quinta-feira, 30 de julho de 2020

Observações Cariocas de Todos os Tempos_ Ribeiro Couto



 Ribeiro Couto - Poemas escolhidos   A fisionomia da Lapa (mesmo independentemente de qualquer impressão pessoal e subjetiva) sofrera várias alterações. Por exemplo: não havia mais garçonetes. 
Ribeiro Couto, que mais ou menos por esse tempo passou dois anos no Rio, em estágio no Itamaraty, observava numa crônica: 

“Não ficarei na Lapa. Dos seus bares o regulamento policial afastou as caixeirinhas risonhas que imitavam o Reno à sobra dos Arcos. Onde cultivar o anonimato, o chope sentimental e a meditação confusa a esta hora em que me assaltam os demônios da nostalgia? “Na praia.”

E era mais ou menos isso o que todos faziam: iam para a praia, isto é, para Copacabana. Foi então o tempo de grande esplendor do Alcazar, o famoso bar-restaurante com terrasse do Posto 5. Eu, carioca legítimo e não de adoção, não me conformava muito com isso. Em 1948 escrevia:

‘Como o Rio tem mudado nos últimos anos! Pode-se quase dizer que Copacabana vai aos poucos matando o Rio. Porque Copacabana pouco ou nada tem a ver com o Rio. Copacabana é alegre, é luminosa, é turística, cosmopolita, vitaminada, esportiva e incontestavelmente bela.

Mas não é o Rio. O Rio é a velha cidade imperial das ruas mal calçadas que os crepúsculos se iluminavam a bico de gás. Soa os becos estreitos e sinuosos, com recordações coloniais apontando a cada passo. É a evocação persistente e viva dos romances de Macedo, da música de Nazareth, das serenatas boêmias dos bairros sossegados dos subúrbios tristonhos, em noites profundamente quietas de misterioso luar... O Rio é a rua da Misericórdia, a praça da Bandeira, o Catete, o largo do Machado, a Tijuca, Vila Isabel, Flamengo, Laranjeiras, Andaraí, Engenho Novo. O Rio é a Lapa.’

Foi por isso que muitos anos depois, em 1957, quando Renato Perez, entrevistando-me para o Correio da Manhã, quis saber se eu, carioca, em São Paulo Tinha muitas saudades do Rio:

– Não – respondi. – Tenho muitas saudades do Rio quando estou no Rio.”

 
Ribeiro Couto, foi um jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras desde 28 de março de 1934, até sua morte em 1963.


domingo, 26 de julho de 2020

Uma rua no Leblon, no Posto 11


A Rua Leblon...

 ou Rua Oswaldo Goeldi está localizada no centro do quarteirão, entre a Rua Almirante Guilhem e Avenida Afrânio de Melo Franco. Tem entradas pelo número 200 da Avenida Delfim Moreira e saída pela Avenida General San Martin.
Rua Leblon, localizada quase em frente ao Posto11



Entrada - Av Delfim Moreira



O lote é comprido e estreito, e tem duas frentes, uma pela a Avenida Delfim Moreira e outra, pela Avenida General San Martin. Para garantir seu máximo aproveitamento, no início dos anos de 1940, foi desmembrado e loteado, conforme o PAAL nº 7896.

Sua forma de implantação é de vila particular, tendo no meio do lote uma rua estreita, com unidades residenciais enfileiradas e voltadas para a rua, sendo nove unidades no lado impar e oito no lado par. 

Ao todo são cerca de 17 imóveis na rua, entre dois e seis pavimentos e pelas fachadas dos três preservados, pode-se ver os contornos da arquitetura dos anos de 1940.

Algumas casas...

A casa na Rua Leblon nº 3, onde os Stones (Gerald e Tony), os Parens (Drew e Brian), os Morthlands (Margaret e Bronwyn) e os Meads (Margaret) viveram durante a década de 1960. ."


Foto tirada em 1962


Essa rua é um oásis de tranquilidade e um dos endereços mais nobres do Brasil. Das 18 casas apenas três são preservadas pela APAC do Leblon e não podem ser modificadas. A branca que aparece nas fotos abaixo e em uma matéria antiga da Revista de Arquitetura não está entre as três.


Foto mostram a Rua Leblon no final da década de 1940.

Nenhuma descrição de foto disponível.
A imagem pode conter: texto que diz "poblem. comples numeron aocenle Canccou anquiteto ondluç.in hscinle crли nesdia Casa de um arquiteto J. Fontes Ferreira ENGENHEIRO ARQUITETO qqueno jardim tem progetas tribuiçio: escolhido Portico aberto; Ipanem PLIRATa sequanto automdse rctanil anstru .mdar térreo, recuado rua alcançar cemuris owsiitot IO ARQUITETUIRA"


Infelizmente para nós e, claro, para tranquilidade de seus moradores,  a rua foi fechada por portões e só moradores e visitantes podem atravessar da Rua General San Martin para a Avenida Delfim Moreira.

Uma das tombadas é essa de estilo normando.


A imagem pode conter: pessoas em pé, listras, casa, árvore, céu e atividades ao ar livre


Na foto abaixo, de 1949, podemos ver três integrantes da família Escobar em frente à casa, um legítimo bangalô normando à beira-mar, ainda sem muros.

Construída na década de 1940 até hoje pertence à família Escobar.
Ela é tombada e atualmente não pode ser modificada, muito menos demolida.

Sua arquitetura rara a coloca no top 10 de casas antigas mais lindas do Leblon.


Fotos da família Escolar
Nenhuma descrição de foto disponível.

A imagem pode conter: 1 pessoa, área interna
Lourdes Escobar, na rua, em frente à sua casa.
 Foto gentilmente cedida por ela.



Uma curiosidade da Rua Leblon:

Aos interessados de plantão, existe uma casa na exclusiva Rua Leblon. Ela está à venda pela bagatela de R$ 11.000.000,00(onze milhões de reais). Tem 221 m²,  taxa de condomínio no valor de R$ 3.600,00 e IPTU de R$ 19.035,00.





Em tempo:

Pintores Brasileiros – OSWALDO GOELDI - VÍRUS DA ARTE & CIA. 

Oswaldo Goeldi foi um grande artista plástico brasileiro.

Carioca, nasceu em 1895 e morreu em 1961. Gravador, desenhista, ilustrador, professor, se dedicou à xilogravura e teve sua história ligada ao Leblon, onde morou em seu pequeno apartamento/atelier na Rua Almirante Guilhem, no Leblon.







quinta-feira, 23 de julho de 2020

A primeira foto da cidade do Rio de Janeiro, 1840







Reprodução em negativo de vidro feita pelo fotógrafo Marc Ferrez, na década de 1880.


Cerca de 9 minutos foi o tempo necessário para se obter uma das primeiras imagens do Rio de Janeiro, captada em janeiro de 1840 por Louis Comte. 

Louis Comte era capelão do navio francês que deveria ter dado a volta ao mundo mas que, por conta de uma série de problemas internos, jamais concluiu a viagem.
O Oriental-Hydrographe tinha o objetivo de proporcionar uma experiência em alto mar para jovens da elite francesa. No entanto, houve problemas desde o início: muitos desistiram logo nos primeiros dias. Também aconteceram desavenças entre a tripulação. Houve até registro de duelos dentro do navio. Por fim, a embarcação naufragou em Valparaíso, no litoral do Chile.

Antes disso, porém, o navio passou pelo Brasil – e foi nesse momento que a história da viagem cruzou com a do Rio de Janeiro.

Os tripulantes traziam cinco daguerreótipos a bordo. Um deles era usado por Louis Comte
Durante a permanência em terras cariocas, Louis Comte se hospedou no Hotel Pharoux, de onde fez a foto, de uma das janelas do quarto andar da hospedaria.

O tempo, que hoje se reduz a menos de 1 segundo para tirar uma fotografia e já ver o resultado, surpreendeu na época o Jornal do Commercio

“É preciso ter visto a coisa 
com os seus próprios olhos 
para poder fazer ideia da rapidez 
e do resultado da operação”, 

diz artigo publicado 
no dia 17 de janeiro de 1840


Essa era a primeira vez que um ensaio com um daguerreótipo, primeiro aparelho que possibilitou o processo fotográfico, chegava “do lado de cá”, como anunciou o jornal. 

A fotografia retrata o chafariz colonial no Largo do Paço, no centro do Rio de Janeiro.




quarta-feira, 22 de julho de 2020

Uma história carioca...

Sessão especial celebra aniversário de 170 anos do nascimento de ...


Existe uma história que diz que 
certa vez Rui Barbosa, 
ao chegar em casa, em Botafogo, 
ouviu um barulho estranho 
vindo do seu quintal.



Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:

"- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa.Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à qüinqüagésima potência que o vulgo denomina nada."

E o ladrão, confuso, diz:

"- Dotô, resumino, eu levo ou deixo os pato?"


segunda-feira, 20 de julho de 2020

domingo, 12 de julho de 2020

A "noite" como inspiração carioca


Algumas canções 
falaram da noite carioca.


1. O CHORO DELICIOSO DE JACOB DO BANDOLIM...NOITES CARIOCAS


. versão instrumental com o próprio Jacob


. na voz da grande Ademilde Fonseca, a Rainha do choro.




2.  UM CLÁSSICO DA BOSSA NOVA...FIM DE NOITE ( de Chico Feitosa e Ronaldo Bôscoli)

. com o autor, Chico Feitosa




3. O GRANDE SUCESSO DO SAMBA-CANÇÃO... A NOITE DO MEU BEM (de Dolores Duran)

. com a própria autora



. a linda versão com Milton Nascimento




4. O HIT DANÇANTE DOS ANOS 80...NOITE DO PRAZER 
( Claudio Zoli, Paulo Zdanowski e Arnaldo Brandão)

. com Claudio Zoli






quinta-feira, 9 de julho de 2020

Afinal, quem foi a primeira Miss Brasil



Bebe Lima Castro, Miss Brasil de 1900

Quando Martha Rocha faleceu, em 04 de julho de 2020, muitos jornais noticiaram que ela foi a primeira Miss Brasil. O que gerou algumas dúvidas, com razão, quanto ao pioneirismo de sua coroa.

 Martha Rocha foi consagrada em 26 de junho de 1954, Miss Brasil. Por uma questão de direitos de propriedade, apenas o concurso ainda em vigor é considerado oficial. Mas antes da baiana das duas polegadas há mais, existiram sim no país outros concursos com o mesmo nome, porém em concursos não oficiais.



Os concursos oficiais de Miss Universo começaram em 1952, na cidade de Long Beach (Califórnia), para promover uma marca de maiô. O Brasil só iniciou sua participação em 1954, quando a baiana Martha Rocha, classificou-se em 2º lugar, justificado pelas lendárias “duas polegadas a mais”. Comentário de um dos jurados, ouvido pelo jornalista João Martins da revista O Cruzeiro, que publicou a notícia até hoje comentada.


Existem várias versões do concurso Miss Brasil, porém, o único Miss Brasil realmente é o que elege a representante do país para o Miss Universo.




As Misses


1900


Em 1900 Violeta Lima Castro, mais conhecida como Bebe Lima Castro, tornou-se a "Primeira Miss Brasil". O concurso, entretanto, foi organizado pelo Jorna Rua do Ouvidor, e apenas moças da alta sociedade e residentes no Rio de Janeiro podiam se inscrever.



Nascida em Paris, em 1879, era filha de brasileiros, e foi registrada no consulado do Brasil, na França. Foi atriz e cantora, e chegou a se apresentar para Mussolini. Ela faleceu em 1965.


1865 (!!!)

Alguns historiadores consideram que existiu uma Miss Brasil anterior a Bebê Lima Castro, a também francesa Aymée. O pesquisador Brício de Abreu considerava Aymée a primeira Miss Brasil, eleita em 1865.

Nascida em 1845, ela tinha 19 anos quando veio ao Brasil, onde se tornou uma estrela dos palcos, normalmente apresentado-se em operetas. Logo tornou-se muito popular por aqui.



Em 1865 o jornal Diário do Rio criou uma enquete para eleger qual era a mais linda artista do Rio de Janeiro. Ayme foi eleita pelo voto popular, e Machado de Assis fez uma crônica tecendo elogios a sua beleza. Para muitos, vencer este pleito (onde novamente só participaram concorrentes do Rio de Janeiro), daria o título de primeira Miss Brasil para Aymée.

Incomodando a alta sociedade conservadora, a atriz praticamente foi expulsa do Brasil, para não ser "um mau exemplo para a juventude". Infelizmente, não existem registros da sua morte.


1912


Outro concurso promovido por um jornal Carioca, Gazeta de Notícias, restrito apenas as residentes do então Distrito Federal. O jornal estampava em suas páginas um cupom para ser recortado, e nele podiam ser indicado qualquer nome de jovens cariocas, a que tivesse mais cupons vencia. Na verdade, era apenas uma estratégia para vender mais exemplares do periódico.


A vencedora foi Noêmia Nabuco de Castro. O prêmio era um frasco de perfume.





Uma curiosidade, Nair de Teffé, a primeira caricaturista brasileira (e talvez do mundo), foi uma das finalistas. Em 1913 ela se casaria com o Marechal Hermes da Fonseca, e tornaria-se a primeira primeira dama brasileira.


1923


Primeiro concurso nacional de beleza, que aceitou inscritas de todo o país. Organizado pela Revista da Semana e pelo jornal A Noite, do Rio de Janeiro, ele foi inciado em 1921, e pedia que as concorrentes enviassem fotografias para sua redação. Um juri, formado pelo pintor Batista da Costa, pelo escultor Correia Lima e pelo caricaturista Raul Pederneiras enfim elegeu a paulista Zezé Leone, em 1923.



Nascida em Campinas, Maria José Leone, nasceu em 01 de dezembro de 1902. Na verdade, ela foi eleita a "Mulher Mais Bela do Brasil". Ao contrário de suas antecessoras, não era artista ou da elite, mas sim filha de um alfaiate, radicado na cidade de Santos. Ela já havia vencido um concurso de beleza organizado pela revista santista Flamma, em 1920.


Zezé Leone se tornou uma celebridade brasileira. Fez campanhas publicitárias, foi homenageada com uma locomotiva com seu nome, e foi cantada no foxtrote Vênus, de José Francisco de Freitas, o Freitinhas. E tal como Martha Rocha, ganhou um doce com seu nome, o creme Zezé Leone.


Creme Zezé Leone


Em 1923 ela estrelou o filme Sua Majestade, a Mais Bela do Brasil (1923), realizado pelo estúdio Botelho Filho. Mas a vida artística durou pouco. Em 1924 ela se casou com Lincoln Feliciano da Silva, futuro prefeito de Santos, e deixou os holofotes. Zezé Leone faleceu em 1965.



1929
Organizado pelo jornal carioca A Noite, o concurso foi vencido pela carioca Orla Bergamini de Sá. Didi Caillet, a Miss Paraná, ficou em segundo lugar. Didi gravou discos, e mais tarde tornaria-se uma poetista muito a frente do seu tempo.

A cantora e atriz Laura Suarez disputou com Olga o título de Miss Guanabara. Mais tarde, em 1936, ela se tornaria a primeira pessoa brasileira a aparecer na televisão, nos Estados Unidos. Leia mais sobre Laura Suarez aqui.



Olga Bergamini de Sá viajou para os Estados Unidos, onde disputou o concurso (não oficial) do Miss Universo.

1930

Revoltados com a derrota de Olga no Miss Universo do ano anterior, o Brasil resolveu criar o seu próprio Miss Universo, paralelo ao concurso então organizado pela International Pageant of Pulchritude. 

A gaúcha Yolanda Pereira (1910-2001), não só foi eleita a Miss Brasil daquele ano, como pasmem, também ganhou o título brasileiro de Miss Universo.




Nos Estados Unidos, no outro concurso, Dorothy Dell sagrou-se a vencedora. Ela se tornaria atriz em Hollywood, mas faleceu com apenas 19 anos de idade. 

1932

Em 1932 não houve concurso de Miss Brasil por aqui. Porém, devido as reclamações dos brasileiros com o concurso de Miss Universo desde 1929, um grupo de jornalistas brasileiros radicados na França (incluindo Brício de Abreu), elegeram, em um restaurante, a Miss Brasil daquele ano. As candidatas eram jovens brasileiras residentes ou de passagem por Paris.


A pianista Yeda Telles de Menezes, filha da cantora Julietta Telles de Menezes, foi a escolhida para representar o Brasil no Miss Universo daquele ano, que foi vencido pela Miss Turquia.

Keriman Halis (Miss Universo de 1932) e Yeda Telles de Menezes 

1939


Devido ao começo da Segunda Guerra Mundial, o antigo Concurso de Miss Universo, que era realizado na cidade de Galveston, Estados Unidos, foi encerrado. Mas o Brasil já havia elegido suas representantes estaduais no ano anterior. Em um evento realizado no Cassino da Urca, a carioca Vânia Pinto foi eleita a Miss Brasil. Vânia é considerada a primeira modelo profissional brasileira.




1949


Em 1949 ocorreu o último concurso extra oficial, da chamada "fase jurássica" do Miss Brasil. Foi realizado no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, e sagrou a goiana Jussara Marques como campeã.



Maria da Gloria Drummond, a representante de Minas Gerais, mais tarde se casaria com o colunista social Ibrahim Sued.

Jussara Marques (1931-2006) tornou-se uma celebridade brasileira, e gozou do reinado por cinco anos, até a eleição de Martha Rocha, em 1954. Duas cidades foram batizadas com seu nome, Jussara, uma em Goiás (em 1950) e outra no Paraná (em 1952).




Fonte: Memórias Cinematográficas



sexta-feira, 3 de julho de 2020

Crônicas cariocas de todos os tempos... Rubem Braga

Rubem Braga - Biografia - Global Editora


Afrânio Coutinho – Wikipédia, a enciclopédia livre



Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de Rubem Braga é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza."






Manuel Bandeira: biografia, obras e melhores poemas - Toda Matéria


Manuel Bandeira brincava com ele:

Quando Rubem Braga tem assunto é bom. 
Quando não tem, é ótimo.”







" A Borboleta Amarela

Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses insetos que fazem vida urbana; mas, como olhasse, vi que era uma borboleta amarela.Era na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; ela borboleteava junto ao mármore negro do Grande Ponto; depois desceu, passando em face das vitrinas de conservas e uísques; eu vinha na mesma direção; logo estávamos defronte da A.B.I. Entrou um instante no hall, entre duas colunas; seria um jornalista? – pensei com certo tédio.Mas logo saiu. E subiu mais alto, acima das colunas, até o travertino encardido. Na rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse: ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera no seu vôo saçaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os faz com borboletas – o que, aliás, é uma boa idéia. Quando eu o mandar fazer os jardins de meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare... Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta.A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha – como se fosse meu cão ou minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessado a rua na minha frente, e eu devesse segui-la. Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos ou se vendo –, só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel. Naquele ângulo há um jardinzinho, atrás da Biblioteca Nacional. Ela passou entre os ramos de acácia e de uma árvore sem folhas, talvez um "flamboyant"; havia, naquela hora, um casal de namorados pobres em um banco, e dois ou três sujeitos espalhados pelos outros bancos, dos quais uns são de pedra, outros de madeira, sendo que estes são pintados de azul e branco. Notei isso pela primeira vez, aliás, naquele instante, eu que sempre passo por ali; é que a minha borboleta amarela se tornava sensível às cores.Ela borboleteou um instante sobre o casal de namorados; depois passou quase junto da cabeça de um mulato magro, sem gravata, que descansava num banco; e seguiu em direção à Avenida. Amanhã eu conto mais."


Segunda parte


"Eu ontem parei a minha crônica no meio da história da borboleta que vinha pela rua Araújo Porto Alegre; parei no instante em que ela começava a navegar pelo oitão da Biblioteca Nacional.Oitão, uma bonita palavra. Usa-se muito no Recife; lá, todo mundo diz: no oitão da igreja de São José, no oitão do Teatro Santa Isabel... Aqui a gente diz: do lado. Dá no mesmo, porém oitão é mais bonito. Oitão, torreão.Falei em torreão porque, no ângulo da Biblioteca, há uma coisa que deve ser o que se chama um torreão. A borboleta subiu um pouco por fora do torreão: por um instante acreditei que ela fosse voltar, mas continuou ao longo da parede. Em certo momento desceu até perto da minha cabeça, como se quisesse assegurar-se de que eu a seguia, como se me quisesse dizer: "estou aqui".Logo subiu novamente, foi subindo, até ficar em face de um leão... sim, há uma cabeça de leão, aliás há várias, cada uma com uma espécie de argola na boca, na Biblioteca. A pequenina borboleta amarela passou junto ao focinho da fera, aparentemente sem o menor susto. Minha intrépida, pequenina, vibrante borboleta amarela! pensei eu. Que fazes aqui, sozinha, longe de tuas irmãs que talvez estejam agora mesmo adejando em bando álacre na beira de um regato, entre moitas amigas – e aonde vais sobre o cimento e o asfalto, nessa hora em que já começa a escurecer, oh tola, oh tonta, oh querida pequena borboleta amarela! Vieste talvez de Goiás, escondida dentro de algum avião; saíste no Calabouço, olhaste pela primeira vez o mar, depois...Mas um amigo me bateu nas costas, me perguntou "como vai bichão, o que é que você está vendo aí?" Levei um grande susto, e tive vergonha de dizer que estava olhando uma borboleta; ele poderia chegar em casa e dizer: "encontrei hoje o Rubem, na cidade, parece que estava caçando borboleta".Lembrei-me de uma história de Lúcio Cardoso, que trabalhava na Agência Nacional: Um dia acordou cedo para ir trabalhar; não estava se sentindo muito bem. Chegou a se vestir, descer, andar um pouco junto da Lagoa, esperando condução, depois viu que não estava mesmo bem, resolveu voltar para casa, telefonou para um colega, explicou que estava gripado, até chegara a se vestir para ir trabalhar, mas estava um dia feio, com um vento ruim, ficou com medo de piorar – e demorou um pouco no bate-papo, falou desse vento, você sabe (era o noroeste) que arrasta muita folha seca, com certeza mais tarde vai chover etc., etc..Quando o chefe do Lúcio perguntou por ele, o outro disse: "Ah, o Lúcio hoje não vem não. Ele telefonou, disse que até saiu de casa, mas no caminho encontrou uma folha seca, de maneira que não pode vir e voltou para casa."Foi a história que lembrei naquele instante. Tive – por que não confessar? – tive certa vergonha de minha borboletinha amarela. Mas enquanto trocava algumas palavras com o amigo, procurando despachá-lo, eu ainda vigiava a minha borboleta. O amigo foi-se. Por um instante julguei, aflito, que tivesse perdido a borboleta de vista. Não. De maneira que vocês tenham paciência: na outra crônica, vai ter mais história de borboleta."


Última parte


"Mas, como eu ia dizendo, a borboleta chegou à esquina de Araújo Porto Alegre com a Avenida Rio Branco; dobrou à esquerda, como quem vai entrar na Biblioteca Nacional pela escada do lado, e chegou até perto da estátua de uma senhora nua que ali existe; voltou; subiu, subiu até mais além da copa das árvores que há na esquina – e se perdeu.Está claro que esta é a minha maneira de dizer as coisas; na verdade, ela não se perdeu; eu é que a perdi de vista. Era muito pequena, e assim, no alto, contra a luz do céu esbranquiçado da tardinha, não era fácil vê-la. Cuidei um instante que atravessava a Avenida em direção à estátua de Chopin; mas o que eu via era apenas um pedaço de papel jogado de não sei onde. Essa falsa pista foi que me fez perder a borboleta.Quando atravessei a Avenida ainda a procurava no ar, quase sem esperança. Junto à estátua de Floriano, dezenas de rolinhas comiam farelo que alguém todos os dias joga ali. Em outras horas, além de rolinhas, juntam-se também ali pombos, esses grandes, de reflexos verdes e roxos no papo, e alguns pardais: mas naquele momento havia apenas rolinhas. Deus sabe que horários têm esses bichos do céu.Sentei-me num banco, fiquei a ver as rolinhas – ocupação ou vagabundagem sempre doce, a que me dedico todo dia uns 15 minutos. Dirás, leitor, que esse quarto de hora poderia ser mais bem aproveitado. Mas eu já não quero aproveitar nada; ou melhor, aproveito, no meio desta cidade pecaminosa e aflita, a visão das rolinhas, que me faz um vago bem ao coração.Eu poderia contar que uma delas pousou na cruz de Anchieta; seria bonito, mas não seria verdade. Que algum dia deve ter pousado, isso deve; elas pousam em toda parte; mas eu não vi. O que digo, e vi, foi que uma pousou na ponta do trabuco de Caramuru. Falta de respeito, pensei. Não sabes, rolinha vagabunda, cor de tabaco lavado, que esse é Pai do Fogo, Filho do Trovão?Mas essa conversa de rolinha, vocês compreendem, é para disfarçar meu desaponto pelo sumiço da borboleta amarela. Afinal arrastei o desprevenido leitor ao longo de três crônicas, de nariz no ar, atrás de uma borboleta amarela. Cheguei a receber telefonemas: "eu só quero saber o que vai acontecer com essa borboleta". Havia, no círculo das pessoas íntimas, uma certa expectativa, como se uma borboleta amarela pudesse promover grandes proezas no centro urbano. Pois eu decepciono a todos, eu morro, mas não falto à verdade: minha borboleta amarela sumiu. Ergui-me do banco, olhei o relógio, saí depressa, fui trabalhar, providenciar, telefonar... Adeus, pequenina borboleta amarela."


Rio, setembro de 1952


quarta-feira, 1 de julho de 2020

O nosso primeiro MInistro da Justiça


Vale recordar  o caso do nosso primeiro Ministro da Justiça.



O digníssimo (?!) desembargador Pero Borges, no dia 17 de maio de 1547, foi julgado pelo rei Dom João III, imperador de Portugal, que o condenou a não mais exercer cargos público durante três anos, por ter desviado verbas da construção de um aqueduto no Sul daquele país, onde exercia o cargo de supervisor da obra. Também teve que devolver cerca de 100.000 réis, aproximadamente 10% do orçamento total destinado à construção do aqueduto, uma verdadeira fortuna naquela época. 
Em 1548, mais precisamente no dia 17 de dezembro, ou seja, há exatos 19 meses após sua condenação, o mesmo rei que o julgou - PASMEM, ou não -  o nomeou para o cargo de Ouvidor Geral do Brasil, cargo equivalente hoje ao de Ministro da Justiça, ou seja, para cuidar dos mais importantes assuntos jurídicos da Colônia.
Em que em 1º de fevereiro de 1549 chegava a Salvador, sede do governo da colônia, (Já com seu super salário de cerca de 200 mil réis por ano, pagos mesmo antes de começar a trabalhar) acompanhando o então governador geral Tomé de Souza, desembarcando em terras brasileiras,  para ser o nosso primeiro Ministro da Justiça. 
Como já era de se esperar, no Brasil, o Desembargador Pero Borges encontrou o lugar ideal para mais uma vez “elaborar seus planos”, e foi logo reconhecido por sua “competência”. No governo seguinte, Duarte Costa, em 1553, acumulou o cargo de provedor-mor da Fazenda, o equivalente hoje ao status de ministro da Economia, nomeado para cuidar do... erário público.
 O que aconteceu a seguir todos nós imaginamos: o nosso digníssimo ministro envolve-se em vários escândalos, nos mesmos moldes dos que acontecem hoje. 
Devido a várias denuncias de corrupção Pero Borges foi finalmente mandado de volta para Portugal, porém nunca chegou a ser punido. Dos quatro ouvidores que vieram em seguida, três retornaram às terras Lusitanas, sob acusações de diversas falcatruas.
O Brasil foi descoberto, colonizado, emancipado, reinado, administrado, democratizado e redemocratizado sempre com fortes tendências ao corporativismo, clientelismo, tráfico de influência e nepotismo, onde o resultado desta nefasta soma é a... famigerada corrupção.