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quinta-feira, 22 de março de 2018

Crônica Carioca de Todos os Tempos...sobre Antônio Maria



A crônica abaixo foi publicada
 em dezembro de 1974, 
na revista Manchete.

É de Paulo Mendes Campos que escreve sobre o amigo Antônio Maria, pernambucano nascido em março, que adotou o Rio de Janeiro como sua casa e pra ela fez a bela Valsa de Uma Cidade.





"Ninguém me ama… Ninguém me quer… Ninguém telefona… 
Não era nada disso. Era uma vez um menino gordo. Era uma vez um homem que transpirava. Transpirava inacreditável quantidade de líquido e de tudo o mais que existia dentro dele: lirismo, senso cômico, irrisão, ternura, raivas, saudade, gula, inteligência, sofreguidão. Antonio Maria era um moço que se esvaía, gastando o dia todo os elementos de sua personalidade, virtudes e defeitos. Versos famosos de Bocage (Meu ser evaporei na lida insana do tropel das paixões que me arrastavam) serviriam muito bem para seu epitáfio. 
Que ele mesmo se apresen­te: “Com vocês, por mais incrível que pareça, An­tonio Maria, brasileiro, can­sado, 43 anos, cardisplicente (isto é: homem que desdenha o próprio coração). Profissão: esperança.” 
Hoje teria 53 anos. Morreu como viveu, na rua, na noite, há 10 anos, na madrugada de 15 de outubro. 
Que ele mesmo conte: “Em março nascia Antonio, e, após o momento dramático em que lhe foi cortado o cordão umbi­lical, precisou adquirir oxigê­nio por seu próprio esforço (a respiração), e seu alimento pelo ato da lactação. Coitado! Como sabeis, a lactação não é simplesmente o prazeroso processo de sugar leite, e sim um período transitório entre a total dependência e a separa­ção entre o filho e a mãe. E que fazia Antônio? Agarrava-se amorosamente à sua con­fortável mater, vivendo, em desespero, os últimos dias do contato geral com o ser ma­terno”. 
Esta sede aflita jamais o dei­xou, mesmo depois que os médicos lhe prescreveram as medidas da parcimônia. Era um desmedido. 
Era um gordo, mas um gordo que tinha a inesperada agilidade dos elefantes, a mental e a física. Sempre disse com muito orgulho que só sa­bia fazer bem uma coisa: diri­gir automóvel. De fato dirigia magnificamente bem seu vasto Cadillac, com muita ca­dência e segurança. 
Uma vez, no antigo Vogue, em plena madrugada boêmia, foi um custo dissuadi-lo a desistir de disputar uma corrida do Rio a Petrópolis com Fer­nando Chateaubriand. Nin­guém segurava Antonio Maria, a não ser o senso humorístico, e foi para este setor que tive de apelar. 
O automóvel lhe dava uma mobilidade surpreendente, uma espécie de ubiquidade que todos aceitavam; nin­guém se espantava de vê-lo no Sacha’s e, poucas horas de­pois, de sabê-lo ainda pe­gando um fim de noite numa boate de São Paulo. 
Algumas vezes levou-me, em horas mais estapafúrdias, a um restaurante do início da subida de Petrópolis, onde eu poderia (ou deveria) comer um filé assim assim ou um frango assim ou assado. Não era então apenas a disponibi­lidade do motorista que se manifestava: era o guloso que se agarrava ao pretexto de le­var alguém para jantar a fim de não resistir, de dar uma provada e encomendar pela segunda vez um prato caprichado. 
Costumava chegar tarde na casa de Stella e Dori­val Caymmi e ir entrando sem mais aquela até a copa, abrir a geladeira, tomar um ou dois litros de água e devorar um prato glacial de feijão. Retor­nava à sala e suspirava com santa gratidão: “Que coisa di­vina!” 
Uma madrugada entrou na casa dos Autuori: Leônidas, o conhecido maestro; Sílvia dava aulas matinais de culiná­ria na televisão. Dessa vez, o gordo não entrou diretamente para a copa, mas conversou na sala algum tempo; assim, quando foi lá dentro não chamou atenção. Demorou uns poucos minutos. Daí a pouco era Leônidas Autuori que voltava lá de dentro e, de braços caídos, anunciava para a mulher: “Imbecil foi na geladeira e comeu o programa de amanhã!” Imbecil era ca­rinho, mas a ausência de artigo dispensava nomear o au­tor do crime.
Uma noite, um avião espe­cial pousou no Recife com destino a Paris. Foi uma festa no aeroporto de Guara­rapes: Dona Diva, com filhas e outros parentes, lá estava para receber o querido filho Antonio Maria. Quando este retornou ao avião, vinha às gargalhadas, derramando lá­grimas, carregando um enorme balaio repleto de garrafinhas de refrigerantes, frangos, sanduíches de várias qualidades e frutas nordesti­nas. Antonio Maria parou à entrada do corredor e exibiu o balaio: “Olhem só, pessoal! Minha mãezinha está pen­sando que Paris é como no sertão de Pernambuco!” 
Os companheiros de via­gem divertiram-se com os ze­los de Dona Diva, mas alguém gritou-lhe: “Sei lá, Maria, co­ração de mãe não se engana.”
Uns três dias depois, eu o visitei ao meio-dia no seu quarto do Hotel Vernet, em pleno Champs Elysées. Disse-me: “Minha mãe é que conhece Paris. Se não fosse ela, eu ia passar sede e fome aqui de madrugada; nem dó­lar comove disciplina de hotel francês.” 
Olhei para o balaio: não continha uma só garra­finha cheia, uma fruta, um frango, um sanduíche. Mãe de Antonio Maria não podia se enganar.
Já no fim, colocado em dieta rigorosa, convidava os amigos para a feijoada e ficava de fora, bancando apenas um experimentado locutor de fu­tebol: “Vai naquela costeleta, Lobinho! Acredita no molho à sua frente, Paulo Cabral! Não fique parado aí na área, Reinaldo!” 
Um dos grandes garfos do Brasil (páreo para o pintor Raimundo Nogueira, para o cantor Túlio de Lemos, para o humorista Sérgio Porto) havia pendurado na parede seu ins­trumento de trabalho. O cu­rioso é que seu amigo mais fraterno e inseparável — o saudoso locutor Reinaldo Dias Leme — era incapaz de comer até o fim uma coxa de passa­rinho. 
Foi homem de muitos ami­gos e de alguns poucos amar­gos inimigos. Merecia uns e outros, certo. Um jovem por­tuguês que andou por aqui, muito trêfego e simpático, o Carlos Maria, costumava di­zer: “O Antonio é um santo”. Não era, mas possuía um dom que neutralizava seus defeitos ou impulsos maldosos: era o primeiro a confessá-los e gozá-los. 
Vinicius de Morais, o Poetinha, era do peito, e Dorival Caymmi, Jorge Amado, Paulo Soledade, Ismael Netto, Aracy de Almeida, Dolores Duran, Fer­nando Ferreira. Com Fernando Lobo, amigo de ado­lescência, a constante troca de picuinhas às vezes azedava; acabavam sempre fazendo as pazes e voltando à adolescên­cia.
Com Ary Barroso as picui­nhas também existiam, em­bora nunca se azedassem. Um dia, Ary perguntou a Maria se este sabia cantar “Aquarela do Brasil”. Perfeitamente. E can­tou. Retornou Ary: “Agora me pergunta se eu sei cantar ‘Nin­guém me Ama’?” — “Você sabe cantar ‘Ninguém Me Ama’?” — “Não sei, Antonio Maria, não sei!” 
A vida não era levada a sério por essa geração de boêmios brilhantes. Deliberadamente, preferiam todos conservar a mesma gratuidade dos tempos de estudante e da luta de foice pela sobrevivência. O sucesso e o dinheiro não empavonavam os meninos. Só as crises sentimentais e as má­goas de perder amigo tisna­vam de alguma passageira dramaticidade os alegres ra­pazes da música e da litera­tura. 
Maria veio do Recife, o Recife de Haroldo Ma­tias, Cebola, Colasso, dos maracatus que voltavam cansa­dos com seus estandartes pro ar. Teve avô rico, teve pai de situação financeira estável. Depois, numa das reviravoltas do açúcar, a família ficou pobre: 
“Quando comungá­vamos, tínhamos direito a vá­rias xícaras de café, meio pão e manteiga.  Depois, vínhamos andando ao longo da Rua Formosa para tomar conta do domingo, que nos oferecia os seguintes prazeres: das 9 às 11, jogo de botão, em disputa de um campeonato que nunca terminou. Ao meio-dia, vio­lento almoço de feijoada, com porco assado. Às 2, pegar o bonde avenida Malaquias e assistir a mais um encontro entre Náutico e Sport, acon­tecimento da maior importân­cia na plana existência do Recife. Depois voltávamos can­sados, íamos ao Politeama — se sobrasse um dinheirinho — e dormíamos de consciência tranquila o longo sono dos que ainda não foram ao Vo­gue, ao vento do Capibaribe, fresco, sem umidade, macio, sem cheiro de Botafogo e Leblon.” 
Depois do curso ginasial e do curso do Cabaré Imperial, o primeiro emprego na rádio. Em 1940, no Rio, acabou arran­jando emprego na Rádio Ipanema como locutor esportivo bossa-nova: Antonio Maria Araújo de Morais inventava coisas que não estavam na gramática do futebol —bola no fotógrafo, por exemplo que era tão carlitiano, mas não agradou aos convencio­nais; perdeu o emprego e começou a peregrinação de um apartamento para outro, ao aboio de proprietários e vi­zinhos escandalizados. 
Resultado: Recife nova­mente, rádio, jornal, publici­dade, quebra-galhos. Veio o casamento, uma temporada no Ceará, outra na Bahia, dois filhos e o Rio outra vez em 1948, na Rádio Tupi e no O Jornal. 
Também esse boêmio, que jamais dormia sem o sol ter nascido e esquentado, era uma locomotiva, capaz de pu­xar toda uma composição de atividades fatigantes, progra­mas radiofônicos, imprensa, jingles, shows, televisão, pro­dução e gravação de músicas. 
Chegava suado à casa de amigo e tomava uma chuveirada; bebia um ou dois litros de água e ficava na sala, sem camisa, suando; tomava outro banho, servia-se de uís­que, contava casos engraça­dos e sumia na direção de outro trabalho, para repetir na casa de outra pessoa a mesma coisa, e assim por diante. À noite descansava no Sacha’s, fazendo graças íntimas, onde era obrigado a usar gravata, mas não abria mão do con­forto dos pés, usando sapatos feitos de pano e corda. 
Em 1952, com grande con­trato na Rádio Mayrink Veiga, produzia programas de su­cesso, como Alegria da Rua, Regra de Três, e Musical An­tártica. 
Aos domingos, o vascaíno Antonio Maria, fã de Ademir Menezes, suava nas irradia­ções do Maracanã. As músicas vieram um pouco tarde, mas em torrente: “Menino grande”, “Ninguém me ama”, “Quando tu passas por mim” (com Vini­cius), “Não fiz nada” (com Zé da Zilda), “Valsa de uma ci­dade” (com Ismael Netto), “Ma­drugada três e cinco” (com o mesmo e mais o amigo Rei­naldo Dias Leme), “Suas mãos” (com Pernambuco), “Manhã de carnaval” e “Samba do Orfeu” (com Luiz Bonfá) etc. 
Morreu de repente, em Co­pacabana, às três e cinco. Foi um gordo vivo, esfuziante, transbordante. Encheu de vida o Rio de Janeiro, e frequen­temente São Paulo, no espaço de uma noite que durou pouco mais de 15 anos."

domingo, 5 de junho de 2016

Crônica carioca de todos os tempos...



Mais uma para nosso deleite!

Publicada igualmente num dia 5 de junho, como hoje, mas há 60 anos.

Saboreie!




sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Antonio Maria e Carmem Miranda
































sábado, 18 de abril de 2015

Uma crônica de Antonio Maria

 Um texto delicioso do grande cronista Antônio Maria, de abril de 1955, há 60 anos.

*****
 
 
"Aqui está uma carta deliciosa, de boêmio e freqüentador da noite. Espero que o leitor encontre nela tudo que encontramos de saboroso.
 
Comecemos a transcrição desde o trecho que diz:
 
“ Mas vamos ao ocorrido. Bebemorando a minha solidão, estava eu no “Bidou” ( ao contrário do que se fala, um refúgio alegre, com boa música, bonitas cantoras e ainda um proprietário de sobrenome Alvarado, atencioso, que se dedobre em cantor, locutor,
apresentando o “show” ótimo para as dimensões da casa, que ainda é caixa e ajuda o “barman” na preparação dos “drinks” para os fregueses da sua
“ boite” diariamente superlotada... estava eu, quando entrou um senhor visivelmente sem classe para beber, pois demosntrava a sua embriaguez, dizendo ser (CENSURADO) e exigindo, em altos berros, que todos se retirassem e que o senhor Alvarado fechasse imediatamente a “boite”. Como todo brasileiro que se preza, quis fazer valer o meu “cartão”, porém as circunstâncias de ser casado, exercer certa função s ser mal compreendido por aqueles que gostam mas fingem que não gostam de “boites”, prefeeri ficar anônimo, como também ficarei nesta, prometendo-lhe apresentar-me, pessoalmente e cumprimentá-lo pelos seus serviços jornalísticos. Felicidades. Um Boêmio”.
 
Na carta desse “Boêmio” ( uma jóia de carta) eu descubro que houve uma daquelas “incertas” da Polícia no famoso “Bidou” da Prado Júnior.

Esse amável leitor pretende que eu verbere o policiamento policial para com a “boite” de Don Alvarado, não é ?

Então, faça-se a sua vontade.

Foi um absurdo o que fizeram no “Bidou”, bar pacato de uma gente pacata, dirigido por  um artista, esse Alvarado que canta, fala, cobra e recebe. Espero que o 2o. Distrito repare a sua feia atitude, sua violência, indo incorporado à presença do dito Alvarado, para desagravá-lo publicamente. 
 
Está satisfeito, meu caro leitor?"
 

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Seja feliz e faça os outros felizes



Uma sugestão do amigo do blog, Eraldo, o ótimo texto de Antonio Maria, que diz " é um retorno a um Rio já esquecido, e, principalmente, a alguma coisa em nós mesmos que já esquecemos."



"O homem sente estranho prazer inconsciente em dar as notícias tristes. E, inconscientemente, só gosta de dar as notícias realmente tristes que, quanto mais tristes, mais lhe satisfazem. 
No Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro (onde tudo acontece além da conta), o Homem ultrapassou o prazer inconsciente de dar as notícias desagradáveis, para atingir o gozo em cada vez que consegue fazer alguém muito infeliz. 
A simples explicação do fenômeno talvez não convença o leitor de que estamos falando a sério. Desçamos, portanto, a alguns exemplos. 
Primeiro: É com certa dificuldade, vencendo vários limites e impedimentos seus, que você consegue fazer qualquer confissão mais agradável a alguém. Pense em quantas vezes você teve que discutir com você mesmo, para dizer que a gravata do seu amigo era bonita. Conseguiu dizer, sim, mas depois de se considerar mesquinho por não ter dito antes, na frase descuidada que lhe veio do coração à boca. 
Segundo: Pense em quantas vezes você disse a alguém que a gravata não lhe ia bem. A gravata aqui vale todas as coisas que você considera e elogia. Pense ainda na hipocrisia dos vários preâmbulos e rodeios que já fez para censurar – uma gravata: “Você me desculpe, mas”...”Você não me leve a mal, mas”... E sempre esta detestável e mais hipócrita das preparações: “Eu vou lhe falar com toda minha franqueza.” Tenho horror a quem me diz franquezas de bar. Na realidade, só existe uma franqueza, que é a do amor. 
Não é possível curar a humanidade de sua eterna má vontade. Mas, ao menos aqui no Rio de Janeiro, assim como se fazem as semanas “da Asa”e “do Trânsito”, podia-se organizar a “Semana da Felicidade”. O comércio varejista não entraria (como nos dias do Papai e da Mamãe) com a sua propaganda ostensiva de rádios e televisores. Não haveria presente na “Semana da Felicidade” para não corromper a constante felicidade, que se estaria oferecendo. Apenas as pessoas, durante sete dias, só iriam dizer coisas agradáveis umas às outras. 
Nesta altura é preciso dar uma explicação necessária. Dizer coisas agradáveis não seria dizer a Maria que ela é bonita, quando ela é feia; nem a Pedro que ele está mais magro, quando Pedro está visivelmente mais gordo. Não. Sem grande esforço, encontrar-se-á, em cada pessoa, dez valores elogiáveis. E, quando não houver um só, conte-se uma história qualquer, que faça bem. Conte-se, por exemplo, como foi o amanhecer. Como ficou o céu, com os laivos vermelhos do amanhecer. Como estava o mar, na primeira luz sobre seu brilho baço do amanhecer. Ou se fale de um trecho de canção, da ária ou de um tema tocado pro Milles Davies. Do piano de Garner, seu ritmo comparável ao improviso da Fitzgerald e da Vaugham. Ou, com patriotismo, do sax-tenor de Cipó ou do trombones, do irmão Maciel mais novo. Conte-se bem uma cidade inesperada de sua viagem. Como eram as montanhas ou a cor da planície. As pessoas, seus olhos e suas blusas. 
Na criação da “Semana da Felicidade”, não sei para quem deva apelar. Não sei a que governo transmitir a ideia. Federal ou Municipal. Ou a que Departamento de Turismo. Não. O apelo tem que ser feito a cada um dos meus possíveis leitores e por cada um transmitido às pessoas de sua sociedade. 
Quanto a mim, devo dizer que vivo, permanentemente, em semana de felicidade. Quando não posso fazer alguém feliz, com uma confissão ou uma história, não digo nada. Em troca, peço que não me tirem a alegria. Que não deem notícias, sobre mim e sobre os outros, que, de leve, possam arranhar minha naturalidade feliz. E, de um modo especial, não me digam franquezas."

Do livro Seja feliz e faça os outros felizes, seleção e organização de crônicas de Antônio Maria (1921-1964) feita por Joaquim Ferreira dos Santos.