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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

CURIOSIDADES CARIOCAS...carteiro do Leblon




Há 50 anos,
carteiro mais antigo do Leblon
 recebia homenagem






terça-feira, 6 de outubro de 2020

Em 1960... a nova cara da orla Ipanema-Leblon

 Em outubro de 1960, há 60 anos,
surgiram os novos jardins da orla.


Recortes de jornal da época nos falam sobre isso.






domingo, 26 de julho de 2020

Uma rua no Leblon, no Posto 11


A Rua Leblon...

 ou Rua Oswaldo Goeldi está localizada no centro do quarteirão, entre a Rua Almirante Guilhem e Avenida Afrânio de Melo Franco. Tem entradas pelo número 200 da Avenida Delfim Moreira e saída pela Avenida General San Martin.
Rua Leblon, localizada quase em frente ao Posto11



Entrada - Av Delfim Moreira



O lote é comprido e estreito, e tem duas frentes, uma pela a Avenida Delfim Moreira e outra, pela Avenida General San Martin. Para garantir seu máximo aproveitamento, no início dos anos de 1940, foi desmembrado e loteado, conforme o PAAL nº 7896.

Sua forma de implantação é de vila particular, tendo no meio do lote uma rua estreita, com unidades residenciais enfileiradas e voltadas para a rua, sendo nove unidades no lado impar e oito no lado par. 

Ao todo são cerca de 17 imóveis na rua, entre dois e seis pavimentos e pelas fachadas dos três preservados, pode-se ver os contornos da arquitetura dos anos de 1940.

Algumas casas...

A casa na Rua Leblon nº 3, onde os Stones (Gerald e Tony), os Parens (Drew e Brian), os Morthlands (Margaret e Bronwyn) e os Meads (Margaret) viveram durante a década de 1960. ."


Foto tirada em 1962


Essa rua é um oásis de tranquilidade e um dos endereços mais nobres do Brasil. Das 18 casas apenas três são preservadas pela APAC do Leblon e não podem ser modificadas. A branca que aparece nas fotos abaixo e em uma matéria antiga da Revista de Arquitetura não está entre as três.


Foto mostram a Rua Leblon no final da década de 1940.

Nenhuma descrição de foto disponível.
A imagem pode conter: texto que diz "poblem. comples numeron aocenle Canccou anquiteto ondluç.in hscinle crли nesdia Casa de um arquiteto J. Fontes Ferreira ENGENHEIRO ARQUITETO qqueno jardim tem progetas tribuiçio: escolhido Portico aberto; Ipanem PLIRATa sequanto automdse rctanil anstru .mdar térreo, recuado rua alcançar cemuris owsiitot IO ARQUITETUIRA"


Infelizmente para nós e, claro, para tranquilidade de seus moradores,  a rua foi fechada por portões e só moradores e visitantes podem atravessar da Rua General San Martin para a Avenida Delfim Moreira.

Uma das tombadas é essa de estilo normando.


A imagem pode conter: pessoas em pé, listras, casa, árvore, céu e atividades ao ar livre


Na foto abaixo, de 1949, podemos ver três integrantes da família Escobar em frente à casa, um legítimo bangalô normando à beira-mar, ainda sem muros.

Construída na década de 1940 até hoje pertence à família Escobar.
Ela é tombada e atualmente não pode ser modificada, muito menos demolida.

Sua arquitetura rara a coloca no top 10 de casas antigas mais lindas do Leblon.


Fotos da família Escolar
Nenhuma descrição de foto disponível.

A imagem pode conter: 1 pessoa, área interna
Lourdes Escobar, na rua, em frente à sua casa.
 Foto gentilmente cedida por ela.



Uma curiosidade da Rua Leblon:

Aos interessados de plantão, existe uma casa na exclusiva Rua Leblon. Ela está à venda pela bagatela de R$ 11.000.000,00(onze milhões de reais). Tem 221 m²,  taxa de condomínio no valor de R$ 3.600,00 e IPTU de R$ 19.035,00.





Em tempo:

Pintores Brasileiros – OSWALDO GOELDI - VÍRUS DA ARTE & CIA. 

Oswaldo Goeldi foi um grande artista plástico brasileiro.

Carioca, nasceu em 1895 e morreu em 1961. Gravador, desenhista, ilustrador, professor, se dedicou à xilogravura e teve sua história ligada ao Leblon, onde morou em seu pequeno apartamento/atelier na Rua Almirante Guilhem, no Leblon.







quinta-feira, 26 de julho de 2018

Leblon...centenário, a controvérsia da data




Entre a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Oceano Atlântico, o Morro Dois Irmãos, o Canal do Jardim de Alá, na divisa com a Gávea, a Lagoa e Ipanema lá está ele...o bairro do Leblon.

Há 100 anos surgia o bairro.


Leblon, anos 1910, orla ainda sem os trilhos


Resultado de imagem para bairro do leblon 1928
  

Av Delfim Moreira, anos 1920





O que era um campo arenoso, semeado de alagadiços e brejos, coberto de pitangueiras, espinheiros, palmeiras anãs, cactos e araçás, onde moravam uns poucos pescadores, deixou de ser um apêndice da Gávea para assumir as feições de bairro independente, por ocasião da Primeira Guerra Mundial, a partir da instalação de um ramal de tramways pela beira da praia, no trecho que, em 1918, passou a chamar-se Avenida Delfim Moreira.

Mas um mapa francês, de 1558, já situa no Leblon a aldeia Kariané. Esses tamoios teriam dado ao sítio o nome de Ypaum(espaço entre canais), em harmonia com a toponímia local. Muitos nomes de ruas do Leblon ainda guardam os nomes originais, que evocam a língua tupi: Igarapava (ancoradouro de canoa), Aperana (caminho errado), Sambaíba (designa um tipo de planta), Tubira (caminho de poeira), Itaquira (mina de água), etc.

Só em 1918 acontece a primeira ligação com Ipanema e adiante.


Há divergências na data. 
Há os que considerem a chegada dos bondes só em 1919. 
Não tem importância. 
Daí o centenário seria em 1919. 
Não tem importância.Comemoramos duas vezes.

No terminal, os carris faziam conexão com a linha originária da Gávea, que percorria a Rua do Pau (hoje, parte Dias Ferreira, parte Conde Bernadote), seguindo em direção à praia pela Rua do Sapé (atual Bartolomeu Mitre).
Pela praia, e depois feita por uma ponte sobre a barra da Lagoa ligando as Avenidas Vieira Souto, em Ipanema e a Delfim Moreira.
O Leblon não tinha luz elétrica, que só chegava a Ipanema. Havia poucas ruas, uma delas a Rua do Sapé, que ia do Largo das Três Vendas (Praça do Jóquei) até o Largo da Memória, que seria, hoje, a parte final da Avenida Bartolomeu Mitre. O Largo da Memória ficava entre as ruas Tubira e Juquiá, em frente ao antigo quartel da PM. A Rua Tubira também já existia, sendo a ligação para as areias da Praia do Zé do Pinto, que mais tarde deu lugar à favela da Praia do Sr. Pinto (depois Praia do Pinto), que foi uma das maiores da Zona Sul do Rio.
 Havia uma trilha, simples caminho de areia, que partia do Largo da Memória, seguia pela Praia do Sr. Pinto com o nome de Travessa do Pau (Rua Conde de Bernadote) e ia em direção ao mar. Mas antes passava pela Pedra do Bahiano (atrás do Conjunto dos Jornalistas) para encontrar o Caminho da Barra, que é como se chamava a margem do Canal no Jardim de Alah.

A linha do bonde circular Copacabana-Ipanema-Leblon-Gávea seria consolidada há 80 anos atrás, em 1938, com a construção de uma ponte sobre o canal do Jardim de Alá, ligando a Rua Visconde de Pirajá à Avenida Ataulfo de Paiva, colocando um fim às baldeações e à circulação de bondes pela praia.




Acima o tranquilo terminal da linha Jardim Leblon, que atendia basicamente Jardim Botânico e Leblon, e depois se expandiu e passou a terminar em Ipanema, próximo ao Jardim de Alah. Vale reparar na tela de arame colocada nas laterais, por questões de segurança.




O bairro do Leblon em 1938


Até o início do século, nem mesmo na linguagem do povo, aquele conjunto de chácaras desmembradas da antiga Fazenda Nacional da Lagoa tinha o nome de Leblon. Sua origem remonta a um tal francês,Charles Leblon, proprietário de um lote no areal — um quadrilátero delimitado, num sentido, pelas atuais Av. Visconde de Albuquerque e Rua General Urquiza e, no outro, pela Dias Ferreira e o mar —, que se convencionou chamar de Campo do Leblon.

Voltando no tempo, temos o Príncipe D. João VI que mandou desapropriar o Engenho da Lagoa, indenizando a herdeira Maria Leonor de Freitas Mello e Castro, e boa parte das terras que iam do Humaitá ao Leblon transformaram-se no Jardim Botânico. Como os terrenos de marinha não interessassem aos propósitos que animaram o Regente, foram cedidos, em 1808, a dona Aldonsa da Silva Rosa, feliz proprietária de toda a orla marítima que ia do Leme até o Leblon... e mais um pouco em direção ao sertão, extensão de terreno que se chamava à essa altura Fazenda Copacabana. Aldonsa transferiu a posse a Manoel dos Santos Passos, que legou em testamento ao sobrinho Antônio da Costa Passos, que, por morte, beneficiou os sobrinhos Francisco da Silva Melo e Francisco Nascimento de Almeida Gonzaga, que, em 1844, venderam tudo para Bernardino José Ribeiro e... voltamos ao Carlos Leblon que, por acaso, tinha os cabelos claros( daí a lenda do "le blond")

A primeira transversal à Avenida Ataulfo de Paiva, para quem vem de Ipanema, foi a Avenida Afrânio de Melo Franco, que já tinha esse nome no início da urbanização, nos anos 1910. Em seguida temos as seguintes ruas, com seus nomes da época e os atuais:


Nome antigo - Nome atual


. Rua Dom Pedrito - Rua Almirante Guilhem

Rua Francisco dos Santos (rua 10) - Rua Carlos Gois

Rua Francisco Ludolf (rua 11) - Rua Cupertino Durão

R. Com. Agostinho das Neves (12) e Acaraí - Rua José Linhares

Rua Domingos Moitinho (rua 13) - Rua João Líra

Rua Conde de Avellar (rua 14) - Avenida Bartolomeu Mitre

Praça Conde de Frontin - Praça Antero de Quental

Rua 15 (terminava na praça) - Rua General Urquiza

Rua Azevedo Lima (rua 16) - Rua General Venâncio Flores

Rua Miguel Braga (rua 17) - Rua General Artigas

Rua J.Antônio dos Santos (rua 18) - Rua Rainha Guilhermina

Rua Aristides Espínola (rua 19) - Rua Aristides Espinola

Rua Rita Ludolf (rua 20) - Rua Rita Ludolf

Rua 21 - Rua Jerônimo Monteiro

Rua Dr. Del Vechio - Avenida General San Martin

Av. Ataulfo de Paiva - Avenida Ataulfo de Paiva

Av. Delfim Moreira - Avenida Delfim Moreira

Rua do Pau e Sapé - Rua Dias Ferreira

Travessa do Pau - Rua Conde Bernadotte

Rua José Ludolf - Rua Humberto de Campos



Agora em 2018 ou em 2019
O RIO QUE MORA NO MAR fala e comemora.

Vivas aos 100 anos do Leblon!




Fotos: da internet

domingo, 15 de maio de 2016

Crônicas Cariocas de Todos os Tempos...Leblon


Vale somar com o post anterior sobre o Leblon


"O fascínio que sobre mim exercem a graça e a inteligência das reflexões de Elsie Lessa fazem-me, sempre que posso, reler suas histórias, e foi numa dessas vezes que reencontrei, recentemente, a descrição de um eclipse observado ao longo da avenida da praia, por onde vinha a cronista, em marcha lenta, desde "os confins do Leblon". 
Fixei-me, surpreso e enleado, nessa referência. Entrevi, no belo cenário descrito, uma nesga entre os restos de sol de um céu azul escuro e antigo, e enfiei-me de mansinho numa tarde qualquer de 1950. 
Era, com efeito, o Leblon um dos extremos da cidade. Pra lá do canal da Avenida Niemeyer, só iam pescadores que moravam no Vidigal e alguns aventureiros motorizados à cata de um sítio ermo para seus encontros furtivos na Barra da Tijuca, então, apenas, um acidente geográfico com mar batido e enorme areal coberto por vegetação rasteira e espessa - uma espécie de jibóia entrelaçada - que fazia as vezes de leito para um ou outro casal mais afoito. 
No mergulho proustiano que empreendi, vejo-me, à noitinha, cercado de garotos como eu, sentado na calçada da praia, sob a iluminação fraca de grandes luminárias guarnecidas de arabescos, encimando meia dúzia de pesados postes de ferro, tentando adivinhar o algarismo final da placa dos automóveis. De trinta em trinta minutos passava um deles, e iniciávamos outra rodada de apostas. A quietude e a ausência quase total de transeuntes, que pudessem desviar nossa atenção, estimulavam o hábito da conversação; os assuntos, sempre os mesmos, mas as opiniões, variadas. Ainda não havíamos sido cooptados e globalizados pela tal da mídia; a televisão engatinhava, era experimental. 1984, de Orwell, não chegara ao Brasil, pelo menos na atual versão tupiniquim. 
Raros como os postes, um homem aqui, um casal acolá podiam ser vistos, de vez em quando, a passeio. Mulheres sós, nunca. Às oito e pouco, recolhíamo-nos às nossas casas. Nós e todo o mundo, que o comércio há muito tinha cerrado as portas e cessava o movimento pelas ruas. O monumental silêncio só era quebrado pelo ranger dos bondes nos trilhos, o coro lamuriento da gataria ou pela voz de uns poucos notívagos a caminho do botequim. 
Antes de tornar-se via migratória e serventia da diáspora rastaqüera e point de agito de arrivistas, intelectuais de araque e oligóides, o Leblon foi um bairro muito bacana. 
Dois ou três botecos, entre o canal e o Jardim de Alá, ficavam abertos até as onze horas, se tanto, para atender motoristas de lotação, motorneiros e boêmios. Estes últimos, sempre os mesmos velhos conhecidos, reuníam-se para falar sobre futebol e outras amenidades, e relaxar um pouco antes de ir dormir. Crianças só entravam nos bares durante o dia, para comprar balas ou dar recados. 
Não existiam cadeiras nas calçadas, carros à porta com rádio ligado alto, brutos suarentos a urrar disputando lugares, nem risos histéricos de mulher. Não havia pressa; a cerveja era servida muito gelada e podia-se pedir, no máximo, ovo cozido e pão com mortadela ou queijo. A maioria ia bater papo, e quem quisesse comer, que fosse fazê-lo em casa (comida feita com banha de porco tirada de uma lata com desenhos de coqueiros verdes). Dispensavam-se exibidos profissionais. Claro que havia babacas, que esses pululam em todas as épocas, mas ainda não predominavam... pelo menos nos botequins. 
Nada dos incensados Bracarenses da vida (já falei da liberdade de escolha, e de que as individualidades não tinham sido totalmente dizimadas?). O Recarey, quando apareceu (por volta de 56, mais ou menos, - eu já freqüentava os botecos e lembro- me muito bem-) era comim do Três Vinte, onde é hoje a Pizzaria Guanabara, sede de um desses malfadados baixos que proliferam por aí, acolhendo maltas de romeiros automatizados, flutuando a um milímetro da discórdia. 
Naqueles tempos, as pessoas encontravam diversão nos bairros em que residiam e só transitavam por outro a caminho do trabalho ou em visitas ocasionais. O Leblon não servia de acesso a lugar algum, já disse, ficava nos confins: era o extremo sul, ponto de partida ou de chegada. Uma aldeia encantada, em grande parte por esse motivo. 
No mais, sem carros, baixos, visitantes desagradáveis, as ruas eram nossas e as desfrutávamos de pés descalços, casimirianamente, donos do pedaço, até porque os adultos gastavam os dias envolvidos nos afazeres domésticos, ou na cidade. Impunha-se ir à cidade para trabalhar, ir ao dentista ou médico, para negócios de qualquer natureza e para compras maiores. Perto de casa só havia quitanda, farmácia, barbeiro, padaria e botequim. Ah! Tinha, também, o armarinho, no qual mamãe mandava comprar retrós mercerizado, com a Joana, filha do dono e irmã do Nagib, que morreu novo, coitado, e muitos terrenos baldios, também, onde se jogava bola e caçava-se rolinha, para quem se lembra disso: de terra batida, bem carecas no meio e muito capim alto roçando os muros. Como ocorre às crianças, pareciam-nos imensos, verdadeiros Maracanãs. 
Anti-sociais ou gregários, nem pensar, já que todos se conheciam muito bem. Tímidos, abusados, é certo que os havia; distribuíam-se por turmas, geralmente conhecidas pelos nomes das ruas. Algumas dessas ruas guardavam ainda suas designações indígenas originais, que, aos poucos, foram substituídas pelos nomes dos generais sul-americanos, cuja bravura livrou-nos da invasão dos marcianos e de outras graves ameaças. Uma briguinha, vez por outra, logo seguida de ruidosa confraternização, animava uma saudável rivalidade entre aquelas corriolas. 
Graças à inexistência de attaris e tamagotchis, jogava-se bola o dia inteiro. O resto do dia inteiro era curtido na praia. Mas isso, a convivência entre os ricos e os pobres da Praia do Pinto, num bairro em que preponderava a mais genuína classe média, e otras cositas mas são assuntos que demandam novos espaços, novas crônicas. 
Por enquanto, vou matando a saudade, reconfortando-me com uma primeira dose dessas coisas velhas e ricas que tive a ventura de possuir e testemunhar. Acho que precisava olhar para trás e veio-me na hora certa. Não agüento mais consumir essa vida que não pára e, ao mesmo tempo, não leva a nada. Angústia por angústia, prefiro a sofreguidão que possam causar-me essas recordações à trama diabólica que me atormenta e atrela a esse cometa estúpido, obstinado, que me carrega por onde não quero ir."

( Reprodução do livro O Antigo Leblon – uma aldeia encantada , escrito em 1999, por Rogério Barbosa Lima)



sábado, 14 de maio de 2016

Praia do Leblon em três tempos



O Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea e a orla Ipanema /Leblon vista do Arpoador, em 1952

Rio de Janeiro (RJ) - [década 1950 - 1960] - Rio Antigo - Praia do Leblon - Avenida Vieira Souto - Foto Arquivo / Agência O Globo - Neg.: 32418 Agência O Globo

A praia do Leblon nos anos 1960



Final da Praia do Leblon, onde hoje tem o posto 12 e a carrocinha da Geneal, nos anos 1970


O comum nos três tempos é uma praia sem a inconveniência de barraqueiros e uma praia do bairro.



segunda-feira, 23 de junho de 2014

Crônicas cariocas de Todos os Tempos... no Leblon, um inverno quase glacial

Praia do Leblon com névoa ao amanhecer: rigoroso inverno inspirou música
Foto: Fernando Quevedo / Agência O Globo


"Em junho de 1994, enquanto a seleção brasileira de Romário e Bebeto dava seus primeiros passos para levar o tetracampeonato na Copa do Mundo dos Estados Unidos, o Brasil inteiro era invadido por uma onda de frio poucas vezes vista. 
O Sul do país, varrido pelo minuano (vento capaz de congelar chimarrão dentro da cuia), batia recordes negativos de temperatura um dia após o outro. O Rio de Janeiro, que mesmo no inverno dificilmente registra temperaturas em um único dígito, não ficava atrás. No dia 28 de junho daquele ano, os termômetros cravaram 6,7 graus Celsius no Alto da Boavista. Com a proximidade do mar, a sensação térmica beirava o zero grau.  
Um frio do cão.  
É, até hoje, a mais baixa temperatura registrada na cidade desde que, num longínquo dia de 1926, o frio chegou a inacreditáveis 4,5 graus no Campo dos Afonsos — mas isso pode ser só lenda urbana. O fato é que, em junho de 1994, o inverno do Leblon era mesmo quase glacial. 
Foi naquele ano que a gaúcha Adriana Calcanhotto botou nas lojas de disco (é, elas existiam naquela época) “Fábrica do poema”, CD que continha “Inverno”, a tal música do verso “o inverno no Leblon é quase glacial”. Não era só. O disco tinha outras bem sacadas investidas no cotidiano da cidade, como “Morro dois Irmãos” e o clássico “Cariocas”. Vendeu 130 mil cópias. “Inverno” — que falava sobre solidão, abandono e amores à deriva — virou uma espécie de retrato de um bairro em dias gelados... (na verdade, a letra é do Antônio Cícero). 
Vinte anos depois,o Leblon — que nesse inverno deve ter temperaturas mínimas em torno de 18 graus ... mudou à beça...
Em junho de 1994, o Brasil estava prestes a ganhar o real como moeda, lançada oficialmente em 1º de julho daquele ano. De lá pra cá foram três presidentes da República, três governadores e três prefeitos diferentes. Durante esse tempo, Manoel Carlos escreveu seis novelas para o horário nobre da TV Globo. A primeira delas, “Por amor”, lançada em 1997, e a última, “Em família”, ainda está em cartaz. Todas tinham Helena como protagonista, a família como tema e um Leblon idealizado como cenário. A mistura de ficção e realidade jogou os preços para o alto. Todo mundo quer morar no bairro da novela, viver a vida da novela. Em 20 anos, roubou definitivamente de Ipanema o título de mais caro da cidade. O metro quadrado ali sai, por baixo, a R$ 24 mil. 
A valorização se estendeu às ruas do bairro, que viram boa parte do comércio tradicional ser substituída por lojas de grife e, sobretudo, por restaurantes sofisticados, a maioria concentrada na Rua Dias Ferreira. Estão ali, entre outros, o CT Boucherie, o Q, o Zuca e o Quadrucci. A rua dos restaurantes recebeu recentemente o reforço também de três novas sorveterias. Todas no mesmo estilo 
...Sorvete é sorvete em qualquer tempo...  e o inverno no Rio é camarada. 
O conceito de comida com grife tomou conta do bairro de vez. Está certo que o Tio Sam, o Azeitona, o Jobi, o Alvaro’s, o Degrau, o Ferreira, a Pizzaria Guanabara e o La Mole continuam onde sempre estiveram, mas agora têm a companhia de casas que, de um jeito ou de outro, trataram de colocar um pouco de espuma (e trufas, e reduções e infusões, e o escambau) na tradicional gastronomia de botequim. 
Mesmo entre as novidades, há exceções. 
...Chico, do Chico & Alaíde, é exemplo vivo das mudanças do bairro ao deixar, em 2009, o posto de garçom mais querido do Bracarense  para, ao lado da rainha das panelas Alaíde, montar seu restaurante....
...Casas tradicionais, como Garcia & Rodrigues, Carlota e Real Astoria, foram riscadas dali. Até o Cinema Leblon, um dos últimos cinemas de rua da cidade, parece estar com os dias contados. De modo geral, o mapa do Leblon, nos últimos tempos, anda difícil de desenhar. As obras para a ampliação do metrô mudaram o trânsito, inverteram mãos e fecharam ruas. A principal delas, a Ataulfo de Paiva, virou canteiro de obras. Tem tapume para tudo que é lado. 
Com os transtornos, muitas lojas não resistiram à fuga dos clientes e fecharam as portas. Outros migraram para os shoppings, como o Leblon, inaugurado em 2006. As meninas do bairro — que em 1994 misturavam os vestidinhos da Cantão com acessórios roubados do seriado “As patricinhas de Beverly Hills” e as inevitáveis camisas xadrez de flanela — agora vestem Farm, Ecletic e roupinhas de brechó. E — caramba, isso, sim, é novidade — vão à praia ali mesmo. 
A Praia do Leblon, antes reservada às famílias e crianças, agora é ocupada pelas mesmas pessoas que, um dia, já passaram pelo Posto 9, pelo Coqueirão e pelo Country. O tradicional Baixo Bebê passou a ter a companhia das barracas que servem cerveja, caipirinha e até... espumante...
...acreditar que o inverno está começando no Leblon... 

... Inverno? Frio? Como assim? "