sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O Clube dos Cafajestes



Instituição carioca das mais “folclóricas”, o Clube dos Cafajestes era uma turma que não tinha medo de ser feliz . Amavam  festa, a animação, as brincadeiras.

Imperaram nas décadas de 1940, 1950 e chegaram até o finalzinho dos anos 1960. Ecléticos, irreverentes, alegres, em geral nascidos em famílias abastadas e da classe média alta.

Antiguinho: O Clube dos Cafajestes

Os rapazes do grupo na porta do Bar Alvear



MUNDO BOTAFOGO: O 'Clube dos Cafajestes'A Confeitaria Alvear, em Copacabana, na avenida Atlântica, esquina com a República do Peru, era o point do Clube. Virou o lugar da moda. Mas nem sempre as noites acabavam bem. Namorados ciumentos e vizinhos sem humor (!) muitas vezes faziam com que as coisas não acabassem muito harmoniosas. Ou seja, acabassem  em briga.

Nenhum desses rapazes levava desaforo para casa e a “seriedade” não era muito apreciada entre eles, já que gostavam de uma boa briga e de fazer coisas absolutamente inusitadas e provocativas. Criativos, corajosos e mulherengos, andavam juntos durante o ano inteiro, abafavam no Carnaval, e nas suas disputadas festas não faltavam boas bebidas, excelentes orquestras e, claro, a companhia feminina.


Mas quem eram eles?




Seu fundador foi Edu (Eduardo Henrique Martins de Oliveira), comandante da Panair do Brasil - foto ao lado  que jogou no juvenil do Botafogo no início da década de 1930. Outros botafoguenses também fizeram parte como fundadores, como Althemar Dutra de Castilho (futuro presidente do alvinegro) e um dos mais discutidos jogadores de futebol de todos os tempos, Heleno de Freitas.

A turma era da pesada.  O Clube era uma verdadeira instituição da boemia carioca. O painel de sócios do inusitado clube, com um código de ética jamais escrito, era composto por “cafajestes” de primeira linha.

O nome? Surgiu por acaso.

A história começou assim. Voltavam de uma festa pré-carnavalesca quando a vizinha de Edu  -  endereço ponto de encontro da turma -  que os odiava, gritou aos netos " Crianças todas para dentro, que chegaram os cafajestes malucos". E aí um dia, à saída da casa de Edu, para uma festa, o grupo - cerca de quinze - cruzou com a mesma senhora e com seu ar de reprovação. Um dos rapazes, na galhofa, então, gritou: "Madame, se fores a Teresópolis não esqueças de aparecer na festa dos cafajestes". Estava carimbado o nome!



"Nós usávamos este título: "cafajestes'", mas não tínhamos nada de cafajestes. Quase todos tinham curso superior, trabalhavam e falavam línguas (nada a ver com os Pitboys de hoje)."
Mário Saladini, um dos "cafajestes"


Faziam parte deste time um grupo carioca e outro paulista:

o famoso playboy e milionário Mariozinho de Oliveira, que foi o último remanescente do clube, morreu aos 90 anos em 2016

o membro da família imperial brasileira Dom João de Orleans e Bragança (oficial-reformado da Força Aérea Brasileira),

 o industrial Francisco Matarazzo Pignatari, o Baby Pignatari

o rubro-negro, produtor de cinema e dono do canal 100, Carlos Niemeyer, à época piloto da aviação comercial,

o jornalista e político Carlos Lacerda,

o  playboy do Copacabana Palace Jorginho Guinle, 

Ibrahim Sued  - que também entrou para o grupo, tempos depois, após ser barrado em uma das festas, mas como seu irmão, Alberto Sued fazia parte da trupe, mandou liberá-lo e juntou-se ao grupo dos boêmios.

Bubi Alves (botafoguense),

Carlos Peixoto, 

Carlos Roberto de Aguiar Moreira (secretário-geral particular do presidente da República),

Cassio França, 

Celmar Padilha, 

os irmãos Darcy Froes da Cruz e Oldair Froes da Cruz, 

Ermelindo Matarazzo (milionário que era goleiro reserva e torcedor botafoguense),

Ernesto Garcez Filho, 

Fernando Aguinaga (botafoguense), 

Francisco Albano Guize, 

Helio Leitão de Almeida (FAB), 

Ivan Cardoso Senior, 

Léo Peteca, 

Mário Saladini, 

Paulo Andrade Lima, 

Paulo Soledade (piloto da aviação comercial),

Raimundo Magalhães, 

Raul Macedo (botafoguense), 

Sérgio Pettezzoni, 

Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta),

Vadinho Dolabella,

Waldemar Bombonatti (botafoguense e namorado da cantora Linda Batista) ...

...entre outros bons vivants. 


(A lista completa - em torno de cem nomes - pode ser encontrada no livro 
"Cafajestes" com Muita Honra!", de Mário Saladini)

"O nosso esporte era rir, beber e, entre outras coisas, fazer as maiores estripulias por toda a cidade. Éramos unidos em uma amizade, despojada de preconceitos. O clube primava pelo espírito de gozação, esse espírito nosso bem carioca, embora nem todos tivessem nascido aqui no Rio."

Os curiosos, amados, temidos e reverenciados “cafajestes” tinham uma noite anual muito especial. Era o famoso Caju Amigo, baile pré-carnavalesco, onde era proibido levar a própria mulher, ou namorada, mas cada um dos cotistas (todos eles) tinha a obrigação de convidar quatro mulheres; "uma "mediazinha" bem razoável para quem gosta!", diziam. Variavam de local. Começou em casarões desocupados de Copacabana, depois no Clube Marimbás (a maior parte) e os três últimos na boate Sucata.

"Entre eles ninguém cogitava de ir para o céu, padecer no purgatório ou arder no inferno. Eram fuzarqueiros, mulherengos, boêmios, ligadões nas boas farras da vida. Ninguém melhor do que eles, os membros do “Clube dos Cafajestes”, representava a alma carioca das décadas de 40 e 50. Para eles, o paraíso, o começo e o fim da vida, era Copacabana."

Heleno de Freitas,o  doutor Heleno, como alguns o chamavam porque havia se formado em Direito, tinha o diploma da malandragem,  mas uma figura que pontificava no Clube, idolatrado por todos, era o comandante Edu. Folgazão e sempre de bem com a vida, e pronto para qualquer peripécia especial.

Mas o dia 28 de julho de 1950, mudou  a trajetória irreverente.

Pilotando o “Constellation” prefixo PP-PCG, Edu decolara do Galeão às 15:47, rumo a Porto Alegre. Como sempre, alegre, brincalhão e festeiro, havia prometido aos companheiros do Clube a melhor carne gaúcha para churrasco, chegasse ele a hora que chegasse de volta, na Confeitaria Alvear, em Copacabana.

Na hora prevista para o pouso em Porto Alegre, já anoitecia e a região metropolitana estava banhada por uma daquelas chuvas intermitentes de inverno, acompanhadas de cerração. Ao anunciar aterrissagem à Torre de Controle, o comandante Edu não obteve permissão, porque o então Aeródromo São João, naquelas condições climáticas, com sua pista de chão puro, não comportava pouso de aviões tipo “Constellation” e “Douglas”.

O piloto recebeu então a ordem de pousar na Base Aérea de Gravataí, onde já havia piso asfaltado. Mas, tinha pela frente o desafio de encontrar o quadrilátero de aterrissagem, escondido sob a noite, a cerração e a chuva: a Base não possuía instrumentos sinalizadores de aproximação.

Eram oito da noite em São Leopoldo, quando o silêncio do Morro do Chapéu, encoberto pela neblina e pela escuridão, foi destruído por um estrondo de guerra e um crepitar de chamas gigantescas: havia um gigante de pedra no caminho daquelas 51 vidas que estavam a bordo do Constellation da Pannair. Sem dar tempo para o calafrio final, o cataclismo a ninguém poupou, decompondo corpos ou os entregando às chamas.



O Clube dos Cafajestes esperou, numa vigília inútil, a volta de seu líder e a carne para o churrasco.

Após a tragédia, a tristeza abateu-se sobre o grupo, e paulatinamente surgiu uma música, que não se pretendia que fosse divulgada, mas que acabou sendo cantada no Brasil inteiro no carnaval de 1951.

A música foi composta por Fernando Lobo e Paulinho Soledade, também comandante, e colega de Pannair. Diz a lenda que na mesa em que foi composta, estavam também Aracy de Almeida e Dorival Caymmi. Vinham todos da missa de sétimo dia do Edu.


Oi zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum,
Tá faltando um
Oi zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum,
Tá faltando um

Bateu asas foi embora, desapareceu
Nós vamos sair sem ele
Foi a ordem que ele deu

Oi zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum,
Tá faltando um
Oi zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum,
Tá faltando um

Ele que era o porta-estandarte
E que fazia alaúza e zum, zum
Hoje o bloco sai mais triste sem ele

Tá faltando um
Oi zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum,
Tá faltando um
Oi zum, zum, zum, zum, zum, zum, zum,
Tá faltando um


A gravação foi de Dalva de Oliveira.



No dia seguinte os jornais estampavam as manchetes: “Maior desastre da aviação brasileira” " A Maior tragédia aérea do Brasil"



MUNDO BOTAFOGO: O 'Clube dos Cafajestes'


Depois da tragédia, assumiram a liderança no Clube, seus substitutos naturais, Mariozinho de Oliveira e Carlinhos Niemeyer.


A revista Manchete, de 31 de janeiro de 1953, publicou uma reportagem sobre o adeus dos "cafajestes".



A matéria contou que os principais integrantes do Clube andavam de "saco cheio" com a exploração em torno do nome e com o assédio ao grupo. Resolveram encerrar os trabalhos. Curiosamente, a reportagem foi assinada por Flávio Porto, ele próprio um dos cafajestes de carteirinha. As fotos da última festa de arromba foram de Yllen Kerr e Aymoré Marella.

































Flávio concluiu a reportagem com um tom de lamento:

"O término dos Cafajestes 
é uma perda enorme 
para a alegria desta cidade 
onde tantos se divertem tão pouco."



3 comentários:

  1. Eu era um rapazinho na época em que o clube existia. Ele era o nosso sonho encantado. Os caras eram bonitos, valentes, alegres e andavam com as melhores mulheres da cidade.
    Eu conheci muitos membros, embora fossem da idade do meu pai.
    Quiz o destino que eu me casasse com a filha do Edu e, antes disso, fosse advogado da Panair.
    Não conheço o Edu, pois era menino quando ele morreu.
    O fim do clube dos cafagestes foi um golpe na alegria de Copacabana e o fechamento absurdo da Panair foi uma perda para o Rio e para o Brasil.
    Enfim, com sucessivos golpes tentam destruir o Rio. Só que ele renasce das próprias cinzas e fica cada dia mais bonito.

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  2. Histórias sensacionais tive o prazer
    De conhecer e viajar com o Mário Saladine, ouvir muitas histórias que
    Me fez lembrar do meu pai ( Chiquinho de Bangu) boêmio da Lapa antiga que
    Segundo contam fazia chover no bar
    Adolfo ( bar luiz) ponto de encontro
    Da malandragem e da música .

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