terça-feira, 30 de junho de 2015

Cariocas de luto!

Morre mais um golfinho na Baía de Guanabara, e total de animais da espécie passa para 37


Foi encontrado morto, na manhã de segunda-feira, um filhote de golfinho na Baía de Guanabara, próximo à Praia da Engenhoca, na Ilha do Governador. A carcaça do boto-cinza, que não tinha completado 1 ano de vida, foi recolhida para análise pela equipe do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Faculdade de Oceanografia da Uerj.

Mais da metade dos filhotes não chega à idade adulta por uma série de motivos. Esse filhote pode ter morrido por causa de alguma doença ou da poluição


Com a morte, a população de sobreviventes da Baía de Guanabara passa a ser de 37 cetáceos.

Caso a situação não seja revertida, a estimativa é que, em 20 anos, a população de botos-cinza da Guanabara seja extinta.

Em 1985, eram 400. 

30 anos de descaso e desrespeito à natureza.






segunda-feira, 29 de junho de 2015

São Pedro...Uma crônica carioca de todos os tempos...

  
SÃO PEDRO (A festa dos pescadores)

de Alexandre de Melo Morais Filho ( 1844-1919),
 poeta, prosador e historiógrafo brasileiro

 Barco da procissão marítima nos dias atuais


"século XIX


Das tradições populares do Brasil ignoramos se alguma existe escrita que represente o nosso povo no trabalho da navegação e da pesca, na luta com a imensidade dos mares, já irritados pelos temporais, já intumescendo as tetas ornadas de brilhantes, como virgens mortas boiando ao alarido das ventanias.

Entretanto, essa classe social, esses audazes pescadores, de costumes austeros como os anacoretas, tiveram lides supremas e fadigas assombrosas; os alentos da fé nos azares e nos perigos; a vela acesa ao padroeiro de sua devoção pela esposa que o vira partir, quando a Estrela dos Mares recolhe a prece do marinheiro que a evoca nas solidões das águas do oceano.

Embora perfazendo grupos sem representantes na nossa musa popular, os pescadores do Rio de Janeiro celebravam a festa anual de São Pedro, o santo protetor da suas embarcações e pescarias.

E ao seu poder acreditavam dever a vida tantas vezes disputada contra as tempestades, e a miríade de peixes trazidos às praias e dispostos sobre as areias como grinaldas de flores.

Há perto de cinqüenta anos, quando a praia da ponta do Caju, a Gamboa, a praia dos Lázaros, a praia Formosa e a do saco do Alferes não haviam ainda perdido a sua configuração primitiva; quando de longe em longe, uma ou outra casa se destacava por entre as muitas casinhas de pescadores; a véspera de São Pedro transformava aquele litoral em alguma coisa de pitoresco e fantástico, desde a hora do crepúsculo, em que o sol, abatendo-se nos mares, sacode arquejante nas águas as cinzas turvas de suas asas.
Por aqueles tempos a pesca, nas indicadas paragens e barra fora, era feita por escravos africanos, pertencentes a Gabriel Pinto de Almeida, a Gabriel Pequeno, ao Brum, a João de Mure e diversos proprietários de canoas de voga, e baleeiras, existindo conjuntamente pescadores brancos e mestiços livres, que habitavam na redondeza.

Para a festa, os pescadores negros preparavam vestimentas e instrumentos músicos das suas nações, e os demais fabricavam enorme quantidade de fogos para os combates navais que se empenhavam entre os partidos, durante horas, entrando sempre pela madrugada.

Na manhã da véspera do santo, as canoas começam a abicar na areia, os negros fincavam mastros com bonecas, enfeitados de tangerinas, laranjas e outras frutas, demarcando limites às canoas de seus senhores. Desde a praia do Caju até a do Saco do Alferes viam-se homens, mulheres e meninos guarnecendo de velas em bolas de barro as bordas das embarcações alinhadas; escaziando laranjas e fazendo cartuchos de papel para servir-lhes de manga de vidro; embandeirando os barcos a capricho, ufanos e conscientes de sua perícia.

Abertas e francas, lá estavam as casas dos pescadores, abastecidas do melhor peixe e da boa pinga, distinguindo-se, suspensos às paredes ou sobre tamboretes, os munzoás, as redes, os espinhéis e mais utensílios de pesca, notando-se igualmente em quase todas a pequena imagem de São Pedro em seu trono, armado e florido, com lamparina ou velas acesas.

Em toda a extensão das praias, cabeças de alcatrão e barricas de lenha ficavam colocadas pelos escravos, que, aqui e ali, vestidos de reis, de rainhas e de feiticeiros bárbaros, tocavam urucungos, caixas de guerra e marimbas, cantando e dançando, com permissão dos senhores.
O povo da cidade afluía incessante aos diferentes pontos; os tocadores de serenatas afinavam os violões e cavaquinhos ao tom das flautas; e, logo que caía a noite, as iluminações e as fogueiras congregavam as turmas festivas, que cantavam e dançavam, dando vivas à função e a São Pedro.

As famílias, sentadas em tamboretes e em cadeiras, fora das casas, reuniam em cada porta alegres vizinhos, que trocavam entre si convites para as magníficas ceias de peixe, de lagostas e de camarões, pescados para o dia.

E, desde o escurecer, os botes, as chalanas e as canoas, orlando as praias de colares de luzes, desenrolavam por todo o litoral uma cinta de rubis acesos, que refletiam-se oblíquos na areia, como cristais de sangue.

E os jongos dos negros confundiam-se com o marulho das vagas, que bipartiam-se em cabeleiras de ouro, às luzes das lanternas das embarcações, suspensas aos estaes, passados de umas a outras.

Embora o espírito religioso dos pescadores e das famílias colocasse nas suas pobres habitações a imagem do apóstolo que comemoravam, era na casa do festeiro que São Pedro recebia o culto dos mareantes e da população em alegre romaria às marinhas da cidade.

Acesas as fogueiras, aos arpejos dos violões e ao canto das modinhas, os barcos flutuantes e as canoas avivavam mais o aparatoso efeito no escuro da noite, rompendo do mar o combate a chuveiros, bombas, roqueiras, busca-pés, foguetões e pistolas, cujos tiros apagavam-se nas vagas como flores candentes, ao granizo de fogo que tapetava o leito movediço dos barcos.

Fundeadas em poitas a justa-mar, amarradas a fateixas que unhavam as pedras, oscilavam em torno das ilhas próximas as canoas de voga, esvoaçando n’água, quais borboletas douradas, os clarões rubros das velas que as iluminavam em torno.

E aqui, ali, mais longe, levemente açoitados pelas ondas, frágeis bateis balouçavam presos em amarras aos rochedos, encostados os remos às frestas das penedias.

O que se passava no Retiro Saudoso, na praia do Caju, no saco do Alferes, na praia Formosa e na Gamboa reproduzia-se com iguais estilos na ilha do Governador, em Guaratiba, na Jurujuba, etc., mares piscosos e localidades habitadas por essa classe do nosso povo.

Começando de véspera e prolongando-se até a manhã seguinte do dia de São Pedro, essa festa, outrora popular, distinguia-se da de São João, apenas pelo maravilhoso cenário e os indivíduos especiais que nela tomavam parte, havendo igualmente consultas ao destino por meio de sortes, carás, batatas, milhos e canas assadas nas brasas das fogueiras que em labaredas contornavam as marinhas.

Na ilha do Governador, a festa de São Pedro era abrilhantada com as cavalhadas, com torneios em que os justadores furavam com as lanças panelas de barro cheias de marimbondos, tiravam a argolinha, levando as fitas ganhas às namoradas, que os aplaudiam, disfarçadas, escondendo, o sorriso no canto do lenço.

Nas citadas praias, a tradição recorda unicamente o que descrevemos em traços gerais, constituindo-se mais tarde comissões para continuar a obra do passado que desfalecia.

Há mais de vinte e cinco anos, ao que nos consta, a festa dos pescadores se foi despovoando, não havendo mais as alegrias inocentes de outros tempos. Com a concessão de marinhas e desaparição dos escravos, a pescaria mudou de sua fisionomia original, e em vão se fatigará o olhar procurando as antigas casinhas dos pescadores, naqueles lugares, onde só o mar ficou, porém recuado em suas águas perdendo de suas praias as linhas primitivas.

Com o fim de não se extinguir de todo o pensamento religioso, em épocas mais recentes, distintos moradores do Retiro Saudoso e do Caju reuniram-se para reerguer o tradicional festejo, exuberante de poesia e de jubilosa espontaneidade.

Embora sem a mágica perspectiva dos antigos dias, sem as pompas exteriores da tradição, a festa dos pescadores celebrava-se aos raros fogos do mar e de terra, com relevo delicado e próprio.

Devido à poderosa influência do ilustre doutor João de Castro, essa tradição popular aspirou o renascimento, associando-se a gente do lugar e os pescadores da praia do Caju a renovar-lhe o mareado esplendor.

Então, da casa do benemérito cidadão, e depois do Asilo da Velhice Desamparada, saía a procissão de São Pedro, que vinha até a igrejinha, percorrendo no trânsito ruas adornadas de arcos de folhagens, embandeiradas, tapetadas de flores, ouvindo-se uma banda militar em amplo coreto.

Quer no Asilo, quer na capela particular do organizador da festa, a milagrosa imagem achava-se de véspera sobre lindo altar, avistando-se à direita da entrada vistosa canoinha de pouco mais de um metro, tendo no centro uma espécie de trono e dos lados dois remos sobre os quais descansava.

Destinada a ser conduzida procissionalmente, sobre o singular andor colocavam São Pedro, que ao entardecer já se achava na 
procissionalmente
rua.

E a canoinha, levada ao ombro por moças vestidas de branco, de colarinhos e punhos à marinheira, seguia o seu itinerário, ao som da música e ao estampido dos foguetes, tendo por especial préstito incultos pescadores e rudes mareantes, com os seus trajes próprios e os seus instrumentos de trabalho.

Um ano houve em que a capela foi erigida ao ar livre, lá mesmo para as bandas do Retiro Saudoso, armada com velas e vergas de navios, adornada de emblemas sagrados e de utensílios de pescaria; profusamente iluminada, essa original construção abrigava a imagem ao recolher, e os devotos que iam depor sobre a salva de prata a esmola para o culto.

Não faltavam por essa ocasião as serenatas e comezainas, os rasgados de viola, fogueiras e acessórios, terminando a festança por enfumaçado fogo de artifício, obrigado às fortalezas e fragata, que precediam a última peça, o painel de São Pedro, emoldurado de luzes azuladas e trêmulas, que se derretiam, gotejando no chão.

E como cintas de fogo, as canoas iluminadas contornavam as ilhas e as praias, distinguindo-se em meio do mar as lanternas das embarcações, que se apagavam uma a uma nos nevoeiros do amanhecer."
       

sábado, 27 de junho de 2015

Muitos centenários...

Esse ano de 2015 é ano de comemoração de centenários de muitas personalidades da nossa história.


Alceu Penna,
Garoto,
Zé Trindade,
Abel Ferreira,
Guilherme Figueiredo,
Antônio Houaiss,
Orlando Silva e
Grande Otelo.

O RIO QUE MORA NO MAR  já falou por aqui de Garoto, Alceu Penna, Grande Otelo e, hoje,  registra homenagem com outros dois desses centenários.

O carioca Orlando Silva
acompanhado do conjunto
do mineiro Abel Ferreira.




terça-feira, 23 de junho de 2015

Mordida de carrapato iniciou o hábito do banho no Brasil

Quando o Brasil era colônia tomar banho era uma atividade, digamos, inusitada.

Por uma série de fatores, principalmente religiosos, os europeus não eram adeptos da prática. Aos poucos isso foi mudando – graças a Deus -, muito por causa dos médicos da época.

O que influenciou bastante foi o tratamento ao qual D. João VI foi submetido. Para se curar de uma ferida lhe foi recomendado banho de mar. Houve muita resistência, mas construiu-se assim a Casa de Banho de D. João para que ele se banhasse no mar.

Casa de banho de D. João VI, no Caju / Reprodução de Internet


 O monarca foi picado por um carrapato e o ferimento infeccionou. Os médicos, no final do século XVIII, começaram a recomendar os banhos de mar porque o sal da água ajudava na cicatrização de ferimentos. E esse foi o tratamento proposto ao rei.

A Família Real usou uma casa de nove cômodo que pertencia ao negociante de café Antonio Tavares Guerra, no Caju, para que servisse de local de apoio para que D. João tomasse seus banhos. A residência ficou conhecido como “Chácara Imperial Quinta do Caju”, mas se popularizou como Casa de Banho de D. João VI. A residência ficava , no então balneário do Caju, um paraíso com paisagem ainda intocada pelo homem.

O ritual de banho de D. João era engraçado para quem assistia.

Além do medo da água e do mar, o monarca tinha pavor de siris e outros animais marinhos. A região era conhecida até por receber baleias. Para não ser mordido pelos animais, o rei decidiu que só entraria no mar dentro de um barril com furos dos lados. Dom João entrava no barril ainda na areia e os escravos o carregavam até a água.

A casa não foi muito usada, mas tem um simbolismo histórico que hoje está esquecido. O local foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1938, mas ficou abandonado por anos. A praia foi aterrada para a construção do porto do Rio e também da Ponte Rio-Niterói.

De pé até hoje, infelizmente o local está abandonado. Desde 1996 a Comlurb se responsabiliza pela casa e montou ali o museu da companhia de limpeza do Rio. O local ficou aberto ao público por um ano, e desde então está fechado.

Letreiro do Museu da Comlurb / Reprodução de Internet
 
 
Fonte:  Athos Moura

sábado, 20 de junho de 2015

Hotel Pharoux

 

Foto de R.H Klumb

“...Velhos do meu tempo, acaso vos lembrais desse mestre cozinheiro do Hotel Pharoux, um sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido nos famosos Véry e Véfour, de Paris, e mais nos palácios do Conde Molé e do Duque de la Rochefoucauld? Era insigne. Entrou no Rio de Janeiro com a polca... A polca, M. Prudhon, o Tivoli, o baile dos estrangeiros, o Cassino, eis algumas das melhores recordações daquele tempo; mas sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.”
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis - Capítulo CXV: O almoço

 
Em frente à ponte de desembarque no antigo Largo do Paço, surgiu o Hotel Pharoux.
 
A princípio, na Rua da Quitanda, não passava de uma Hospedaria e casa de Pasto, mas em 1838, transfere-se para a Rua Fresca na praia de D Manuel, e ressurge refinado, confortável, trazendo à corte, um glamour europeu.
 
O Jornal do Comércio, de 12 de Fevereiro de 1838, anunciou
 
"Mudança de Casa
Luiz Pharoux tem a honra de participar
ao respeitável público desta corte,
que ele acaba de transferir a sua hospedaria da Rua da Quitanda
para a Rua Fresca número 3, em frente ao mar"
 
O hotel de Luiz Pharoux, francês que viera dar na corte por motivos políticos, trazia em suas instalações, requinte nada usuais para os padrões da época. Com salas para jantares que comportavam mais de oitenta pessoas, cardápio sofisticado ao gosto de Paris. O rico mobiliário e seus banhos eram um atrativo a mais, em uma cidade que oferecia até então somente hospedarias pouco confortáveis e uma mesa sem grandes variedades nas casas de pasto, que já se multiplicavam pelas ruas. 
 
O Hotel Pharoux, tinha excelente frequência da sociedade local, frequentado também por muitos viajantes franceses, que junto ao seu bem humorado e cortês proprietário, passavam horas agradáveis lembrando a pátria. Construiu o cais que acabou levando seu nome, e fez desse magnífico e aprazível local um ponto de encontro para os que podiam usufruir do conforto de um bom vinho, e de uma boa mesa abençoados pelas brisas do mar. Lá também promoveu o primeiro evento que trouxe a fotografia para o Brasil, em 1840, e em 43 lá se estabeleceu o primeiro ateliê fotográfico do Rio de janeiro.

 
Adolphe D´Hastrel - Praia D. Manuel Cais Pharoux 1841 Litogravura 20.5 X 34,5 - Coleção Geyer
Museu Imperial de Petrópolis
 
 
Ao final dos anos 1860 Luiz Pharoux retornou à França. O edifício pouco tempo depois passa a abrigar a Casa de Saúde do Dr Catta Preta & Werneck. Após algum período de abandono lá se fixa o Hotel Real que nem de longe lembrava o luxuoso Pharoux. Ao fim dos anos 1950, precisamente em 1958, anuncia-se o seu desaparecimento, para dar lugar às modificações provenientes da Perimetral. 




quarta-feira, 17 de junho de 2015

Hábitos cariocas


ERA ASSIM EM 1971.
 
Pra conhecer um pouco mais...
MUITO INTERESSANTE!
 



 
(publicado em O GLOBO, 11/11/1971)

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Músicas de Festas Juninas...ANARRIÊ!

Em tempos de festa junina, vale afiar o repertório!





(Motivo popular / João de Barro / Alberto Ribeiro)
Capelinha de melão
É de São João
É de cravo, é de rosa
É de manjericão

Apanhei rosas pelos caminhos
As mensageiras do meu amor
Tu me fizeste com os seus espinhos
Uma coroa de dor

Mandei-te cravos, tu não ligaste
E nem lhes deste nenhum valor
Com duros cravos tu me pregaste
Na cruz do teu falso amor

(Alberto Ribeiro)
E um balão vai subindo
Vem caindo a garoa
O céu é tão lindo
E a noite é tão boa!
São João! São João!
Acende a fogueira
No meu coração

Sonho de papel
A girar na imensidão
Soltei em teu louvor
Um sonho multicor
Ó meu São João!

Meu balão azul
Foi subindo devagar
E o vento que soprou
Meu sonho carregou
Não vai mais voltar!

(Assis Valente)
Tentei fazer mais um balão
Do papel que você deixou
Mas o papel que você fez
Foi tão triste que o balão
Na tristeza se apagou

Fiquei triste a soluçar
A recordar um doce bem
De tristeza chorei
Com saudade de alguém
Sua jura de paixão
Que para mim você jurou
Foi mentira, foi balão
Que subiu e se queimou

Tentei fazer mais um balão
Das ilusões do coração
Faltou a luz do seu olhar
Sem a luz dos olhos seus
Meu balão não "subirá"

Escutando a multidão
Sempre a cantar pra se iludir
Eu também tentei cantar
Eu também tentei sorrir
Nessa noite de balões
Eu não me canso de esperar
Vão chegando as ilusões
Só você não quer chegar

(Osvaldo Santiago / Benedito Lacerda)
Com a filha de João
Antônio ia se casar
Mas Pedro fugiu com a noiva
Na hora de ir pro altar

A fogueira está queimando
E um balão está subindo
Antônio estava chorando
E Pedro estava fugindo
E no fim dessa história
Ao apagar-se a fogueira
João consolava Antônio
Que caiu na bebedeira

(Humberto Pinto / Kid Pepe)
Não me canso
De soltar tanto balão
Pra meu São João
Pra meu São João
Sinto
Uma dor no coração
Em ver a gurizada
"Tasca esse balão!"

Na festa lá da aldeia
Não faltava povaréu
As crianças estavam em roda
Com a goma e seu papel
Eu só lamento
Nela não poder brincar
Vendo a fogueira acesa
E eu não poder pular

O mundo é um sonho
E a vida assim se passa
O balão que vai subindo
Deve tudo à fumaça
Assim os homens
Que ostentam posição
Estão em cima, estão em baixo
Como acontece ao balão

(Lamartine Babo)
Chegou a hora da fogueira
É noite de São João
O céu fica todo iluminado
Fica o céu todo estrelado
Pintadinho de balão
Pensando no caboclo a noite inteira
Também fica uma fogueira
Dentro do meu coração

Quando eu era pequenino
De pé no chão
Eu cortava papel fino
Pra fazer balão
E o balão ia subindo
Para o azul da imensidão

Hoje em dia o meu destino
Não vive em paz
O balão de papel fino
Já não sobe mais
O balão da ilusão
Levou pedra e foi ao chão

(Antônio Nássara)
Carneirinho, carneirão
Sobe tudo que é balão
Ai, meu São João!
Vem caindo a saudade
Dentro do meu coração

Quando a noite do céu vem descendo
Traz consigo a saudade e a ilusão
Numa prece de amor revivendo
Acendem-se as luzes do meu São João

Coração é capela do sonho
Onde o amor vive sempre a rezar
Eu vivia contente e risonho
Num sonho feliz e feliz de te amar

(Herivelto Martins / Alcebíades Barcelos)
Santo Antônio, São Pedro e São João
Fizeram uma combinação
Tirar do firmamento as estrelas
Deixando a terra na escuridão

Se a terra ficar na escuridão
Não há de escurecer meu coração
Que para o iluminar
Eu tenho a luz do teu olhar

(Roberto Martins e Evaldo Ruy)
Ó Rosa Maria
Levante desta cadeira!
A noite está fria
Vamos pular a fogueira
Pegue um foguete e um busca-pé
Venha ajudar a soltar balão
Tome um refresco de capilé
Que é noite de São João

A turma toda esperando você
E você teima em ficar no salão
Rosa Maria não faça chiquê
Na noite de São João

(Herve Cordovil / Alberto Ribeiro)
Balão! Balão!
No céu desapareceu
O meu sonho de amor
Foi balão que a saudade envolveu
Vejo um balão bem pequenino
Envolvido numa cerração
É bem igual o destino
Do meu coração
(balão)

Fiz um brinquedinho de criança
Dos castelos da minha ilusão
Tudo acabou, só há cinzas
No meu coração

(Getúlio Marinho (Amor) / João Bastos Filho)
Pula a fogueira, Iaiá!
Pula a fogueira, Ioiô!
Cuidado para não se queimar
Olha que a fogueira
Já queimou o meu amor!

Nesta noite de festança
Todos caem na dança
Alegrando o coração
Foguetes, cantos e troça
Na cidade e na roça
Em louvor a São João

Nesta noite de folguedo
Todos brincam sem medo
A soltar seu pistolão
Morena flor do sertão
Quero saber se tu és
Dona do meu coração

(Lamartine Babo)
Rosa fui buscar
Para o meu amor
Enfeitei meu coração!
Ó meu São João, meu Santo Antônio
Meu São Pedro
Nós queremos vossa proteção

Santo Antônio, não se zangue não
Cá na terra há também João
Quando a chuva, quando a chuva
Aqui desanda
É São Pedro quem manda
Com seu pistolão

Santo Antônio, rei dos namorados
São João, o rei dos batizados
E São Pedro lá no céu
Fica com a chave
Sisudo e mais grave
Do que os meus pecados



(Ari Barroso)
Sobe meu balão!
Vai perguntar à lua
Que brilha no céu
Por que não ilumina o meu caminho
Até hoje eu ando sem amor, amor
E sem carinho

Meu balão foi sumindo
E depois queimou, queimou
E a lua também foi sumindo
E o céu inteiro se apagou


(João de Barro / Alberto Ribeiro)
Noite fria, tão fria de junho
Os balões para o céu vão subindo
Entre as nuvens aos poucos sumindo
Envoltos num tênue véu
Os balões devem ser com certeza
As estrelas do espaço profundo
São os balões lá do céu

Balão do meu sonho dourado
Subiste enfeitado, cheinho de luz
Depois as crianças tascaram
Rasgaram teu bojo de listas azuis
E tu que invejando as estrelas
Sonhavas ao vê-las ser astro no céu
Hoje, balão apagado, acabas rasgado
Em trapos ao léu

(Acebíades Barcelos / Armando Vieira Marçal)
Olha lá um balão!
Vem de gás apagado
Vai enganar a gente
Vai cair em cima do telhado
(olha um balão)

E parece uma estrela
A vagar no firmamento
Seu destino é ser levado
Sem destino pelo vento

O balão de minha vida
Anda em noite tão escura
Que quando ele for caindo
Ninguém tasca, ninguém fura

(Mário Travassos / A. L. Pimentel)
Na festa do meu destino
Entre fogos, fogueira e balão
Teu amor é um travesso menino
Que pula a fogueira do meu coração
Subindo pro céu da ilusão
Do bairro da Felicidade
Meu amor foi um lindo balão
Que subiu e fugiu deixando saudade

Vou pedir numa oração
Ao meu São João
Que me dê bem direitinho
O meu balão
E apague a tal fogueira
Que há no meu coração

(Assis Valente)
Cai, cai, balão!
Você não deve subir
Quem sobe muito
Cai depressa sem sentir
A ventania
De sua queda vai zombar
Cai, cai, balão!
Não deixe o vento te levar

Numa noite na fogueira
Enviei a São João
O meu sonho de criança
Num formato de balão
Mas o vento da mentira
Derrubou sem piedade
O balão do meu destino
Da cruel realidade

Atirada pelo mundo
Eu também sou um balão
Vou subindo de mentira
No azul da ilusão
Meu amor foi a fogueira
Que bem cedo se apagou
Hoje vivo de saudade
É a cinza que ficou!

(José Maria de Abreu / Francisco Matoso)
Suba meu lindo balão
Lá no céu procure São João
E se você chegar lá sem cair
Ele agradecido há de sorrir

E quando passar
Junto ao portão do meu amor
Diga pra ele que meu coração
É mais quente que o seu calor

Se você cair
Hei de sentir, lindo balão
E desta vez São João vai sorrir
Mas há de sorrir de compaixão

(Nássara / Orestes Barbosa)
Meu São João repare agora
Neste meu balão
Não deixe ele cair tão cedo
Porque eu tenho medo
Que se apague uma ilusão

Quem estiver acordado
E apanhar este balão
Há de ver como padece
Há de ver como padece
Quem perdeu um coração

Se o santo do carneirinho
Me visse assim como estou
Não conhecia a criança
Não conhecia a criança
Que tantos fogos soltou

Vejo o céu cheio de estrelas
Misturadas com os balões
Ele e elas sorrindo
Ele e elas sorrindo
Vão mentindo aos corações

(Lamartine Babo / Alcyr Pires Vermelho)
Chega, chega minha gente!
Temos roda na fogueira
Tem cará, tem mandioca e tem
Foguete lá no alto da ladeira

Tem morena do outro mundo
Bem pra lá do rancho fundo
Que me pareceu sincera
E não era, não era, não era, não era
No calor da primavera
Tem lourinha cor-de-fogo
Meu segundo desengano
Que me pareceu gelada
Gelada, gelada, gelada, gelada
Na fogueira doutro ano

(Portelo Juno / César Cruz)
Sobe meu balão
Sobe para nunca mais voltar
E leva pra São João
A tristeza que eu tenho
No meu coração

Sobe meu balão
Leva este cartão
E entrega a São João
E fica lá no paraíso
Onde o mundo é ilusão

Vejo as estrelas
Vejo os balões
Lindos fogos d’artifício
Mas não vejo meu São João
Pois eu vivo da ilusão

(Lamartine Babo)
Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimônio
São João disse que não!
São João disse que não!
Isto é lá com Santo Antônio!
Eu pedi numa oração
Ao querido São João
Que me desse um matrimônio
Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com Santo Antônio!

Implorei a São João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
São João ficou zangado
São João só dá cartão
Com direito a batizado
Implorei a São João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a Santo Antônio
Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio!

São João não me atendendo
A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Disse o velho num sorriso:
Minha gente, eu sou chaveiro!
Nunca fui casamenteiro!
São João não me atendendo
A São Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Matrimônio! Matrimônio!
Isso é lá com Santo Antônio

(Assis Valente)
Olhando o céu todo enfeitado
De balões de papel fino
Eu recordei o meu passado
Meus amores de menino
Eu corria acelerado
Pra segurar na sua mão
Que de macia parecia
Papel fino de balão

E hoje quando chega São João
Eu vejo quanta coisa se acabou
Suas mãos que pareciam de papel
E velhice impiedosa machucou

E hoje se eu pudesse voltaria
Ao tempo que eu vivia de ilusão
Ao tempo que eu brincava de esconder
Por detrás do seu vestido de balão

(Haroldo Lobo / Geraldo Medeiros)
O baile lá na roça
Foi até o sol raiar
A casa estava cheia
Mal podia se andar!
Estava tão gostoso
Aquele reboliço
Mas é que o sanfoneiro
Só tocava isso!

De vez em quando alguém
Vinha pedindo pra mudar
O sanfoneiro ria
Querendo agradar!
Diabo é que a sanfona
Tinha qualquer enguiço!
Mas é que o sanfoneiro
Só tocava isso!

(S… Antônio, João e Pedro. Revivendo, RVCD-067)
 



Fonte:
Almanaque Jangada Brasil, junho de 1999



segunda-feira, 8 de junho de 2015

“O mar de Malta”

Maior cronista visual do Rio de Janeiro, com um legado calculado entre 60 mil e 80 mil imagens que documentam as transformações físicas da cidade e os modos do carioca na primeira metade do século XX, o alagoano Augusto Malta não ignorou nada do que aconteceu por aqui.


Fotógrafo contratado da prefeitura por 40 anos (de 1903 a 1943), ele reproduziu, com sua câmera, casas, ruas, equipamentos e cerimônias oficiais, mas, paralelamente, realizou registros de moradores em espaços públicos. Registrou, por exemplo, o surgimento da praia como um espaço de lazer, um conceito novo então, nascido nas primeiras décadas dos anos 1900.

A exposição “O mar de Malta”, que será inaugurada no Centro Cultural Justiça Federal, no Centro, a partir do dia 11 de junho, faz um recorte da relação do carioca com o mar, como visto e fotografado por Augusto Malta.

São 33 imagens, selecionadas em várias coleções públicas, como as do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e da Fundação Biblioteca Nacional, e privadas, caso do Instituto Moreira Salles.
O resultado é um painel curioso e atraente de uma mudança comportamental, vinda no rastro das transformações empreendidas no desenho da cidade a partir da gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906), responsável pelo emprego dado a Malta. É o momento em que a cidade, até então voltada para dentro, vira-se de frente para o mar, assumindo sua condição de balneário.Imagens que representam
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a virada da cidade do Rio, quando deixou de ser uma cidade portuária e virou uma cidade balneária.

A Avenida Central já sinaliza isso. Ela sai do porto em direção ao Pão de Açúcar, reconstrói a orla, cria uma promenade e a Avenida Beira-Mar provoca a urbanização de Botafogo. A partir daí vêm os túneis e Copacabana, e a cidade se coloca no mapa do destino internacional. É o momento em que o Rio constrói a identidade que tem hoje.

Na mostra será possível ver imagens como a de uma antiga casa de banho na praia de Santa Luzia, que hoje não existe mais (em seu texto para o catálogo da exposição, o historiador e fotógrafo Pedro Karp Vasquez nota que a praia ia até a igreja de Santa Luzia, e que, por isso, ela “hoje nos parece situada fora de alinhamento, simplesmente pelo fato de que dava diretamente para o mar”).

Em outra imagem, rapazes saltam na água em alguma praia também no Centro, em 1915; e há ainda a de banhistas lotando a Praia do Flamengo em 1934.


Dois registros importantes da conquista de Copacabana para o lazer: a abertura do Túnel Novo sob o Morro da Babilônia, integrando o bairro a Botafogo e, depois, os postos de salvamento criados em Copacabana a partir da década de 1910 e que, depois, se prolongaram pelas praias de Ipanema e Leblon.

 Para além do Leblon, ainda, há o registro da comitiva do prefeito Paulo de Frontin trafegando na abertura da Avenida Niemeyer, em 1919, rasgando caminho em direção a São Conrado, Barra e Recreio, que até então não faziam parte da malha urbana carioca.

— Malta foi funcionário da prefeitura, mas seu trabalho transcendeu o ofício meramente burocrático — diz Guran. — Isso num momento em que a cidade se voltava para o mar. Basta ver o Palácio do Catete, cuja frente dá para a Rua do Catete, e não para a orla. De repente, a cidade se descobriu balneário — diz Guran.

 “Tivemos a sorte de contar com o olhar atento
e a lente precisa de Augusto Malta.
Suas fotografias nos mostram quem éramos
e como chegamos ao que somos”.
Milton Guran, curador da mostra