeiro, encontrando-se tombada desde 1965 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC). E o Palácio de Brocoió  se tornou residência alternativa de verão para o Governador do Estado, não utilizada ultimamente.

Houve uma época em que autoridades do estado e figuras ilustres eram habitués do local. O governador Carlos Lacerda adorava despachar no escritório da suíte.

Por lá chegaram a trabalhar 50 pessoas para que nada faltasse aos visitantes. Faisões e pavões ficavam soltos no enorme jardim e davam o toque fantástico ao cenário da ilha.

CURIOSIDADE:

A revista O Cruzeiro, Ano XXXVII, nº 43, 31/07/1965 publicou reportagens especiais sobre um domingo especial em Brocoió, promovido pela revista, no ano do 4° centenário da cidade, nas edições de n° 42 de 24/7/1965 e nº 43, 31/07/1965. 



"DOMINGO DE MISSES EM BROCOIÓ

     O primeiro dia de Miss Brasil-65 foi todo de brisa, mar e paisagem, em companhia das outras finalistas, dos organizadores do concurso e das coleguinhas estrangeiras que, brevemente, estarão desfilando com ela na passarela de Miami Beach.
     A Ilha de Brocoió é um paraíso de bolso, cercado de Guanabara por todos os lados. Para lá, sob um céu chuvisquento, várias lanchas levaram meia centena de misses, ao ritmo de gostosa batucada (linguagem musical da terra, que todas depressa entenderam). Mr. Botfeld e outros big-boss do Miss Universo juntaram-se ao samba, cantando em português esforçado mas sincero. Entre eles estava Monsieur Claude Berr (coordenador do Miss França e supervisor do concurso na Europa).

Kiriaki Tsopei, Miss Grécia, Miss Universo 1964,
preparando-se para um mergulho na Ilha de Brocoió.
(Foto: O Cruzeiro)
    Dos ares, veio uma surpresa, quando a viagem ainda estava a meio: um helicóptero da FAB, que o Brigadeiro Carlos Alberto de Matos gentilmente pôs ao dispor das misses, passou a sobrevoar as lanchas, com Indalécio  Wanderley na carlinga. As pás do imenso pássaro metálico sopravam forte o cabelo das moças, revelando novas feições de suas graças. O americano Harold L.Glasser, presidente do Miss Universe, Inc.(425 Fith Avenue, N.Y.), alto e boa praça, comentou: - Estas fotos vão sair ótimas. O fotógrafo é maluco. Vou querer estas fotos para fazer uma história na “Life”.

De costas, Sue Ann Downey (Miss Estados Unidos,
Miss Internacional do IV Centenário do Rio de Janeiro),
tenta levantar Kiriaki Tsopei (Miss Grécia, Miss Universo 1964),
observada por Ângela Vasconcelos (Miss Paraná, Miss Brasil 1964).
(Foto: O Cruzeiro)
     Em Brocoió, as misses correram nos gramados. A americana Sue Ann, Miss Internacional IV Centenário, cantava em inglês, com letra improvisada por ela, a marcha “Cidade Maravilhosa”. A grega Kiriaki (para os amigos Korina), Miss Universo 1964, era um jorro de alegria morena, em contraste com os verdes que predominam na ilha. Maria Raquel de Andrade, Miss Brasil, ainda não refeita da emoção de sua vitória, poucas horas antes, mostrava-se tímida e solitária. A aplaudidíssima Miss Mato Grosso, Marilena de Oliveira Lima, quarta colocada no Miss Brasil, fez amizade com outra morena, Miss Índia. Depois, o almoço: peru, peixe e vinho nacional
* O Cruzeiro n° 42 de 24/7/1965 *
 
 
UMA ILHA NAS ÁGUAS DA BELEZA: BROCOIÓ

     A beleza do mundo inteiro – representada em misses de 21 países que concorreram ao Concurso Miss Internacional do IV Centenário e em 25 misses indígenas que procuraram o cetro e a coroa de Miss Brasil – recebeu a festa maior da Cidade Maravilhosa durante o passeio promovido por “O Cruzeiro” à paisagem escondida da pequena Ilha de Brocoió, no fundo da Baía de Guanabara. Um helicóptero, colocado na agenda das vantagens de que a beleza de qualquer miss sempre desfruta, completou os acessórios do transporte que tinha o tom maior na lancha branca que carregou a mais cobiçada carga de simpatia que o sol do Rio de Janeiro já dourou. Mantendo o passeio no tom do sorriso e da alegria, aconteceu o “rapto” de Miss Brasil, quando todos menos esperavam, na circunstância inédita de o helicóptero entrar na história como o novo instrumento da conquista da beleza. Passeio marítimo até Brocoió, almoço de peixe e peru, vinhos nacionais, eis a promoção de “O Cruzeiro” para as misses.

Os sorrisos de Persis Khambatta, Miss Índia, e Virpi Liisa Miettinen,
Miss Finlândia,vice-Miss Internacional do IV Centenário do Rio de Janeiro.(Foto: O Cruzeiro)


     No céu, moldura de chuvisco e bruma; nas lanchas brancas, 50 misses em batucada de samba. Mr. Botfeld e outros big-boss do Miss-U (Miami) e, também, Monsieur Claude Berr (este, coordenador do Miss França e Miss Europa) juntaram-se  à batucada, inclusive com voz em português. O passeio escorreu ótimo, as misses descobrindo as belezas naturais da Guanabara, as gaivotas e mergulhões, a silhueta das serras, o vento trazendo um chuveirinho de água salgada pra o rosto das belas. A sensação da liberdade panteísta.
     A equipe de “O Cruzeiro” tinha surpresa em versão de helicóptero que o Brigadeiro Carlos Alberto de Matos, comandante do Catinave, colocou na agenda das misses, num gesto de galanteria da FAB. Ia no leme do helicóptero o tranqüilo Tenente Noronha. Enquanto as lanchas singravam mar de ondinhas, o helicóptero, de cima, com o incrível Indalécio Wanderley de janela no vento, farejava em cores e preto-e-branco a esteira dos barcos. Eram fotos em carretilha, metralhadas de cima, o redemoinho do helicóptero assanhando os cabelos das moças, que riam em coro. De baixo, George Torok e José Carlos Vieira, parceria de Darcy Trigo, enquadravam o helicóptero no visor de suas leicas. Operação mar-e-ar, por conta da indocilidade dos nossos guerreiros profissionais.
     Em Brocoió as misses correram nos gramados. Sue Ann, americana, Miss Internacional IV Centenário, estava de maré de piada. Cantava (com letra que ela improvisava, em inglês) a nossa Cidade Maravilhosa. E repicava com músicas famosas americanas (repertório de Frank Sinatra). A grega Kiriaki, que prefere ser chamada de Korina, Miss Universo 1964, era um jorro de gargalhada. A natureza do Rio amalucou as internacionais. A alemã continuava rindo. Até a dor é engraçada para aquele talo de rosa. Notem que as moças vestiam linhas esportivas. Miss Alagoas estava de slack azul-claro, cabelos soltos á moda Brigitte. Maria Raquel de Andrade, nossa Miss Brasil, buscava solidão nas lanchas. Foi gravada em pose solitária. Ela explicou que era exaustão. Estava nervosa com tanto sucesso junto. E de mãos dadas de passeio miúdo pelas gramas, Miss índia e Miss Mato Grosso, por sinal semelhantes em morenice e simpatia. Em nome de São Paulo, a sua miss loura, Sandra Rosa, ganhadora do segundo lugar, com viagem certa para Long Beach. Vestia calça azul e túnica de rendas brancas.
     No almoço, no solar da pequena ilha, a Miss da Baia de Guanabara, todas as misses preferiam o peru ao peixe, com vinhos do Rio Grande do Sul. Quem mais comeu foi Miss Áustria, pelas internacionais, e Miss Minas, pelas nacionais. 

O "RAPTO" DE MISS BRASIL
 
Maria Raquel, Miss Brasil 1965,  aproxima-se do helicóptero
sem saber que seria "raptada".
(Foto: O Cruzeiro)
 
Momento em que Maria Raquel entrava no helicóptero.
Ao fundo,o famoso fotógrafo Indalécio Wanderley.
(Foto: O Cruzeiro)
            Estava marcada uma surpresa em Brocoió.  Quando o helicóptero posou nos verdes, todo mundo pensou que era uma visitinha. Apenas isso. Não era visitinha. Era um plano de rapto contra Miss Brasil. Pedimos a ela que fosse até ao helicóptero para tirar umas fotos. Não soletramos o verbo voar. E quando a loura Raquel entrou na cabina, o bicho roncou forte. Ela agarrou-se ao pescoço de Indalécio. Puro medo. Acontece que Raquel nunca tinha voado. E, na estréia violenta, o medo, o arrepio nos nervos. Em baixo ficaram as outras maravilhadas. O helicóptero rumou para outra ilhota, de nome Jurubaíba ou Dois Irmãos. Baixou em praia livre, onde só havia uma barraca e um punhado de banhistas que fazia um piquenique. Miss Brasil foi logo identificada. E idem o fotógrafo: - Você é Indalécio Wanderley, não  é?

Sue Ann Downey, Miss Estados Unidos 1965,  e Kiriaki Tsopei, Miss Universo 1964,
divertindo-se com o susto de Maria Raquel.
(Foto: O Cruzeiro)
       Raquel estava afobada, tremente. Não levara maiô. Estava de vestido, sapatos salto alto, meias longas, que se rasgaram na viagem. Assim mesmo ela foi fotografada nas areias, junto do fim da onda, entre barcos e poucas pessoas que nunca viu. Sua fome era proclama por ela mesma. 
* O Cruzeiro,  nº 43, 31/07/1965*

O governo atual não liga para a ilha e nem ela está disponível à visitação. Uma pena. 

Quer ver mais? Clique AQUI e faça um passeio virtual.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Encontros no Rio: Carlos Lacerda e Roberto Carlos

Em 1970, Carlos Lacerda, à falta de projetos políticos viáveis, volta aos tempos de jornalista e entrevista, dentre outros, Roberto Carlos, para a edição 963 da revista carioca Manchete.

 Curioso é que Lacerda não ia à casa das "celebridades". Os entrevistados iam à sala do entrevistador.


https://sebodomessias.com.br/loja/imagens/produtos/produtos/1/10832_87.jpg 

Carlos Lacerda deu ao perfil extremamente bem escrito que fez do cantor um título sugestivo: Roberto Carlos, rei da jovem guarda, príncipe da melacolia".




Lacerda comenta que foi entrevistar Roberto e conheceu o Zunga, apelido de infância do cantor. E o Zunga vira a chave e o rumo de uma entrevista reveladora. Inclusive, com inegável talento, Lacerda aborda um tema-tabu até hoje na vida de Roberto Carlos: o acidente que sofreu, criança, em Cachoeiro do Itapemirim.

"Zunga esteve lá em casa. Veio vestido de Roberto Carlos, de calça veludo frappé como as que Jean Bouquin vende naquela loja louca de St. Germain. Mas é de Zunga que se trata, o menino de sua mãe, que aos seis anos, numa festa escolar, levou um esbarro da locomotiva e perdeu uma perna e hoje a tem toda nova, de metal polido, deve ser prateado, o que o faz coxear um pouco". (...)  
"Pois Zunga é uma espécie de Édipo. O rei é Édipo-Rei. O filho amoroso de todas as mães, flor amorosa de três raças tristes" (...) 
"Zunga é um solitário e isto se vê nos seus olhos, no seu rosto contido, de tímido tenso".
A entrevista mostra Lacerda , com seu estilo ímpar, até quando faz ao entrevistado uma última pergunta e um comentário final:

- Se você fizesse um filme com a história da sua vida, como é que acabava?
- Eu, numa rua, andando na chuva"
- Ô solidão!"


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

De hoje a 450 dias, o Rio fará 450 anos!

A cidade do Rio de Janeiro vive
a 450 dias de completar 450 anos, no dia 1° de março de 2015.





O RIO QUE MORA NO MAR quer que essa data se torne um marco onde esse número 450 seja a tônica pra essa cidade.

Não seja apenas  motivo de festas e discursos vazios, gastos com cachês e palcos, o velho pão e circo que nunca levou a nada.

450 dias de intensa atividade cultural, de ensino exigente e dedicado, de atendimento de saúde e hospitalar eficientes, de segurança de confiança, sem impunidades e protecionismos.

450 dias de uma real tolerância zero seja com o que for, contra quem for, contra o avanço de sinal, contra a direção irresponsável, contra o estacionamento irregular, contra o barulho e a baderna , contra a sujeira, o lixo;

450 dias de moralização nos jeitinhos, nas construções irregulares, das invasões oportunistas sejam onde forem;

450 dias de respeito à mobilidade urbana, de respeito ao patrimônio da cidade, monumentos e locais;

450 dias de respeito à natureza da cidade, às areias das praias, trilhas e jardins que viram lixeiras em fins de semana e feriados, vítimas do vandalismo e pouco caso dos frequentadores; combate ao lixo despejado impunemente nas encostas, no esgoto, nas lagoas e rios da cidade;

450 dias de incentivo ao que é verdadeiramente nosso.  Despertar para as coisas realmente nossas e não ceder lugar a interesses que só prejudicam a cidade e estão criando um falso perfil do que é carioca.

450 dias de obras realmente necessárias. Chega de obras de fachadas! Que acabem os alagamentos, as inundações, que tiram a mobilidade urbana, dificultam a vida da cidade e destroem vidas e famílias.

450 dias de competência de gestão!

 E isso não precisa muito. Só de amor. 

Amor que olha, que cuida, preserva  que faz não olhar só para o próprio umbigo, mas para o lado.Um amor à cidade que hoje não se cultiva, não se incentiva, porque é piegas. Esse é o verdadeiro, não o que monta palco, o que diz blá-blá-blá.


AMOR AO RIO!








terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Corte de Apelação do Rio de Janeiro e a alforria

São aspectos pouco conhecido da escravidão brasileira: as ações de liberdade.


Na tentativa de obter  a liberdade, cativos entraram com uma enxurrada de ações judiciais durante a colônia e o império.

Essa história jurídica começa com a escrava Liberata.

Ela era uma escrava em Desterro, atual Florianópolis, mas que mudou seu destino de cativeiro quando decidiu - e teve coragem pra isso - seguir um caminho diferente: iniciou um processo na justiça brasileira, uma ação de liberdade.

Isso aconteceu em 1813, há 100 anos.

 Nascida por volta de 1780, de pais desconhecidos, ela foi comprada cerca de dez anos depois por José Vieira Rebello, morador do termo de Desterro.

Liberata em sua ação argumentou que Vieira havia prometido libertá-la e não havia cumprido a promessa. Que desde muito nova era assediada por seu senhor com promessas de liberdade, e ela passou a conceder-lhe favores sexuais, mesmo de mau grado, visando tal fim.

Apesar de o Brasil ter tido uma sociedade escravocrata, hierárquica, desigual e violenta antes da proclamação da República, havia um âmbito da justiça brasileira em que os escravos podiam ser ouvidos. Essa brecha na legislação,apontava o escravo, felizmente, como indivíduo.

E assim, as ações de liberdade surgiram. Eram processos movidos pelos escravos contra seus proprietários em busca de alforria.

Somente na Corte de Apelação do Rio de Janeiro, tribunal de segunda instância, Liberata conseguiu seu propósito.

Aliás , no Arquivo Nacional - Praça da República, no Rio de Janeiro -  onde estão arquivados os papéis dessas ações, existem cerca de 400 ações de liberdade que foram julgadas entre 1808 e 1888, e metade delas resultou na alforria dos escravos envolvidos.

Até um exemplo interessante, onde o próprio D.Pedro I é quem sugere a ação de liberdade para duas escravas.

Fonte: livro Liberata, a lei da ambiguidade, de Keila Grinberg