Mostrando postagens com marcador Olavo Bilac. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Olavo Bilac. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A Noiva de Olavo Bilac




Muitos nomes da literatura de escrita feminina 
em fins do século XIX e início do século XX
 são pouco conhecidos. 
Um deles, Amélia de Oliveira.


Em fins do século XIX a maioria das mulheres que seguiram para o caminho literário pertencia às famílias da elite brasileira. Suas residências dispunham de uma vasta biblioteca de seus pais e irmãos ou maridos tinha um salão em casa onde ocorriam encontros de intelectuais, poetas e músicos. Como ainda não ocupavam espaços públicos, restringiam-se aos círculos familiares e amigos, portanto essas reuniões literárias as estimulavam muito.

Aos poucos, as mulheres frequentadoras dos salões literários, começaram a escrever seus poemas, contos, crônicas e romances. Os temas dos escritos eram relacionados aos sentimentos reprimidos, tais como: amor, casamento, divórcio, erotismo, etc. Porém, mantinha-os nas gavetas.

Um dos salões mais famosos do Rio de Janeiro, localizado em Niterói, era o da família Oliveira, casa do poeta Alberto de Oliveira (1859-1937), irmão de Amélia de Oliveira. Nessa casa - os pais José Mariano de Oliveira e Ana Ribeiro de Mendonça - nos últimos anos do século XIX, era ponto de encontro de literatos. Fazer versos era algo comum entre os dezessete irmãos Oliveira.

As irmãs ficavam encarregadas de declamar os poemas dos irmãos e dos demais convidados, tinham cerca de trezentos poemas decorados. Além disso, as moças tinham até um certo prestígios nas artes: tocavam piano, cantavam, mostravam suas habilidades com a pintura, artesanato, mas nunca demonstravam suas próprias criações.

Grandes nomes da poesia e literatura da época 
frequentavam estes saraus.


Olavo Bilac, em 1883, começa a frequentar a casa dos Oliveira e se apaixona por Amélia, que retribui. Em 1885, iniciaram o namoro. Essa paixão inspirou boa parte dos sonetos da Via Láctea, composto por 35 sonetos. (Coelho, p.48)

Considerada a mais culta entre os irmãos, Amélia teve poucos poemas publicados em vida e a maioria com o pseudônimo de Emília da Paz.


Em uma ocasião Amélia, que escrevia muitos versos, teve um soneto publicado no Almanaque da Gazeta de Notícias em 1888 e a reação do noivo marca bastante como as mulheres eram reprimidas na época:

“Minha Amélia (...) Antes de tudo quero dizer-te que te amo, agora mais do que nunca, que não me sais um minuto do pensamento, que és minha preocupação eterna, que vivo louco de saudade, (...) Não me agradou ver um soneto teu (...) desagradou-me a sua publicação. Previ logo que andava naquilo o dedo do Bernardo ou do Alberto. Tu, criteriosa como és, não o faria por tua própria vontade (...) Há uma frase de Ramalho Ortigão, que é uma das maiores verdades que tenho lido: - "O primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida". - Não é uma verdade? (...) há em Portugal e Brasil cem ou mais mulheres que escrevem. Não há nenhuma delas de quem não se fale mal, com ou sem razão (...). Não quer isto dizer que não faça versos, pelo contrário. Quero que os faças, muitos, para teus irmãos, para tuas amigas, e principalmente para mim, - mas nunca para o público (...) Teu noivo Olavo Bilac.
São Paulo, 7 de fevereiro 1888"


Alberto de Oliveira (primeiro a partir da esquerda, na foto, em companhia de Raimundo Correia e Olavo Bilac).jpg

Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac




Com a morte do pai, o irmão de Amélia que assumiu o posto de patriarca da família, impediu o noivado com Olavo Bilac, alegando que o poeta era muito boêmio para a sua irmã. Ambos sofrearam com essa decisão.

Nenhum dos dois casou posteriormente e continuaram trocando poemas de amor.


prece amelia.jpg

prece bilac.jpg


Amélia sofreu todo aquele estado de coisas, resignada, certa de que, um dia, realizaria o seu sonho de amor. Não aconteceu. Mesmo após a morte de Bilac, em 1918, Amélia seguiu em devoção e visitava semanalmente, mesmo idosa, o túmulo do poeta, no cemitério de São João Batista.

Presciliana Duarte de Almeida (1867 - 1944), responsável pela revista A Mensageira, que circulou até 1900, insistiu para que Amélia publicasse seus poemas, mas ela sempre recusou, como foi o pedido do eterno noivo.

Todos os irmãos Oliveira que dedicaram algum tempo à poesia publicaram em órgãos de imprensa da região. Amélia, ao contrário, permaneceu à sombra, determinada a não desobedecer ao ex-noivo.

Após sua morte, seus poemas foram publicados em um volume sob o título de “Póstuma”.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

RIO... viajando na poesia



Em dobradinha
Com o blog NOSSOS VIZINHOS ILUSTRES
por aqui também curtindo o carioca..
OLAVO BILAC.


Quero um beijo sem fim
Que dure a vida inteira
E aplaque o meu desejo
Ferve-me o sangue:
Acalma-o com teu beijo

***

Nel mezzo del camin…
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

***

Ao coração que sofre
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;
E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

***
Em mim também
Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Tereis notado que outras cousas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.
Mas amastes, sem dúvida … Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.
Quem ama inventa as penas em que vive;
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos somente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.
***
Palavras
As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;
Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos
De pó, que o sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as águas imersos
-As palavras da fé vivem num só momento…
Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O “não!” que desengana, o “nunca!” que alucina,
E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas,
Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Do carioca Olavo Bilac...


Estamos necessitados!




A PÁTRIA 
Resultado de imagem para olavo bilac
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha…
Quem com seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o sue esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!



A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo
                   Assinatura de Olavo Bilac



Do livro:  Poesias Infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves: 1949

terça-feira, 25 de junho de 2013

Junho, Olavo Bilac

O carioca Olavo Bilac foi um poeta revolucionário e persistente que largou duas faculdades para fazer algo que realmente gostava: a escrita.  E como escrevia!

Esse mês de junho foi sua inspiração para o poema JUNHO.

Pintura de Militão dos Santos
reprodução - internet


 Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!

Junho:

Em chamas alviçareiras,
Ardem, crepitam fogueiras...
— E os balões de São João
Vão luzir, entre as neblinas,
Como estrelas pequeninas,
Entre as outras, na amplidão.
Não há casinha modesta
Que não se atavie, em festa,
Nestas noites, a brilhar:
Não se recordam tristezas...
Estalam bichas chinesas,
Estouram foguetes no ar.
Fogos alegres, pistolas,
Bombas! ao som das violas,
Ardei! cantai! crepitai!
Num largo e claro sorriso,
Seja a terra um paraíso!
Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio...
Vamos os corpos aquecer,
Acelerando o rodopio...
— Pode outro mês aparecer!


domingo, 16 de dezembro de 2012

Olavo Bilac, aniversariante de 16 de dezembro



Resultado de imagem para OLAVO BILAC

Jornalista e poeta  foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras e ocupou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.
Eleito "príncipe dos poetas brasileiros", pela revista Fon-Fon, em 1907,  o carioca Olavo Bilac, autor de alguns dos mais populares poemas brasileiros, é considerado o mais importante de nossos poetas parnasianos.



O Sonho

Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade
Solto para onde estás, e fico de ti perto!
Como, depois do sonho, é triste a realidade! 
Como tudo, sem ti, fica depois deserto!

Sonho... Minha alma voa. O ar gorjeia e soluça.
Noite... A amplidão se estende, iluminada e calma:
De cada estrela de ouro um anjo se debruça,
E abre o olhar espantado, ao ver passar minha alma.

Há por tudo a alegria e o rumor de um noivado.
Em torno a cada ninho anda bailando uma asa.
E, como sobre um leito um alvo cortinado,
Alva, a luz do luar cai sobre a tua casa.

Porém, subitamente, um relâmpago corta
Todo o espaço... O rumor de um salmo se levanta
E, sorrindo, serena, apareces à porta,
Como numa moldura a imagem de uma Santa...


Autor de frases que permanecem, 


A Pátria não é a raça, não é o meio, 
não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: 
é o idioma criado ou herdado pelo povo.



crônicas com um olhar atento, Olavo Bilac também é autor da Hino à Bandeira, onde estão os lindos versos 


...Tua nobre presença à lembrança,
 a grandeza da Pátria nos traz. 


Anúncio publicado na revista ‘Fon-Fon!’ ao qual Olavo Bilac empresta seu nome.

 'Tenho a maior satisfação em declarar que, sofrendo de uma bronquite pertinaz, fiquei radicalmente curado com o uso do Bromil. Podem fazer desta carta o uso que lhes convier. Rio, 5 de abril de 1910.'






sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Recenseamento no Rio de Janeiro

Mais uma crônica de todos os tempos.
Vale ler, sempre, Olavo Bilac.


Recenseamento 

Enfim, vai o Rio de Janeiro conhecer-se a si mesmo… Uma cidade sem recenseamento é uma cidade que a si mesma se ignora, porque não tem a consciência da sua força, do seu valor, da sua importância. 
É mais que um serviço —- e não é dos menores — que o Rio vai dever ao seu prefeito, a esse homem providencial, de quem já se pode impunemente dizer o maior bem, sem o risco de passar por adulador, pois que já não há, em toda a cidade, quem o não admire e o não louve. 
Infelizmente, já se descobriu o meio de opor embaraços à realização da bela idéia. No mesmo dia em que o prefeito decretava a organização do recenseamento da população, era publicado um ofício do ministro da Guerra, solicitando a organização do alistamento militar… E o povo, cotejando essas duas medidas, juntando-as, pesando-as na mesma balança, começou logo a atribuir-lhes uma aliança oculta um conúbio escondido, uma identidade de intuitos e de fins. A gente culta (que infelizmente não é legião) sabe- que esses dois serviços nada têm de comum, e que o propósito da prefeitura é, única e exclusivamente, o de saber quando habitantes tem a capital da República — cousa que, por vergonha de todos nós, ainda não se havia tentado averiguar. Mas, para a gente ignorante e desconfiada (a desconfiança e a ignorância são irmãs gêmeas), o recenseamento é o pretexto para o alistamento militar — e já o medo da farda e do serviço de caserna começa a sugerir às almas inquietas a idéia de se recusar a encher as listas censitárias. 
Esse terror é natural. Antigamente, o recenseamento apenas era feito para auxiliar dois serviços profundamente antipáticos aos povos de todos os tempos: o do recruta­mento militar e o da cobrança de impostos. O imposto e a farda — dois espectros, dois espantalhos! Já na velha Roma, no remotíssimo tempo de Servius Tulius, quando oscuratores tribuum saíam, com as suas tabuinhas ence­radas e os seus estiletes de marfim, a percorrer a urbe, e a recensear os habitantes, separando-os em assidui e proletarii — um medo pânico se alastrava pelas vielas e pelas alfurjas da cidade, e um terço da população, sabendo que aquilo significava guerra ou imposto, cobrança de sangue ou cobrança de dinheiro, transpunha as portas, e ia refu­giar-se no campo.

Hoje, o recenseamento tem um fim mais amplo, mais nobre, mais belo — um fim social.
E uma parte essencial da estatística, que, sendo "o estudo numérico dos fatos sociais", é uma das ciências tributárias e auxiliares da socio­logia. Como explicam os mestres da economia política, a vida social é um movimento perpétuo, uma transformação contínua, e uma constante renovação de fenômenos, que, por mais diversos que pareçam, sempre se podem classi­ficar em um número relativamente limitado de categorias. Não há um só fato individual que deixe de ser interessante, porque os fatos individuais, reunidos, formam os fatos so­ciais; e não há meio de governar sem o conhecimento des­ses fatos. 
É a estatística que torna possível o governo. Ela é, por assim dizer, a "escrituração social": se uma casa de comércio não pode viver e prosperar sem o registro minu­cioso das suas compras e vendas, e sem* os balanços pe­riódicos que demonstram o bom ou mau çstado dos seus negócios — também a sociedade humana não pode dispensar os seus guarda-livros, que são os encarregados da estatística. 
Essa "escrituração social" tem sido até hoje criminosa mente relaxada no Brasil. Os "guarda-livros" do país, ou são incompetentes, ou são indiferentes. Aqui a estatística é um mito. Para não ir muito longe, e apenas citar um fato simples e de fácil verificação, basta lembrar que, no Rio ele Janeiro, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional não têm catálogos! É incrível, mas é verdade… Se nem temos sido capazes de organizar e publicar o catálogo de um museu ou de uma biblioteca, não é de espantar que não tenhamos organizado e publicado até hoje o catálogo geral da nossa população, das nossas riquezas, do nosso trabalho, da nossa vida…

Há pouco tempo,; a Legação Japonesa no Brasil dis-tribuiu, pelas repartições públicas e pelas redações dos jornais, o Anuário financeiro e econômico do Japão relativo a 190$. Lendo esse livro, que é um monumento assombroso e maravilhoso de estatística, é que se pode compreender o estupendo progresso daquela nação.

O que nós costumamos chamar "milagres" não é mais do que o resultado simples e natural da combinação destas duas forças: o trabalho e o método… Nesse anuário, tudo quanto constitui a vida do país está incluído, estudado, dis­criminado, catalogado, classificado: orçamentos, dívida pú­blica, empréstimos, agricultura, indústria, viação, comércio. Há ali cousas que espantam; há, por exemplo, um quadro demonstrativo da produção do fumo, que é um assombro de exatidão e de minúcia: o fumo colhido foi contado de folha em folha… E com esse trabalho e com esse método que as casas de comércio prosperam, que as casas de família têm fartura e conforto, e que as nações enriquecem e se fazem fortes e respeitadas! 

Agora reparo que a "Crônica" está perdendo o tom que lhe compete, e enveredando por um estilo que não é o seu. 

Estas cousas são tão corriqueiras, que até as crianças das escolas primárias as conhecem… 

E parece, realmente, que é pedantaria ridícula, e ridícu­la ostentação de  barata, o estar aqui o cronista a demonstrar as vantagens e a utilidade da estatística em geral, e do recenseamento em particular… 

Mas estas idéias, tão simples, tão claras, tão vulgares, não podem, desgraçadamente, ser eficazmente incutidas no ânimo de toda a nossa população. Por quê? porque uma grande parte da nossa população não sabe ler… 

Basta lembrar a última bernarda que tivemos no Rio: a de novembro de 1904… Que foi o que causou esses sanguinolentos motins? Foi a intriga perversa de alguns especuladores políticos que excitaram o povo contra a lei da vacinação: e muita gente acreditava que os médicos iam injetar no seu corpo sangue de rato atacado de pestebubônica! Essa balela, que apenas parecia cômica, teve efeitos trágicos. Que utilidade poderiam ter, para destruí-la, os boletins profusamente espalhados pelas autoridades sanitárias, e as explicações dadas pela imprensa? Nenhuma. O papel benéfico da imprensa não pôde deixar de ser quase nulo, numa cidade que conta quase 1 milhão de habitantes, mas na qual todos os jornais diários reunidos não chegam a vender 100 mil exemplares por dia… 
Assim,.não há meio de contrariar eficazmente o equívoco, que a publicação simultânea das duas medidas veio criar. Se o Ministério da Guerra houvesse adiado a publi cação do seu propósito — o povo, que confia no prefeito, porque dele só tem recebido benefícios e cuidados, veria no recenseamenro mais uma prova da sua paterna! adminis­tração, c auxiliá-lo-ia. Mas parece que há, neste pais, uma doença orgânica, que leva muita gente, irresistivelmente, a perturbar e estragar, com consciente ou inconsciente mal­dade, tudo quanto se pretende fizer de bom. 
Vão agora tirar da cabeça de certa gente que a entrega das listas censitárias há de expô-la ao recrutamento militar! 
O que é verdade é que, para, abusivamente, c contra­riando expressamente a letra da lei, pôr em prática o recru­tamento forçado, as autoridades militares não carecem do recenseamento. Ainda há pouco, para organizar a parada espetaculosa de uma guarda nacional que não existe, alguns coronéis de mentira andaram complicando a vida domésti­ca dos cidadãos, privando-os violentamente dos serviços dos seus cozinheiros e dos seus copeiros…
O povo, porém, não compreende isso. Se lhe não de­monstrarem cabalmente que o recenseamento civil, orga­nizado pela prefeitura, nada tem de comum com o alista­mento militar, organizado pelo Ministério da Guerra, ele, apavorado pelo fantasma da Farda, há de mais uma vez fur­tar-se ao cumprimento de um dever social, que tão facil­mente e com tão grande utilidade para todos pode ser cumprido. Como, porém, fizer essa demonstração àqueles que, por culpa e desídia do Estado, continuam aviltados pelo analfabetismo, moralmente cegos, tristemente manti­dos na ignorância, privados da compreensão dos seus direi­tos e dos seus deveres?  
   
É aqui que tudo vem ter: o problema da instrução é como, nas máquinas, o eixo central, em torno do qual os movimentos de todas as peças se combinam e conjugam. Por isso, é que não deixo de tocar este realejo, cuja música pode parecer enfadonha, mas é indispensável: e "si cette histoire vous embête,/ nous allons la recommencer!". ["se esta história vos aborrece/ nós vamos recomeçá-la” ]
Gazeta de Notícias, em 17 de junho de 1906


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dia da Lingua Nacional



Nada melhor para comemorar a data que a poesia de Olavo Bilac.


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!



Uma curiosidade interessante: o carioca Olavo Bilac além do poeta parnasiano, de primeira linha, assinou com os mais variados pseudônimos - entre os quais os de Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc - excelentes matérias humorísticas e satíricas na imprensa do tempo do Império e dos primeiros anos da República.


Qualquer dia desses publicaremos uma delas.