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terça-feira, 25 de abril de 2017

Um dia especial de escola, lá pelos anos 60

Hoje é dia de São Marcos. E eu que estudei em um colégio, no bairro carioca do Flamengo, com seu nome - primeiro Externato São Marcos, depois Ginásio São Marcos -  neste dia havia sempre comemoração pela manhã.

E esse dia era especial, a começar pelo uniforme. Tínhamos de ir com nosso uniforme de gala.Ou seja, além do nosso belo uniforme de saia cinza - calça cinza para os meninos - camisa azul clara e gravata azul marinho, colocar um par de luvas brancas na cintura. E valia para meninos e meninas.

 E aí,  íamos todos, aos poucos,  por turma, no ônibus do colégio, um Mercedes Benz tipo "pão de forma" todo azul tipo "BIC", à... missa do padroeiro do colégio. Primeiro, essas missas eram na linda igrejinha do Outeiro da Glória, depois passaram a ser na Igreja da Glória, do Largo do Machado, há mais ou menos três quarteirões do colégio. Uma pena, pois a distância também fazia parte. Passávamos pela fila da confissão, pra depois poder comungar. E ficava bonito, na igreja, a fila da comunhão, todos uniformizados.

Mas para nós essa pompa toda valia pela volta. Por que? Porque a volta era de muita farra. Na realidade uma farra ingênua dos românticos tempos dos anos 1960, em que nós estudantes do alto de seus no máximo 14 anos, nos alegrávamos com cantoria, batucada e... guerra de bolinhas.

Mas tudo isso acabava quando retornávamos ao colégio. O estudo voltava e sentávamos em nossas carteiras, abríamos nossos cadernos, ou nossos diários de lições , ou Programa de Vernáculo, ou Mauger ou Spoken English,  pra aula que fosse. E voltávamos pra disciplina e seriedade, e compromisso com o estudo que o São Marcos nos ensinou. Coisas estranhas para os tempos de hoje.

Na época não enxergávamos a dimensão de São Marcos. Nem que era um dos evangelistas, apóstolo de Jesus, nem que fez um lindo trabalho missionário, que não teve fim diante da prisão e morte dos amigos São Pedro e São Paulo. Pra nós valia a festa. Mas, com certeza, São Marcos nos abençoava a todos.

Bons tempos!


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ao mestre, com carinho!

Nesse Dia do Mestre vem à recordação tantos professores com os quais convivemos e nos deram lições pra toda a vida.

Alguns marcaram pela simpatia, outros pela dedicação; há aqueles que pela rigidez se fizeram presentes, ou os pela delicadeza de gestos e atitudes; também os pelas brincadeiras, hummm... os pelas faltas e ausências; os mal humorados, ranhetas, sisudos e até os loucos. Incrível, mas existem. Tive um professor assim. De Química, no científico. Professor Angelo. Que de tão genial ele não conseguia se comunicar com os alunos. Falava pra dentro e sempre voltado para o quadro negro - que à época ainda não era verde -, de costas para os alunos. Escrevia fórmulas imensas que começavam em letras minúsculas acima e acabavam em garranchos na barra do quadro. E com uma rapidez feroz que ninguém conseguia acompanhar e deixava a turma às gargalhadas. E ele a olhar, sério, como se perguntasse de que estão rindo?

Mas a matemática foi a minha paixão. Sempre gostei. Desde os tempos da tabuada. O que para muitos afugentava, para mim era fascinante. E ainda é. Raiz quadrada, equação do segundo grau, logaritmos, pa, pg, mdc, mmc, regra de três, que universo delicioso. Sei que muitos devem estar me achando mazoquista, mas com certeza números, suas combinações,quanta coisa na vida resolvemos através do raciocínio matemático. E quando percebemos isso, a Matemática deixa de ser bruxa.

Ela era a nota dez que fazia questão de carregar na caderneta todo o mês. Mas tive professores que contribuiram pra isso.

Professor Navarro foi um deles, nos tempos do ginásio, no São Marcos. Engenheiro de formação, entrava na sala de aula com a sua varinha de apontar o quadro, que era uma antena de carro. Metódico organizava matematicamente o quadro. Era tudo alinhado, retinho. Nas aulas de geometria fazia uma circunferência invejável, a mão livre, que todos aplaudíamos. E ele se orgulhava. Era uma festa a hora daquele círculo. Acho que, no fundo, tinha hora que torcíamos pra dar errado, pra dizer, tá vendo? não é tão fácil assim... Mas sempre dava certo. Ele era bamba.

Professor Navarro dava testes semanais sempre aos sábados e levava as notas na segunda, quando ía lendo e entregando, em ordem crescente. E gostava de receber a minha por último e o meu dez. Recentemente reencontrei alguns colegas e relembrando esses bons tempos me perguntaram: você ainda gosta de matemática?

No vestibular, lá no Curso Vetor da Tijuca, fui aluna de outro grande mestre de Matemática: professor Maurício Houaiss. O que um irmão era gênio no Português, ele era gênio na Matemática. A matéria era Álgebra II. Mais uma vez o quadro - que agora já era verde - todo organizadinho com aquelas equações imensas que finalizavam, geralmente, em um ou zero. A facilidade de explicar e transformar aquele emaranhado em algo tão simples. Era sensacional o desafio de dividir, multiplicar, elevar à potência, somar e chegar naquele número ínfimo. Maravilhoso. Em tempos de vestibular, poucas horas e muitas matérias, aprendi com o Professor Maurício uma lição que trago ao longo da vida. Ele sempre dizia quando suspirávamos cansados: descanse de uma matéria estudando outra. Genial! Até hoje quando alguma coisa está sobrecarregando, me lembro dele e desvio para outra atividade, outro foco. Grande raciocínio matemático!

Mas falei a palavra foco e me lembrei de outro grande mestre que tive. Em Fotografia, nos tempos de faculdade, tempos de ESDI. Ah! Roberto Maia... que aulas! Excelente fotógrafo nos ensinou não a arte de apertar botões e simplesmente fotografar, mas a arte de olhar. Olhar ao redor, olhar o outro, olhar o fato. E à medida que você exercita o olhar, sua dimensão de vida muda. E como!

Naquele tempo eu nem tinha máquina. E aí meu pai comprou uma Pentax. Grande companheira de aventuras de imagens. Suas aulas eram bate-papos deliciosos que se transformavam em tarefas. Tempos que guardo em preto e branco e reavivam a memória. Tenho paixão por fotografia, graças a ele, e vivo clicando luzes, sombras, ângulos, perfis... inspirada nas lições de olhar de Roberto Maia.

O bom de tudo isso é que até hoje pratico e exercito um pouquinho de cada aula desses que me deram um arsenal de idéias e lições para a vida.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Volta às aulas

Sempre que chega março eu me lembro do gostoso tempo de volta às aulas. Eram os lápis , borrachas, régua, apontador e ... o estojo novo.
Sim, porque se guardava todas essas coisas em estojo. Necessaire é coisa recente. E ele tinha tampinha estampada, que deslizava. Depois surgiu um com abertura, como porta de correr. Tudo em madeira.

Os cadernos tinham o nome do colégio. Externato São Marcos. Eram vendidos na escola pela dona Kate, baixinha, não muito bem humorada e seu coque! Os de matemática eram quadriculados. Capas verdes, azuis ou rosas e tínhamos que encapar. Com celofane, de preferência, que era para aparecer o timbre do colégio. Tudo arrumadinho dentro da pasta de... couro. Pesada! Afinal, um caderno pra cada matéria e mais os livros.

Novidade, mesmo, foi poder escrever nos cadernos com caneta tipo BIC - na época a marca era CAR-  que sensação! Ao chegar ao Brasil em 1961, democratizou o uso da caneta, antes tão aristocrática pelas penas e canetas-tinteiro, que aliás adorava e adoro até hoje. Lembro de algumas pelas quais era apaixonada. Mas isso é papo pra outro post.
É válido ressaltar que, nos anos 60, a assinatura com esferográfica era proibida em documentos e cheques, por isso, portar uma caneta tipo BIC era vanguarda pura.

Hoje tem a invasão dos adesivos, mas vivi o tempo dos decalques. Eram cartelas com temas e cada um, para usar na capa ou no miolo do caderno, em um trabalho , tínhamos de tirar da cartela com água. E com cuidado pra não estragar. O que acontecia com facilidade.

Cola branca, nem pensar. Era uma amarela com biquinho de borracha vermelha, ou então a caseira, e sempre à mão, cola de farinha de trigo.
E os livros? Alguns foram companheiros inesquecíveis. PROGRAMA DE VERNÁCULO, MATEMÁTICA do ARY QUINTELLA, SPOKEN ENGLISH, G.MAUGER...




Ah!...Monsieur e Madame Vincent percorrendo Paris...Église de la Madeleine...


Mais tarde veio o tempo dos fichários pretos. Caderno era coisa pra criança. Da Papelaria União era sonho de consumo, com a capa crespinha. Quando passo hoje pela Rua do Ouvidor nº 77 ,dá uma ponta de tristeza ver que a tradicional papelaria se foi , depois de 130 anos. E seus materiais de escritório, mobiliário de fabricação própria - de sua fundição em Bonsucesso, também, desativada - a sofisticação de uma época não resistiram aos tempos modernos de produtos chineses e grandes redes.

Como era bom voltar às aulas!

Como era bom conhecer a nova sala! Que carteira iria sentar?

Como era bom uniforme novo! Aquele nó na gravata...

Como era bom professor novo!

Estudar sempre teve um sabor especial. Sabor de curiosidade, sabor de novidade, sabor de saber.


sábado, 19 de setembro de 2009

Uma certa dona Saúcha

O carro era um cadilac . Podia ser um Buick, talvez, já que naquela época, tudo que fosse "rabo de peixe" , a gente chamava de cadilac.

Ele tinha duas cores - verde e branco - e cheio de frisos metálicos. Ela vinha dirigindo, coisa rara lá pelos anos 50 e 60, estacionava e saltava com seu cabelo pretíssimo, sempre preso num coque banana horizontal - diferente dos usados, que eram verticais- ; seus vestidos rodados, suas unhas sempre com esmalte vermelho, seu colar de pérolas, seus " óculos-gatinho" com detalhes em strass e seu sapato alto, de salto e bico finos e, geralmente de verniz colorido. Até hoje quando vejo um sapato de salto, colorido, digo "olha um sapato de dona Saúcha". Sempre, quando criança, sonhei com um.

Assim, ela chegava diariamente ao São Marcos  - Ginásio São Marcos - e seguia pro seu gabinete, com seu visual imponente e de uma sobriedade clássica, ao mesmo tempo.

Vez por outra percorria as salas para ver, ou para dar algum recado e, imediatamente, todos levantávamos à sua presença. Hoje me lembro que fazíamos isso tão naturalmente, com admiração e respeito...

Ela nos ensinou essa elegância!


Elegância, aliás, que imprimia nas atividades escolares. O São Marcos além das aulas, oferecia aprendizados extras, como música, ballet, judô, artes, que ela reunia em apresentações especiais e de final de ano.

Nossa!

As apresentações no Theatro Municipal... Dona Saúcha organizava espetáculos lindos (por) para alunos, pais, parentes, convidados e lotava o teatro. 


Um deles, inesquecível.

Carlos Lacerda, acabara de se eleger governador, do então Estado da Guanabara, e sua filha Cristina, que estudava em uma das turmas do São Marcos, fazia parte do grupo de balé que dançaria o Danúbio Azul, um dos quadros da apresentação. Luzes apagadas, música começando, o cenário com luzes azuis, todas com tutus azuis compridos. Discretamente, entra -com o espetáculo já começado - no seu camarote, o governador. Em questão de segundos o público começou a bater palmas, no escuro. A apresentação teve de parar, as luzes se acenderam e o Municipal, lotado, de pé, explodiu em aplausos. Foi lindíssimo e emocionante. Saiu no jonal, entrou para a história.

A gente também ía à televisão, se apresentar, geralmente com a banda da aula de música, no programa O Mundo das Crianças, do Aérton Perlingeiro, às tardes, na Tv Tupi, na Urca. Íamos e voltávamos no ônibus do colégio. E era diversão garantida, principalmente na volta, já que tudo já tinha passado. Muita música e batucada. Aliás, de ônibus também visitamos as fábricas de gostosuras que tinham na cidade. Era um prêmio que dona Saúcha nos dava. Suspendia as aulas e lá íamos nós...Quantas vezes fomos à Kibon, à fábrica da Coca-Cola?

Além do conhecimento, da brincadeira, dona Saúcha foi pioneira e muitas vezes nos passou noções de cidadania. Quando, por exemplo, nos reuniu no pátio, após o Brasil ganhar a Copa de 62, para cantarmos a música- símbolo; pra vacinação anual, no próprio colégio, contra a polio, em tempo difíceis dessa doença; ou quando chamou Frei Clemente - seu entusiasmo era contagiante! - e d. Maria Lídia (Gomes de Mattos), que despontavam na área de formação pessoal, para nos dar aula.

Era uma mente aberta ao novo.

Certa vez, quando iniciei o ginásio, em meados de 63, achei do alto dos meu 12 anos que queria - quanta ousadia! - modernizar o unifome. Nos ginásios da cidade a saia era de dois ou quatro machos, e nossa saia era toda pregueada. Coisa pra criança, achava (vê se pode). Assim, comecei a falar na turma, mas ninguém tomava a iniciativa. Não desanimei. Um dia cheguei determinada. É hoje! Vou sozinha. Mas afinal, no intervalo da aula, acabou descendo o quarteto - eu, Norma, Márcia e Regina Maria - "você fala!" disseram, e de um fôlego só contei minha idéia e fiz o pedido pra mudança do uniforme. Ouvi a seguinte frase:
- Você pede a sua mãe, que é muito jeitosa, pra fazer croquis dos modelos e me traz aqui, que vou pensar.

Dois dias depois deixava os croquis com a dona Saúcha. Resultado? No ano seguinte o uniforme do ginásio estava mudado. A saia pregueada ficaria só para as meninas do primário e para as do ginasial, a saia passaria a ser a de quatro machos.

São muitas histórias. As do dever de férias, primeira comunhão no Outeiro da Glória, as missas no Dia de São Marcos, a entrega anual de medalhas, as cadernetas, as capas de prova, as aulas de educação física, a bandinha nas aulas de música, a academia de literatura, as guerras de bolinhas na Bic, o diário de lições ,os recados nos cadernos... ah! e dona Saúcha tinha o hábito de ver todos. E deixava bilhetinhos. De parabéns ou "puxões de orelha", pela bagunça, e colava estrelas de incentivo. Quantas! Todos queriam tê-las. Primeiro as vermelhas, depois as prateadas e por último, as douradas.

Co-bi-ça-dís-si-mas!

Com seu tom de voz calmo, baixo, delicado, mas objetivo, uma certa Cecília Lúcia (Bandeira de Melo), que virou Saúcha - apelido tão elegante quanto ela - imprimiu um ritmo preciso, moderno e formou uma constelação de estrelas, colando as suas de papel.

Tenho orgulho de ter sido uma delas.


Dona Saúcha , seu colar de pérolas, seu coque banana, seus óculos-gatinho,
entre alunos - 1957

terça-feira, 14 de julho de 2009

Lembrando a Marseillaise

"Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé".



Eu , no São Marcos, na clássica foto de estudante.
E nossa querida gravata!

Hoje acordei me lembrando da Marseillaise e meu pensamento voou para as aulas de Francês da d. Vera.
Dona Vera Polo. Sempre com seus cabelos pintados de louro, com muito laquê e segurando seu indefectível cigarro aceso, politicamente incorreto, mas coisas da moda dos anos 60.

Era uma vanguarda ter aula de línguas, no primário.

Mas o São Marcos era pura vanguada. Ah! Ginásio São Marcos. Um palacete lindo, ali na rua São Salvador, transformado charmosamente em colégio, que de uma queda foi ao chão - como tantas construções antigas - para se transformar em mais um edifício de apartamentos.

Suas formas, pelo que me lembro, é o que chamaram de estilo eclético. À entrada, a pequena mureta e uma bela grade desenhada separavam a rua de um pequeno jardim, com um banco de cimento, de pés torneados, ao fundo. Era comum por ali a presença de belas borboletas voando. Vi inúmeras.

Ficávamos ali por fora até a campainha tocar, anunciando a entrada para as aulas. Pontualmente, às sete horas passávamos por um portão de madeira, adaptado à rampa de entrada, que separava a casa da rua, e íamos rumo às salas.

Sempre estudei nas salas do andar superior. O interior era exuberante. Ao entrar dois salões, no térreo,um à direita e outro à esquerda, todos envidraçados, vidros emoldurados em madeira. O da esquerda ainda tinha grandes janelões para o jardim. Neles ficavam as turmas maiores. Para o andar de cima subíamos por uma escada de mármore,em curva, com corrimão dourado, liso, brilhante. Chegávamos ao hall superior , com um pé direito magnífico e uma clarabóia linda que trazia, sempre, uma luz especial.

Cinco portas nesse hall, se abriam. Eram as várias salas de aulas, que em outros tempos, com certeza, foram belos e confortáveis quartos. Dois tinham varandas.

Estudei percorrendo cada uma delas. Em uma fiz o pré-primário, em outra o primeiro ano primário,com dona Helena. Alta, sempre de saia balão. Em mais uma, o segundo ano primário, com dona Palmira, sempre com seu sapato Moreira e bolsa balaio. Lembro de ter ido ao casamento dela, na Santa Margarida Maria, ali na Lagoa. Todo dia, na hora do lanche, ela comia uma maçã. Aquela mordida barulhenta, típica de quando a gente morde maçã. E aí passei a gostar de maçã e gosto até hoje. Por causa da dona Palmira.

Em outra sala do hall superior estudei o quarto ano primário, mas aí já de manhã. Foi uma inovação do colégio. Como ele começou só com o primário, as salas davam para todas classes. Nesse tempo, ele se chamava Externato São Marcos. Quando decidiram abrir o curso ginásio, ele trocou de nome, passou a se chamar, pomposamente, Ginásio São Marcos - ficamos todos bestas com isso! - e passou a funcionar em dois turnos: manhã e tarde.

O colégio tinhas outros cantinhos e caminhos que eram pérolas na casa.

Uma das salas do hall tinha uma porta nos fundos que fazia a ligação com ala da casa, que tinha duas direções.Uma subia e outra, descia.Eramcaminhos interessantes com escadas. Talvez, em alguma época, uma adega, uma despensa. Parecia um labirinto. E criança, já gosta disso, não?

Mas esconderijo era a carpintaria. Devia ter sido um sótão. E em tempos do filme Pollyana, era encantador subir, subir, que nem a Halley Mills até chegar. Lá de cima a vista era linda. Sem os prédios altos de hoje, a visão era panorâmica.

Os pisos da casa eram todos em tábuas corridas ou mármore. A casa tinha detalhes de entalhe, gesso. A cozinha e o banheiros, de cima - enorme(!) e dividido em pequenos boxes para meninos e meninas - tinham piso em azulejo hidráulico.

Bons tempos de São Marcos!

Bela casa, bela arquitetura, com inúmeros outros detalhes, que como tantas outras desapareceram sem deixar rastro. Nunca tive uma foto dessa casa. Gostaria de ter, pra que todos os que não conheceram, também se deliciassem com o belo local. Naqueles tempos era raro ter uma máquina fotográfica.

Ficaram, ainda bem, e com certeza, os rastros ma-ra-vi-lho-sos de muitas histórias felizes de convivência, e exemplos de professores queridos como dona Albertina, dona  Palmira, dona  Maria Isabel, Bia - a primeira professora que deixou chamar de você, um avanço!!! - , professor Navarro, professorDirceu, Frei Clemente, d. Maria Lídia, d. Odete, d. Maria Eliza - que nas suas aulas de inglês sempre dizia " be quiet!" - e a queridíssima Dona Saúcha, educadora de visão ampla, proprietária do colégio e suas ... estrelas douradas.

Mas isso já é história pra outro post.


 Dona Saúcha, em 1982



Vamos comemorar o 14 de julho!

Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L'étendard sanglant est levé (bis) ...



quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Por causa de uma árvore...

Estava querendo fazer um post, aqui no blog, sobre árvores. Tenho uma árvore em frente à janela, e depois dela ficar completamente desfolhada, hoje, sua copa está linda, cheia, verde. Esse movimento da natureza me encanta!

E aí me lembrei da poesia Velhas Árvores de Olavo Bilac!

E aí me lembrei, claro, da Dona Albertina, à medida que ia escrevendo seus versos. Foi inevitável.

Ah! Aulas de Português inesquecíveis que me fazem, até hoje, escrever cantando proparotonos, na ênfase da sílaba acentuada, ou me fazem ouvir o “com s” ao escrever análise. Aquele universo de sujeitos, predicados, concordâncias ainda ecoam nos meus ouvidos.

Ah! Ginásio São Marcos, da São Salvador, perto da praça.
 Do sinal sonoro  às sete horas pra entrarmos, a apresentação da caderneta para presença e a subida enfileirada em silêncio.

Sempre estudei nas salas do andar superior e pra chegar até lá, passava pelo interior, que era exuberante: os salões do térreo, aquela maravilhosa escada em curva, a claraboia linda.

 Naquela época tinha lugar marcado. A gente não sentava onde queria e ainda tinha lugar de prova!

Não me lembro de todos os lugares, apesar da turma pequena, mas eu sentava na segunda carteira da fila do meio, ao lado do Guiga,  Guilherme Daudt de Oliveira. À minha frente sentava o Hélio Moura Lima Filho, atrás o Alfredo Caminada, a Márcia Furtado, à direita o Luis Antônio Bandeira de Melo, a Sonia Cristina Cavalcanti Barboza., amiga até hoje, de toda uma vida, e só. Não mais.

Mas Dona Albertina gostava que decorássemos poesias. E valia nota!

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração!...
... Ser mãe é andar chorando num sorriso! ...Ser mãe é ter um mundo e não ter nada! ...Ser mãe é padecer num paraíso!

Íamos nós lá pra frente e tentávamos, sem titubear, falar a poesia em busca de nota. Teve Coelho Neto, Raymundo Corrêa e um dia chegou a vez da poesia de Olavo Bilac.

Olha estas velhas árvores, - mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas . . .

O homem, a fera e o inseto à sombra delas

Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas . . .

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,Dando sombra e consolo aos que padecem!


Às vezes saía cada bobagem, uma palavra truncada, um verso atropelado e a turma caía na gargalhada.

Relendo esses versos hoje, recordei da farra, da alegria, da camaradagem...

...do Programa de Vernáculo, do Diário de Lições, cujos retângulos eram insuficientes para o dever de casa de Dona Albertina, com a análise sintática, ditada e exigente, mesmo após a sirene de término da aula...

...das regras de acentuação – “acentuam-se todos os “i” e “u” tônicos nos hiatos” ; ”os oxítonos terminados em a, e, o, seguidos ou não de s”; “ paroxítonos terminados em l, r, s, x, ps”; “ os ditongos abertos éu, éi, ói " e outras tantas, que ao escrever, repito mentalmente...

...da conjugação dos verbos “ quando eu o vir...” , “quando vier...”... do aposto, dos adjuntos, dos predicativos...
...das silepses, das metáforas, dos pleonasmos...

Em tempos de uma língua tão mal falada e escrita, de tanta gíria menor sem criatividade, tanta grosseria em letras de música; das baboseiras do mau uso da internet, de absurdos que se lê em redações de vestibular, em concursos públicos, em despachos de magistrados, só consigo dizer: não aprenderam com Dona Albertina Anachoreta Amazonas.


A ela saudades, e obrigada!