Publicada no jornal O GLOBO, essa crônica maravilhosa fala de deliciosas coisas cariocas.
"O menino no cavalo de São
Jorge
Luiz Antonio Simas
Há quem ache que a distribuição de doces de Cosme e
Damião foi pro beleléu. Não é o que vejo na Zona Norte do
Rio
Setembro é mês de se festejar São Cosme e São Damião nas igrejas, nos
terreiros e ruas. No terreno fértil das crenças brasileiras, a celebração dos
médicos gêmeos, martirizados por Diocleciano nos cafundós do século IV,
é marcada pela circulação entre os ritos do cristianismo popular, as
múltiplas áfricas e as encantarias indígenas. É a festa de sabores e saberes
que se encontram para inventar certo Brasil generoso; aquele que desafia
o Brasil tacanho, intransigente, fundamentalista e boçal que
cotidianamente mostra os dentes com a fúria de uma vara de javalis. Acelebração de Cosme e Damião dos meus tempos de menino era
marcada pelo ritual da distribuição de doces. Minha avó, como
pagamento de promessa, distribuía no Jardim Nova Era, em Nova
Iguaçu, centenas de saquinhos para a meninada. Uma semana antes da
festa, a coisa já esquentava com a distribuição dos cartões que dariam
direito aos saquinhos. O avô carimbava meticulosamente os cartões
numerados com a imagem dos santos, o endereço e a data certinha da
distribuição. A turma só faltava sair no cacete com golpes e voadoras de
telecatch para conseguir um deles. Os saquinhos da avó vinham com cocô-de-rato, suspiro, maria-mole,
cocada, doce de abóbora, pirulito, pé de moleque, paçoca, mariola,
jujubas e balas. Eles hoje levariam ao desespero os adeptos dos saquinhos
descolados, saudáveis e um tiquinho tristes. Para ensacar tudo, fazíamos
linha de montagem, com os doces organizados em esteiras e os saquinhos passando de mão em mão. Dar o migué e mandar alguns para o bucho era
parte de um rito que periga desaparecer. A última moda agora é a da
turma que compra saquinhos prontos; aqueles que poupam o tempo, mas
matam a sociabilidade da preparação dos mimos e ignoram o caráter
sagrado do ato de encher os saquinhos com as próprias mãos. Há quem ache que o hábito da distribuição de doces de Cosme e Damião
foi pro beleléu. Não é isso que vejo na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Ainda que a coisa ande feia pra turma chegada à festa, por aqui é possível
ver uma meninada driblando a cidade cada vez mais projetada para os
carros, as restrições do bonde da aleluia, que sataniza os doces, e cruzar
com gente pagando promessa e distribuindo saquinhos. Os terreiros de
umbanda, mesmo sob risco de ataque dos fanáticos, continuam fazendo
as suas giras para Dois-Dois. A igreja dedicada aos gêmeos, no Andaraí,
fica parecendo até quintal em dia de samba de roda: é alegria na veia. Faz parte também dos fuzuês a tradição do caruru dos meninos. O caruru,
prato de origem indígena que se africanizou no Brasil e abrasileirou-se
nas áfricas, é ofertado entre nós largamente no dia de Cosme e Damião (o
costume é popularíssimo na Bahia) e encontra vínculo simbólico com o
ekuru (bolinho de feijão), a comida ofertada a Ibeji, orixá que protege os
gêmeos nos candomblés. Manda o preceito que o caruru seja inicialmente
distribuído a sete crianças, representando Cosme e Damião e os
irmãozinhos que eles ganharam por obra e graça da tradição popular:
Doum, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi.
Lambuzado das recordações da meninice, me confesso especialmente
fascinado pela presença do pequeno intruso entre os gêmeos: o citado
Doum, aquele que nos terreiros de umbanda passeia no cavalo de Ogum e
nas estátuas dos santos vendidas no Mercadão de Madureira aparece
entre os mais velhos, vestido como eles. Vigora entre os iorubás tradicionais a crença de que a mãe de gêmeos que não tenha em seguida
um novo filho pode endoidar. O filho que nasce depois dos gêmeos é
chamado sempre de Idowu (de etimologia incerta). Vivaldo da Costa
Lima, em ensaio sobre o assunto, sugere que o nome talvez venha de
Owú; ciúme, em iorubá (“Cosme e Damião: O culto aos santos gêmeos no
Brasil e na África”). Idowu seria, por hipótese, o pestinha com ciúmes dos
irmãos mais velhos. Virou Doum no Brasil; o irmãozinho de Damião e
Cosme. O encontro entre o orixá Ibeji e os santos médicos cristãos é um golaço
marcado nas encruzilhadas bonitas da vida. Doum é a crioulidade como
empreendimento de invenção do mundo transgredindo o precário; ele é o
menino de um Brasil possível. Encantado nas esquinas suburbanas, guri
descalço na garupa do cavalo de São Jorge, é a Doum que certo Brasil
oficial, pensado como um projeto de desencantamento da vida pela
domesticação dos corpos nas cidades dormitórios e nos currais das
celebridades parece querer matar. Não conseguirá. Ninguém há de matar
um protegido pela força de São Cosme e São Damião em seu galope vadio
de passeador: o Brasil moleque no alazão da lua. "
Ao coração que sofre, separado Do teu, no exílio em que a chorar me vejo, Não basta o afeto simples e sagrado Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado, Nem só desejo o teu amor: desejo Ter nos braços teu corpo delicado, Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem Não me envergonham: pois maior baixeza Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem Ser de homem sempre e, na maior pureza, Ficar na terra e humanamente amar.
***
Em mim também
Em mim também, que descuidado vistes, Encantado e aumentando o próprio encanto, Tereis notado que outras cousas canto Muito diversas das que outrora ouvistes.
Mas amastes, sem dúvida … Portanto, Meditai nas tristezas que sentistes: Que eu, por mim, não conheço cousas tristes, Que mais aflijam, que torturem tanto.
Quem ama inventa as penas em que vive; E, em lugar de acalmar as penas, antes Busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando: Que é dos loucos somente e dos amantes Na maior alegria andar chorando.
***
Palavras
As palavras do amor expiram como os versos, Com que adoço a amargura e embalo o pensamento: Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos, Vidas que não têm vida, existências que invento;
Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos De pó, que o sopro espalha ao torvelim do vento, Raios de sol, no oceano entre as águas imersos -As palavras da fé vivem num só momento…
Mas as palavras más, as do ódio e do despeito, O “não!” que desengana, o “nunca!” que alucina, E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,
Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito: Ficam no coração, numa inércia assassina, Imóveis e imortais, como pedras geladas.
Pra ouvir e curtir a bela canção carioca NESTE MESMO LUGAR , de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, sucesso dos anos 1950 de Dalva de Oliveira, belamente revisitado por Simoninha.
17 de setembro de 1894 começava uma história de amor com a cidade, de um negócio vivo até os dias atuais e querido de todos: CONFEITARIA COLOMBO.
Remexendo no baú, achei alguns flashes ...