Em uma das esquinas do charmoso Leme, ao fundo, bem ao fundo, avista-se uma casa que poderia servir de protagonista para um enredo sobre arquitetura, sobre as várias gerações de uma família e sobre o mercado imobiliário do Rio.
E serve. O casarão foi escolhido como cenário principal da comédia “Vendo ou alugo”, que estreou este mês em circuito nacional.
Trata-se da primeira casa de concreto armado do Brasil, construída em 1905, e está dividida hoje em três confortáveis apartamentos dúplex.
Vendida para um belga, em 1942, continua nas mãos da família dele, sendo que a matriarca local é sua filha, Danielle Carlier Pirmez.
Enorme e suntuosa, com uma longa escadaria até a porta principal e uma coluna imensa em formato piramidal. E na parte interna da casa de estilo eclético está o mais interessante: cômodos espaçosos, invadidos pela luz de fora, que realça móveis de mogno e jacarandá dos anos 1940 e 1950.
Aliás, a maioria dos móveis veio da Bélgica, como a sala de jantar que é toda original, com mesa, lustres, cadeiras e pratos que levam o brasão da família.
Construída por um dinamarquês que queria testar o concreto armado no Brasil, a ideia era ter a floresta como quintal e a vista da praia como varanda — o que deu certo... por um tempo. Emily conta que, com a verticalização de Copacabana, entre os anos 40 e 50, a vista foi diminuindo e os prédios aumentando em quantidade e altura.
Hoje, sufocada por essas construções e com a frente quase fechada por dois grandes prédios, sua única ligação para a rua é um estreito corredor que passa pela garagem do edifício vizinho. Foi em meio às mudanças no cenário imobiliário do Rio e durante a Segunda Guerra que o dono quis vender às pressas o imóvel, e assim, o diretor de um banco, o belga Daniel Carlier, comprou e instalou-se lá com seus seis filhos.
— No primeiro andar, havia sala de música, biblioteca e cinema, que não era comum na época. Eu e Emily casamos aqui — conta Danielle, sentada em uma das duas poltronas costuradas à mão, vindas da Bélgica, que decoram a sala.
— Fizemos também muitas festinhas de “twist” aqui — brinca a diretora de arte de “Vendo ou alugo”.
Apesar de várias mudanças sofridas dentro e fora do imóvel, alguns detalhes mantém a essência da casa, como o banheiro de onde, do chuveiro, ainda se vê a parte verde do morro. Além, é claro, do notório requinte deste casarão que expressa bem o Rio de Janeiro, de ontem e de hoje, e suas nuances.
Antes da chegada da UPP, valia entre R$ 6 milhões e R$ 7 milhões, mas agora, apesar de sufocada por prédios vizinhos e pelo crescimento, aos fundos, de casas dos morros Chapéu Mangueira e Babilônia, já recebeu ofertas de até... R$ 18 milhões. Com a pacificação e os grandes eventos, a casa voltou a se valorizar. Alguns membros da família querem vendê-la inteira, outros só em parte e há quem queira deixar como está. Então, vai ficando assim.
É o mercado imobiliário do Rio.
Por dentro do casarão no Leme

Foto atual, cedida por Ivo Korytowski

Sala de jantar de um dos dúplex conserva peças originais
de quando a família Carlier se mudou para lá, nos anos 40
de quando a família Carlier se mudou para lá, nos anos 40
Móveis em mogno e jacarandá e retrato da primeira matriarca, Emily Carlier

Foto do patriarca Daniel Carlier ao centro, os filhos à esquerda
e o casamento de sua filha, Danielle, à direita

Emily Pirmez, diretora do filme “Vendo ou alugo”, na sacada do dúplex onde vive,
com algumas casas de comunidades vizinhas ao fundo

Um dos muitos quartos da casa foi usado nas gravações do filme “Vendo ou alugo”
e também recebe hóspedes

Vista de dentro do chuveiro de um dos banheiros da casa

Jardim da casa ladeado por prédios e que já foi cenário na minissérie Maísa

Vista de dentro da casa mostra crescimento imobiliário na região.
Antes, era possível ver o mar deste ângulo
Fotos: Simone Marinho / Agência O Globo
O TRAILER DO DIVERTIDO FILME VENDO OU ALUGO
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirDeveria ser tombado pelo patrimônio histórico, é uma residência impactante
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