domingo, 12 de julho de 2020

A "noite" como inspiração carioca


Algumas canções 
falaram da noite carioca.


1. O CHORO DELICIOSO DE JACOB DO BANDOLIM...NOITES CARIOCAS


. versão instrumental com o próprio Jacob


. na voz da grande Ademilde Fonseca, a Rainha do choro.




2.  UM CLÁSSICO DA BOSSA NOVA...FIM DE NOITE ( de Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli)

. com o autor, Chico Feitosa




3. O GRANDE SUCESSO DO SAMBA-CANÇÃO... A NOITE DO MEU BEM (de Dolores Duran)

. com a própria autora



. a linda versão com Milton Nascimento




4. O HIT DANÇANTE DOS ANOS 80...NOITE DO PRAZER 
( Claudio Zoli, Paulo Zdanowski e Arnaldo Brandão)

. com Claudio Zoli






quinta-feira, 9 de julho de 2020

Afinal, quem foi a primeira Miss Brasil



Bebe Lima Castro, Miss Brasil de 1900

Quando Martha Rocha faleceu, em 04 de julho de 2020, muitos jornais noticiaram que ela foi a primeira Miss Brasil. O que gerou algumas dúvidas, com razão, quanto ao pioneirismo de sua coroa.

 Martha Rocha foi consagrada em 26 de junho de 1954, Miss Brasil. Por uma questão de direitos de propriedade, apenas o concurso ainda em vigor é considerado oficial. Mas antes da baiana das duas polegadas há mais, existiram sim no país outros concursos com o mesmo nome, porém em concursos não oficiais.



Os concursos oficiais de Miss Universo começaram em 1952, na cidade de Long Beach (Califórnia), para promover uma marca de maiô. O Brasil só iniciou sua participação em 1954, quando a baiana Martha Rocha, classificou-se em 2º lugar, justificado pelas lendárias “duas polegadas a mais”. Comentário de um dos jurados, ouvido pelo jornalista João Martins da revista O Cruzeiro, que publicou a notícia até hoje comentada.


Existem várias versões do concurso Miss Brasil, porém, o único Miss Brasil realmente é o que elege a representante do país para o Miss Universo.




As Misses


1900


Em 1900 Violeta Lima Castro, mais conhecida como Bebe Lima Castro, tornou-se a "Primeira Miss Brasil". O concurso, entretanto, foi organizado pelo Jorna Rua do Ouvidor, e apenas moças da alta sociedade e residentes no Rio de Janeiro podiam se inscrever.



Nascida em Paris, em 1879, era filha de brasileiros, e foi registrada no consulado do Brasil, na França. Foi atriz e cantora, e chegou a se apresentar para Mussolini. Ela faleceu em 1965.


1865 (!!!)

Alguns historiadores consideram que existiu uma Miss Brasil anterior a Bebê Lima Castro, a também francesa Aymée. O pesquisador Brício de Abreu considerava Aymée a primeira Miss Brasil, eleita em 1865.

Nascida em 1845, ela tinha 19 anos quando veio ao Brasil, onde se tornou uma estrela dos palcos, normalmente apresentado-se em operetas. Logo tornou-se muito popular por aqui.



Em 1865 o jornal Diário do Rio criou uma enquete para eleger qual era a mais linda artista do Rio de Janeiro. Ayme foi eleita pelo voto popular, e Machado de Assis fez uma crônica tecendo elogios a sua beleza. Para muitos, vencer este pleito (onde novamente só participaram concorrentes do Rio de Janeiro), daria o título de primeira Miss Brasil para Aymée.

Incomodando a alta sociedade conservadora, a atriz praticamente foi expulsa do Brasil, para não ser "um mau exemplo para a juventude". Infelizmente, não existem registros da sua morte.


1912


Outro concurso promovido por um jornal Carioca, Gazeta de Notícias, restrito apenas as residentes do então Distrito Federal. O jornal estampava em suas páginas um cupom para ser recortado, e nele podiam ser indicado qualquer nome de jovens cariocas, a que tivesse mais cupons vencia. Na verdade, era apenas uma estratégia para vender mais exemplares do periódico.


A vencedora foi Noêmia Nabuco de Castro. O prêmio era um frasco de perfume.





Uma curiosidade, Nair de Teffé, a primeira caricaturista brasileira (e talvez do mundo), foi uma das finalistas. Em 1913 ela se casaria com o Marechal Hermes da Fonseca, e tornaria-se a primeira primeira dama brasileira.


1923


Primeiro concurso nacional de beleza, que aceitou inscritas de todo o país. Organizado pela Revista da Semana e pelo jornal A Noite, do Rio de Janeiro, ele foi inciado em 1921, e pedia que as concorrentes enviassem fotografias para sua redação. Um juri, formado pelo pintor Batista da Costa, pelo escultor Correia Lima e pelo caricaturista Raul Pederneiras enfim elegeu a paulista Zezé Leone, em 1923.



Nascida em Campinas, Maria José Leone, nasceu em 01 de dezembro de 1902. Na verdade, ela foi eleita a "Mulher Mais Bela do Brasil". Ao contrário de suas antecessoras, não era artista ou da elite, mas sim filha de um alfaiate, radicado na cidade de Santos. Ela já havia vencido um concurso de beleza organizado pela revista santista Flamma, em 1920.


Zezé Leone se tornou uma celebridade brasileira. Fez campanhas publicitárias, foi homenageada com uma locomotiva com seu nome, e foi cantada no foxtrote Vênus, de José Francisco de Freitas, o Freitinhas. E tal como Martha Rocha, ganhou um doce com seu nome, o creme Zezé Leone.


Creme Zezé Leone


Em 1923 ela estrelou o filme Sua Majestade, a Mais Bela do Brasil (1923), realizado pelo estúdio Botelho Filho. Mas a vida artística durou pouco. Em 1924 ela se casou com Lincoln Feliciano da Silva, futuro prefeito de Santos, e deixou os holofotes. Zezé Leone faleceu em 1965.



1929
Organizado pelo jornal carioca A Noite, o concurso foi vencido pela carioca Orla Bergamini de Sá. Didi Caillet, a Miss Paraná, ficou em segundo lugar. Didi gravou discos, e mais tarde tornaria-se uma poetista muito a frente do seu tempo.

A cantora e atriz Laura Suarez disputou com Olga o título de Miss Guanabara. Mais tarde, em 1936, ela se tornaria a primeira pessoa brasileira a aparecer na televisão, nos Estados Unidos. Leia mais sobre Laura Suarez aqui.



Olga Bergamini de Sá viajou para os Estados Unidos, onde disputou o concurso (não oficial) do Miss Universo.

1930

Revoltados com a derrota de Olga no Miss Universo do ano anterior, o Brasil resolveu criar o seu próprio Miss Universo, paralelo ao concurso então organizado pela International Pageant of Pulchritude. 

A gaúcha Yolanda Pereira (1910-2001), não só foi eleita a Miss Brasil daquele ano, como pasmem, também ganhou o título brasileiro de Miss Universo.




Nos Estados Unidos, no outro concurso, Dorothy Dell sagrou-se a vencedora. Ela se tornaria atriz em Hollywood, mas faleceu com apenas 19 anos de idade. 

1932

Em 1932 não houve concurso de Miss Brasil por aqui. Porém, devido as reclamações dos brasileiros com o concurso de Miss Universo desde 1929, um grupo de jornalistas brasileiros radicados na França (incluindo Brício de Abreu), elegeram, em um restaurante, a Miss Brasil daquele ano. As candidatas eram jovens brasileiras residentes ou de passagem por Paris.


A pianista Yeda Telles de Menezes, filha da cantora Julietta Telles de Menezes, foi a escolhida para representar o Brasil no Miss Universo daquele ano, que foi vencido pela Miss Turquia.

Keriman Halis (Miss Universo de 1932) e Yeda Telles de Menezes 

1939


Devido ao começo da Segunda Guerra Mundial, o antigo Concurso de Miss Universo, que era realizado na cidade de Galveston, Estados Unidos, foi encerrado. Mas o Brasil já havia elegido suas representantes estaduais no ano anterior. Em um evento realizado no Cassino da Urca, a carioca Vânia Pinto foi eleita a Miss Brasil. Vânia é considerada a primeira modelo profissional brasileira.




1949


Em 1949 ocorreu o último concurso extra oficial, da chamada "fase jurássica" do Miss Brasil. Foi realizado no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, e sagrou a goiana Jussara Marques como campeã.



Maria da Gloria Drummond, a representante de Minas Gerais, mais tarde se casaria com o colunista social Ibrahim Sued.

Jussara Marques (1931-2006) tornou-se uma celebridade brasileira, e gozou do reinado por cinco anos, até a eleição de Martha Rocha, em 1954. Duas cidades foram batizadas com seu nome, Jussara, uma em Goiás (em 1950) e outra no Paraná (em 1952).




Fonte: Memórias Cinematográficas



sexta-feira, 3 de julho de 2020

Crônicas cariocas de todos os tempos... Rubem Braga

Rubem Braga - Biografia - Global Editora


Afrânio Coutinho – Wikipédia, a enciclopédia livre



Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de Rubem Braga é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza."






Manuel Bandeira: biografia, obras e melhores poemas - Toda Matéria


Manuel Bandeira brincava com ele:

Quando Rubem Braga tem assunto é bom. 
Quando não tem, é ótimo.”







" A Borboleta Amarela

Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses insetos que fazem vida urbana; mas, como olhasse, vi que era uma borboleta amarela.Era na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; ela borboleteava junto ao mármore negro do Grande Ponto; depois desceu, passando em face das vitrinas de conservas e uísques; eu vinha na mesma direção; logo estávamos defronte da A.B.I. Entrou um instante no hall, entre duas colunas; seria um jornalista? – pensei com certo tédio.Mas logo saiu. E subiu mais alto, acima das colunas, até o travertino encardido. Na rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse: ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera no seu vôo saçaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os faz com borboletas – o que, aliás, é uma boa idéia. Quando eu o mandar fazer os jardins de meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare... Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta.A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha – como se fosse meu cão ou minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessado a rua na minha frente, e eu devesse segui-la. Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos ou se vendo –, só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel. Naquele ângulo há um jardinzinho, atrás da Biblioteca Nacional. Ela passou entre os ramos de acácia e de uma árvore sem folhas, talvez um "flamboyant"; havia, naquela hora, um casal de namorados pobres em um banco, e dois ou três sujeitos espalhados pelos outros bancos, dos quais uns são de pedra, outros de madeira, sendo que estes são pintados de azul e branco. Notei isso pela primeira vez, aliás, naquele instante, eu que sempre passo por ali; é que a minha borboleta amarela se tornava sensível às cores.Ela borboleteou um instante sobre o casal de namorados; depois passou quase junto da cabeça de um mulato magro, sem gravata, que descansava num banco; e seguiu em direção à Avenida. Amanhã eu conto mais."


Segunda parte


"Eu ontem parei a minha crônica no meio da história da borboleta que vinha pela rua Araújo Porto Alegre; parei no instante em que ela começava a navegar pelo oitão da Biblioteca Nacional.Oitão, uma bonita palavra. Usa-se muito no Recife; lá, todo mundo diz: no oitão da igreja de São José, no oitão do Teatro Santa Isabel... Aqui a gente diz: do lado. Dá no mesmo, porém oitão é mais bonito. Oitão, torreão.Falei em torreão porque, no ângulo da Biblioteca, há uma coisa que deve ser o que se chama um torreão. A borboleta subiu um pouco por fora do torreão: por um instante acreditei que ela fosse voltar, mas continuou ao longo da parede. Em certo momento desceu até perto da minha cabeça, como se quisesse assegurar-se de que eu a seguia, como se me quisesse dizer: "estou aqui".Logo subiu novamente, foi subindo, até ficar em face de um leão... sim, há uma cabeça de leão, aliás há várias, cada uma com uma espécie de argola na boca, na Biblioteca. A pequenina borboleta amarela passou junto ao focinho da fera, aparentemente sem o menor susto. Minha intrépida, pequenina, vibrante borboleta amarela! pensei eu. Que fazes aqui, sozinha, longe de tuas irmãs que talvez estejam agora mesmo adejando em bando álacre na beira de um regato, entre moitas amigas – e aonde vais sobre o cimento e o asfalto, nessa hora em que já começa a escurecer, oh tola, oh tonta, oh querida pequena borboleta amarela! Vieste talvez de Goiás, escondida dentro de algum avião; saíste no Calabouço, olhaste pela primeira vez o mar, depois...Mas um amigo me bateu nas costas, me perguntou "como vai bichão, o que é que você está vendo aí?" Levei um grande susto, e tive vergonha de dizer que estava olhando uma borboleta; ele poderia chegar em casa e dizer: "encontrei hoje o Rubem, na cidade, parece que estava caçando borboleta".Lembrei-me de uma história de Lúcio Cardoso, que trabalhava na Agência Nacional: Um dia acordou cedo para ir trabalhar; não estava se sentindo muito bem. Chegou a se vestir, descer, andar um pouco junto da Lagoa, esperando condução, depois viu que não estava mesmo bem, resolveu voltar para casa, telefonou para um colega, explicou que estava gripado, até chegara a se vestir para ir trabalhar, mas estava um dia feio, com um vento ruim, ficou com medo de piorar – e demorou um pouco no bate-papo, falou desse vento, você sabe (era o noroeste) que arrasta muita folha seca, com certeza mais tarde vai chover etc., etc..Quando o chefe do Lúcio perguntou por ele, o outro disse: "Ah, o Lúcio hoje não vem não. Ele telefonou, disse que até saiu de casa, mas no caminho encontrou uma folha seca, de maneira que não pode vir e voltou para casa."Foi a história que lembrei naquele instante. Tive – por que não confessar? – tive certa vergonha de minha borboletinha amarela. Mas enquanto trocava algumas palavras com o amigo, procurando despachá-lo, eu ainda vigiava a minha borboleta. O amigo foi-se. Por um instante julguei, aflito, que tivesse perdido a borboleta de vista. Não. De maneira que vocês tenham paciência: na outra crônica, vai ter mais história de borboleta."


Última parte


"Mas, como eu ia dizendo, a borboleta chegou à esquina de Araújo Porto Alegre com a Avenida Rio Branco; dobrou à esquerda, como quem vai entrar na Biblioteca Nacional pela escada do lado, e chegou até perto da estátua de uma senhora nua que ali existe; voltou; subiu, subiu até mais além da copa das árvores que há na esquina – e se perdeu.Está claro que esta é a minha maneira de dizer as coisas; na verdade, ela não se perdeu; eu é que a perdi de vista. Era muito pequena, e assim, no alto, contra a luz do céu esbranquiçado da tardinha, não era fácil vê-la. Cuidei um instante que atravessava a Avenida em direção à estátua de Chopin; mas o que eu via era apenas um pedaço de papel jogado de não sei onde. Essa falsa pista foi que me fez perder a borboleta.Quando atravessei a Avenida ainda a procurava no ar, quase sem esperança. Junto à estátua de Floriano, dezenas de rolinhas comiam farelo que alguém todos os dias joga ali. Em outras horas, além de rolinhas, juntam-se também ali pombos, esses grandes, de reflexos verdes e roxos no papo, e alguns pardais: mas naquele momento havia apenas rolinhas. Deus sabe que horários têm esses bichos do céu.Sentei-me num banco, fiquei a ver as rolinhas – ocupação ou vagabundagem sempre doce, a que me dedico todo dia uns 15 minutos. Dirás, leitor, que esse quarto de hora poderia ser mais bem aproveitado. Mas eu já não quero aproveitar nada; ou melhor, aproveito, no meio desta cidade pecaminosa e aflita, a visão das rolinhas, que me faz um vago bem ao coração.Eu poderia contar que uma delas pousou na cruz de Anchieta; seria bonito, mas não seria verdade. Que algum dia deve ter pousado, isso deve; elas pousam em toda parte; mas eu não vi. O que digo, e vi, foi que uma pousou na ponta do trabuco de Caramuru. Falta de respeito, pensei. Não sabes, rolinha vagabunda, cor de tabaco lavado, que esse é Pai do Fogo, Filho do Trovão?Mas essa conversa de rolinha, vocês compreendem, é para disfarçar meu desaponto pelo sumiço da borboleta amarela. Afinal arrastei o desprevenido leitor ao longo de três crônicas, de nariz no ar, atrás de uma borboleta amarela. Cheguei a receber telefonemas: "eu só quero saber o que vai acontecer com essa borboleta". Havia, no círculo das pessoas íntimas, uma certa expectativa, como se uma borboleta amarela pudesse promover grandes proezas no centro urbano. Pois eu decepciono a todos, eu morro, mas não falto à verdade: minha borboleta amarela sumiu. Ergui-me do banco, olhei o relógio, saí depressa, fui trabalhar, providenciar, telefonar... Adeus, pequenina borboleta amarela."


Rio, setembro de 1952


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Casa Granado,150 anos







“ Cheguei ao Rio , 
como chega um portuguez disposto ao trabalho 
- com pequena mochila e animo forte! ...” 

Entrevista de José Coxito para o jornal A Noite, de 12 de novembro de 1932.


A Casa Granado foi fundada por José de Barros Franco e pelo português José Antônio Coxito Granado com o nome “Botica de Barros Franco” e ficava na então denominada rua Direita, uma das mais movimentadas do centro do Rio de Janeiro, atual rua Primeiro de Março, onde permanece até hoje. Em 1876, Barros Franco retirou-se da sociedade e Pedro Gonçalves Bastos tornou-se sócio até 1878 (A Reforma, 16 de setembro de 1876, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1878, penúltima coluna). A loja tornou-se ponto de encontro de personalidades ilustres como o prefeito Pereira Passos (1836 – 1913) e Rui Barbosa (1849 – 1923). Em 1903, João Bernardo Granado, irmão de Coxito, criou um dos produtos mais populares da botica: o polvilho antisséptico, cuja fórmula teve registro aprovado pelo cientista Oswaldo Cruz. Em 1915, lançamento de outro produto pioneiro: o sabonete de glicerina.






Quando adquiriu a botica de Barros Franco, em 1870, José Coxito Granado buscou incrementar o comércio farmacêutico nacional trazendo representações de várias empresas da Europa e cercando-se dos melhores profissionais da área.



Em 1899, a farmácia da rua Primeiro de Março já era um dos estabelecimentos mais respeitados do Rio de Janeiro, e José Coxito viu a necessidade de montar um laboratório para atender à demanda de pedidos. Com 15 anos de funcionamento, tornou-se novamente insuficiente. 

Em 1912, então, foi adquirido um “grande” prédio na rua do Senado, nº 48, para que ali fosse montado um laboratório modelo. O “Laboratorio Chimico-Pharmaceutico de Granado” foi equipado com a tecnologia mais avançada de sua época, sendo considerado um dos maiores e melhores da América do Sul.

“Era gerente. A botica do Barros Franco tinha duas portas e pequenas prateleiras. Progrediu, sob minha direcção. Um dia, sentindo-se cansado o patrão, ofereci-Ihe sete contos pela casa. Ele aceitou a oferta”.

A Casa Granado tinha vários endereços como

Primeiro de Março nº 14 (a matriz, na então Rua Direita),
Visconde de Rio Branco nº 31, 
Conde de Bonfim nº 300 e
Rua do Senado nº 46.

Tinha laboratórios e oficinas lito-tipográficas instalados na

Rua do Senado nº 46 e
Rua do Lavradio nº 29, 30 e 32

Durante os anos de 1887 a 1940, ele editou o almanaque anual “Pharol da Medicina”. Nele, médicos, farmacêuticos e seu fiel público eram informados sobre os novos produtos da sua farmácia).

Por volta de 1880 a Granado ostentava o título de Imperial Drogaria e Pharmacia de Granado &Cia. e trazia o brasão do Império inscrito nos frascos de seus remédios.

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de ...
A Brasiliana Fotográfica destaca um registro da fachada da Farmácia Granado produzido por Marc Ferrez (1843 – 1921).

No topo da imagem há um quadro a óleo retratando dom Pedro II (1825 – 1891) e a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), com o neto primogênito, Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança (1866 – 1934). Foi encomendado pela farmácia ao artista alemão Frederico Steckel (c. 1834 -1921), em homenagem ao “feliz regresso” do casal ao Brasil, em 22 de agosto de 1888 (Gazeta de Notícias, 23 de agosto de 1888, primeira coluna). Em 1880, dom Pedro II havia concedido à drogaria o título de Farmácia Oficial da Família Imperial Brasileira.




Casa Granado, no Centro





Granado, da Tijuca




Ilha da Saúde, a chácara Granado em Teresópolis

José Coxito tinha uma propriedade na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, onde cerca de 300 espécies de plantas medicinais eram cultivadas sob olhar atento de seu dono e usadas na manipulação dos produtos da farmácia.

Em entrevista ao jornalista João Luso, publicada no Jornal do Commercio e reproduzida no Pharol da Medicina, de 1929, José Coxito expressa sua paixão por esse recanto:


“ As bênçãos de Deus cahem nestas alturas como em nenhum outro logar. Eu passo, lá embaixo, semanas inteiras a labutar, a magicar negocios... Quando sinto o cansaço chegar deveras, agarro no sobretudo e tomo o trem. Enterrei aqui uma fortuna para transformar um pantano... naquillo que você está vendo. Mas bem empregado dinheiro, senhor! Durmo aqui uma noite, duas noites, sinto-me outro.”​

Ponto de encontro social

Granado, do Centro da Cidade do Rio



Tradicionalmente, as boticas eram locais de encontro das mais importantes personalidades da cidade. Eram nelas que, no fim da tarde, reuniam-se a elite intelectual para um bate-papo descompromissado ou fervorosas discussões políticas e sociais.

Durante o Império, José Coxito foi amigo pessoal de D. Pedro II, do jurista Ruy Barbosa e do abolicionista José do Patrocínio. Já na República, a farmácia recebeu os presidentes Epitácio Pessoa e Juscelino Kubitschek, o aviador Gago Coutinho, o prefeito Pereira Passos entre outras personalidades.

“E um dia procurei o governador (sic) da cidade. Nosso encontro foi curioso. Ele apertou a mão e disse-me: — "Você é que é o Granado?" E eu fiz-lhe idêntica pergunta: — "E você é que é o Passos?" Porque só nos conhecíamos de vista. Ficamos íntimos, no mesmo instante”.


Premiações nacionais e internacionais



Ao longo das primeiras décadas do século XX, a Granado era uma das mais conceituadas indústrias farmacêuticas e de perfumaria no Brasil, motivo de orgulho nacional.

Essa notoriedade lhe valeu inúmeras premiações em exposições e, principalmente, o reconhecimento da classe médica que não só prescrevia, mas



Instalações do fabrico e estoque da Casa Granado.

A Pharmácia Oficial da Família Imperial Brasileira



Em agosto de 1888, quando D. Pedro II voltava de uma viagem à Europa e toda a cidade havia lhe preparado muitas homenagens, a Granado encomendou um quadro – inspirado em fotografia enviada pelo Imperador para o seu boticário e amigo – assim descrito por Mary del Priori em seu livro O Príncipe Maldito:

“A farmácia dos senhores Granado [...] encomendou ao artista Frederico Antônio Steckel uma decoração especial. A pintura a óleo [...] exibia em tamanho natural os avós e o neto: “o favorito”. No alto da grossa moldura, as armas imperiais. Em seda carmesim, tremulavam sobre o quadro os dizeres em letras douradas: Feliz Regresso de Suas Majestades Imperiais”.

A Granado era um das companhias fornecedoras oficiais do Palácio, e no ano de 1884 foi condecorada pelo Imperador com o título o de Pharmácia Oficial da Família Imperial Brasileira.


Estava escrito


José Coxito faleceu em 1935, deixando a direção da empresa ao seu irmão João Bernardo Coxito Granado.

Após a morte de João Bernardo, em 1943, a direção passou para as mãos do Comendador Armando Ribeiro Vieira de Castro – esposo de Manuela Granado, uma das filhas de José Coxito.

Na década seguinte, com o falecimento de Vieira de Castro, a Granado ficou sob a direção de Otto Serpa Granado, filho de José Coxito. Após a morte de Otto, na década de 1970, Carlos Granado Vieira de Castro, neto de José Coxito e filho de Armando e Manuela, assume a presidência.

José Coxito, em seu testamento deixou registrado o desejo de eternizar a botica e levá-la para
além do Brasil pelas mãos de um estrangeiro. Em 1994, Carlos Granado contratou o economista inglês Christopher Freeman para vender a empresa do avô.

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Christopher Freeman se encantou pela trajetória e empreendedorismo de José Coxito; comprou ele mesmo a antiga botica e deu início à modernização da empresa. Quando viu a necessidade de reposicionar a marca, junto com sua filha Sissi Freeman, percebeu que a riqueza da Granado era a sua história.




segunda-feira, 22 de junho de 2020

Propagandas de outros tempos cariocas



Muitos não conheceram esses produtos


Dos tempos em que as televisões tinham tubo de imagem e se queimavam. 
E tinha a opção da troca do tubo.


A elegância das canetas tinteiro precisavam de tinhas para enchê-las, que manchavam. Aí apareceu a revolução: tinta lavável!



O fixador dos "topetes" masculinos.