"Allons enfants de la Patrie / Le jour de gloire est arrivé".
Eu , no São Marcos, na clássica foto de estudante.
E nossa querida gravata!
Hoje acordei me lembrando da
Marseillaise e meu pensamento voou para as aulas de Francês da d. Vera.
Dona Vera Polo. Sempre com seus cabelos pintados de louro, com muito laquê e segurando seu indefectível cigarro aceso, politicamente incorreto, mas coisas da moda dos anos 60.
Era uma vanguarda ter aula de línguas, no primário.
Mas o São Marcos era pura vanguada. Ah!
Ginásio São Marcos. Um palacete lindo, ali na rua São Salvador, transformado charmosamente em colégio, que de uma queda foi ao chão - como tantas construções antigas - para se transformar em mais um edifício de apartamentos.
Suas formas, pelo que me lembro, é o que chamaram de estilo eclético. À entrada, a pequena mureta e uma bela grade desenhada separavam a rua de um pequeno jardim, com um banco de cimento, de pés torneados, ao fundo. Era comum por ali a presença de belas borboletas voando. Vi inúmeras.
Ficávamos ali por fora até a campainha tocar, anunciando a entrada para as aulas. Pontualmente, às sete horas passávamos por um portão de madeira, adaptado à rampa de entrada, que separava a casa da rua, e íamos rumo às salas.
Sempre estudei nas salas do andar superior. O interior era exuberante. Ao entrar dois salões, no térreo,um à direita e outro à esquerda, todos envidraçados, vidros emoldurados em madeira. O da esquerda ainda tinha grandes janelões para o jardim. Neles ficavam as turmas maiores. Para o andar de cima subíamos por uma escada de mármore,em curva, com corrimão dourado, liso, brilhante. Chegávamos ao hall superior , com um pé direito magnífico e uma clarabóia linda que trazia, sempre, uma luz especial.
Cinco portas nesse hall, se abriam. Eram as várias salas de aulas, que em outros tempos, com certeza, foram belos e confortáveis quartos. Dois tinham varandas.
Estudei percorrendo cada uma delas. Em uma fiz o pré-primário, em outra o primeiro ano primário,com dona Helena. Alta, sempre de saia balão. Em mais uma, o segundo ano primário, com dona Palmira, sempre com seu
sapato Moreira e bolsa balaio. Lembro de ter ido ao casamento dela, na Santa Margarida Maria, ali na Lagoa. Todo dia, na hora do lanche, ela comia uma maçã. Aquela mordida barulhenta, típica de quando a gente morde maçã. E aí passei a gostar de maçã e gosto até hoje. Por causa da dona Palmira.
Em outra sala do hall superior estudei o quarto ano primário, mas aí já de manhã. Foi uma inovação do colégio. Como ele começou só com o primário, as salas davam para todas classes. Nesse tempo, ele se chamava
Externato São Marcos. Quando decidiram abrir o curso ginásio, ele trocou de nome, passou a se chamar, pomposamente,
Ginásio São Marcos - ficamos todos bestas com isso! - e passou a funcionar em dois turnos: manhã e tarde.
O colégio tinhas outros cantinhos e caminhos que eram pérolas na casa.
Uma das salas do hall tinha uma porta nos fundos que fazia a ligação com ala da casa, que tinha duas direções.Uma subia e outra, descia.Eramcaminhos interessantes com escadas. Talvez, em alguma época, uma adega, uma despensa. Parecia um labirinto. E criança, já gosta disso, não?
Mas esconderijo era a carpintaria. Devia ter sido um sótão. E em tempos do filme Pollyana, era encantador subir, subir, que nem a Halley Mills até chegar. Lá de cima a vista era linda. Sem os prédios altos de hoje, a visão era panorâmica.
Os pisos da casa eram todos em tábuas corridas ou mármore. A casa tinha detalhes de entalhe, gesso. A cozinha e o banheiros, de cima - enorme(!) e dividido em pequenos boxes para meninos e meninas - tinham piso em azulejo hidráulico.
Bons tempos de São Marcos!
Bela casa, bela arquitetura, com inúmeros outros detalhes, que como tantas outras desapareceram sem deixar rastro. Nunca tive uma foto dessa casa. Gostaria de ter, pra que todos os que não conheceram, também se deliciassem com o belo local. Naqueles tempos era raro ter uma máquina fotográfica.
Ficaram, ainda bem, e com certeza, os rastros ma-ra-vi-lho-sos de muitas histórias felizes de convivência, e exemplos de professores queridos como
dona Albertina, dona Palmira, dona Maria Isabel, Bia - a primeira professora que deixou chamar de você, um avanço!!! - ,
professor Navarro, professorDirceu, Frei Clemente, d. Maria Lídia, d. Odete, d. Maria Eliza - que nas suas aulas de inglês sempre dizia
" be quiet!" - e a queridíssima
Dona Saúcha, educadora de visão ampla, proprietária do colégio e suas ... estrelas douradas.
Mas isso já é história pra outro post.
Dona Saúcha, em 1982