Há 50 anos,
carteiro mais antigo do Leblon
carteiro mais antigo do Leblon
recebia homenagem
Curiosidades Cariocas, Histórias do Rio de Janeiro,Rio Antigo, Turismo no Rio de Janeiro.
Em outubro de 1960, há 60 anos,
surgiram os novos jardins da orla.
Recortes de jornal da época nos falam sobre isso.



"O fascínio que sobre mim exercem a graça e a inteligência das reflexões de Elsie Lessa fazem-me, sempre que posso, reler suas histórias, e foi numa dessas vezes que reencontrei, recentemente, a descrição de um eclipse observado ao longo da avenida da praia, por onde vinha a cronista, em marcha lenta, desde "os confins do Leblon".
Fixei-me, surpreso e enleado, nessa referência. Entrevi, no belo cenário descrito, uma nesga entre os restos de sol de um céu azul escuro e antigo, e enfiei-me de mansinho numa tarde qualquer de 1950.
Era, com efeito, o Leblon um dos extremos da cidade. Pra lá do canal da Avenida Niemeyer, só iam pescadores que moravam no Vidigal e alguns aventureiros motorizados à cata de um sítio ermo para seus encontros furtivos na Barra da Tijuca, então, apenas, um acidente geográfico com mar batido e enorme areal coberto por vegetação rasteira e espessa - uma espécie de jibóia entrelaçada - que fazia as vezes de leito para um ou outro casal mais afoito.
No mergulho proustiano que empreendi, vejo-me, à noitinha, cercado de garotos como eu, sentado na calçada da praia, sob a iluminação fraca de grandes luminárias guarnecidas de arabescos, encimando meia dúzia de pesados postes de ferro, tentando adivinhar o algarismo final da placa dos automóveis. De trinta em trinta minutos passava um deles, e iniciávamos outra rodada de apostas. A quietude e a ausência quase total de transeuntes, que pudessem desviar nossa atenção, estimulavam o hábito da conversação; os assuntos, sempre os mesmos, mas as opiniões, variadas. Ainda não havíamos sido cooptados e globalizados pela tal da mídia; a televisão engatinhava, era experimental. 1984, de Orwell, não chegara ao Brasil, pelo menos na atual versão tupiniquim.
Raros como os postes, um homem aqui, um casal acolá podiam ser vistos, de vez em quando, a passeio. Mulheres sós, nunca. Às oito e pouco, recolhíamo-nos às nossas casas. Nós e todo o mundo, que o comércio há muito tinha cerrado as portas e cessava o movimento pelas ruas. O monumental silêncio só era quebrado pelo ranger dos bondes nos trilhos, o coro lamuriento da gataria ou pela voz de uns poucos notívagos a caminho do botequim.
Antes de tornar-se via migratória e serventia da diáspora rastaqüera e point de agito de arrivistas, intelectuais de araque e oligóides, o Leblon foi um bairro muito bacana.
Dois ou três botecos, entre o canal e o Jardim de Alá, ficavam abertos até as onze horas, se tanto, para atender motoristas de lotação, motorneiros e boêmios. Estes últimos, sempre os mesmos velhos conhecidos, reuníam-se para falar sobre futebol e outras amenidades, e relaxar um pouco antes de ir dormir. Crianças só entravam nos bares durante o dia, para comprar balas ou dar recados.
Não existiam cadeiras nas calçadas, carros à porta com rádio ligado alto, brutos suarentos a urrar disputando lugares, nem risos histéricos de mulher. Não havia pressa; a cerveja era servida muito gelada e podia-se pedir, no máximo, ovo cozido e pão com mortadela ou queijo. A maioria ia bater papo, e quem quisesse comer, que fosse fazê-lo em casa (comida feita com banha de porco tirada de uma lata com desenhos de coqueiros verdes). Dispensavam-se exibidos profissionais. Claro que havia babacas, que esses pululam em todas as épocas, mas ainda não predominavam... pelo menos nos botequins.
Nada dos incensados Bracarenses da vida (já falei da liberdade de escolha, e de que as individualidades não tinham sido totalmente dizimadas?). O Recarey, quando apareceu (por volta de 56, mais ou menos, - eu já freqüentava os botecos e lembro- me muito bem-) era comim do Três Vinte, onde é hoje a Pizzaria Guanabara, sede de um desses malfadados baixos que proliferam por aí, acolhendo maltas de romeiros automatizados, flutuando a um milímetro da discórdia.
Naqueles tempos, as pessoas encontravam diversão nos bairros em que residiam e só transitavam por outro a caminho do trabalho ou em visitas ocasionais. O Leblon não servia de acesso a lugar algum, já disse, ficava nos confins: era o extremo sul, ponto de partida ou de chegada. Uma aldeia encantada, em grande parte por esse motivo.
No mais, sem carros, baixos, visitantes desagradáveis, as ruas eram nossas e as desfrutávamos de pés descalços, casimirianamente, donos do pedaço, até porque os adultos gastavam os dias envolvidos nos afazeres domésticos, ou na cidade. Impunha-se ir à cidade para trabalhar, ir ao dentista ou médico, para negócios de qualquer natureza e para compras maiores. Perto de casa só havia quitanda, farmácia, barbeiro, padaria e botequim. Ah! Tinha, também, o armarinho, no qual mamãe mandava comprar retrós mercerizado, com a Joana, filha do dono e irmã do Nagib, que morreu novo, coitado, e muitos terrenos baldios, também, onde se jogava bola e caçava-se rolinha, para quem se lembra disso: de terra batida, bem carecas no meio e muito capim alto roçando os muros. Como ocorre às crianças, pareciam-nos imensos, verdadeiros Maracanãs.
Anti-sociais ou gregários, nem pensar, já que todos se conheciam muito bem. Tímidos, abusados, é certo que os havia; distribuíam-se por turmas, geralmente conhecidas pelos nomes das ruas. Algumas dessas ruas guardavam ainda suas designações indígenas originais, que, aos poucos, foram substituídas pelos nomes dos generais sul-americanos, cuja bravura livrou-nos da invasão dos marcianos e de outras graves ameaças. Uma briguinha, vez por outra, logo seguida de ruidosa confraternização, animava uma saudável rivalidade entre aquelas corriolas.
Graças à inexistência de attaris e tamagotchis, jogava-se bola o dia inteiro. O resto do dia inteiro era curtido na praia. Mas isso, a convivência entre os ricos e os pobres da Praia do Pinto, num bairro em que preponderava a mais genuína classe média, e otras cositas mas são assuntos que demandam novos espaços, novas crônicas.
Por enquanto, vou matando a saudade, reconfortando-me com uma primeira dose dessas coisas velhas e ricas que tive a ventura de possuir e testemunhar. Acho que precisava olhar para trás e veio-me na hora certa. Não agüento mais consumir essa vida que não pára e, ao mesmo tempo, não leva a nada. Angústia por angústia, prefiro a sofreguidão que possam causar-me essas recordações à trama diabólica que me atormenta e atrela a esse cometa estúpido, obstinado, que me carrega por onde não quero ir."


"Em junho de 1994, enquanto a seleção brasileira de Romário e Bebeto dava seus primeiros passos para levar o tetracampeonato na Copa do Mundo dos Estados Unidos, o Brasil inteiro era invadido por uma onda de frio poucas vezes vista.O Sul do país, varrido pelo minuano (vento capaz de congelar chimarrão dentro da cuia), batia recordes negativos de temperatura um dia após o outro. O Rio de Janeiro, que mesmo no inverno dificilmente registra temperaturas em um único dígito, não ficava atrás. No dia 28 de junho daquele ano, os termômetros cravaram 6,7 graus Celsius no Alto da Boavista. Com a proximidade do mar, a sensação térmica beirava o zero grau.
Um frio do cão.
É, até hoje, a mais baixa temperatura registrada na cidade desde que, num longínquo dia de 1926, o frio chegou a inacreditáveis 4,5 graus no Campo dos Afonsos — mas isso pode ser só lenda urbana. O fato é que, em junho de 1994, o inverno do Leblon era mesmo quase glacial.
Foi naquele ano que a gaúcha Adriana Calcanhotto botou nas lojas de disco (é, elas existiam naquela época) “Fábrica do poema”, CD que continha “Inverno”, a tal música do verso “o inverno no Leblon é quase glacial”. Não era só. O disco tinha outras bem sacadas investidas no cotidiano da cidade, como “Morro dois Irmãos” e o clássico “Cariocas”. Vendeu 130 mil cópias. “Inverno” — que falava sobre solidão, abandono e amores à deriva — virou uma espécie de retrato de um bairro em dias gelados... (na verdade, a letra é do Antônio Cícero).
Vinte anos depois,o Leblon — que nesse inverno deve ter temperaturas mínimas em torno de 18 graus ... mudou à beça...
Em junho de 1994, o Brasil estava prestes a ganhar o real como moeda, lançada oficialmente em 1º de julho daquele ano. De lá pra cá foram três presidentes da República, três governadores e três prefeitos diferentes. Durante esse tempo, Manoel Carlos escreveu seis novelas para o horário nobre da TV Globo. A primeira delas, “Por amor”, lançada em 1997, e a última, “Em família”, ainda está em cartaz. Todas tinham Helena como protagonista, a família como tema e um Leblon idealizado como cenário. A mistura de ficção e realidade jogou os preços para o alto. Todo mundo quer morar no bairro da novela, viver a vida da novela. Em 20 anos, roubou definitivamente de Ipanema o título de mais caro da cidade. O metro quadrado ali sai, por baixo, a R$ 24 mil.
A valorização se estendeu às ruas do bairro, que viram boa parte do comércio tradicional ser substituída por lojas de grife e, sobretudo, por restaurantes sofisticados, a maioria concentrada na Rua Dias Ferreira. Estão ali, entre outros, o CT Boucherie, o Q, o Zuca e o Quadrucci. A rua dos restaurantes recebeu recentemente o reforço também de três novas sorveterias. Todas no mesmo estilo
...Sorvete é sorvete em qualquer tempo... e o inverno no Rio é camarada.
O conceito de comida com grife tomou conta do bairro de vez. Está certo que o Tio Sam, o Azeitona, o Jobi, o Alvaro’s, o Degrau, o Ferreira, a Pizzaria Guanabara e o La Mole continuam onde sempre estiveram, mas agora têm a companhia de casas que, de um jeito ou de outro, trataram de colocar um pouco de espuma (e trufas, e reduções e infusões, e o escambau) na tradicional gastronomia de botequim.
Mesmo entre as novidades, há exceções.
...Chico, do Chico & Alaíde, é exemplo vivo das mudanças do bairro ao deixar, em 2009, o posto de garçom mais querido do Bracarense para, ao lado da rainha das panelas Alaíde, montar seu restaurante....
...Casas tradicionais, como Garcia & Rodrigues, Carlota e Real Astoria, foram riscadas dali. Até o Cinema Leblon, um dos últimos cinemas de rua da cidade, parece estar com os dias contados. De modo geral, o mapa do Leblon, nos últimos tempos, anda difícil de desenhar. As obras para a ampliação do metrô mudaram o trânsito, inverteram mãos e fecharam ruas. A principal delas, a Ataulfo de Paiva, virou canteiro de obras. Tem tapume para tudo que é lado.
Com os transtornos, muitas lojas não resistiram à fuga dos clientes e fecharam as portas. Outros migraram para os shoppings, como o Leblon, inaugurado em 2006. As meninas do bairro — que em 1994 misturavam os vestidinhos da Cantão com acessórios roubados do seriado “As patricinhas de Beverly Hills” e as inevitáveis camisas xadrez de flanela — agora vestem Farm, Ecletic e roupinhas de brechó. E — caramba, isso, sim, é novidade — vão à praia ali mesmo.
A Praia do Leblon, antes reservada às famílias e crianças, agora é ocupada pelas mesmas pessoas que, um dia, já passaram pelo Posto 9, pelo Coqueirão e pelo Country. O tradicional Baixo Bebê passou a ter a companhia das barracas que servem cerveja, caipirinha e até... espumante...
...acreditar que o inverno está começando no Leblon...
... Inverno? Frio? Como assim? "