terça-feira, 9 de julho de 2013

Aizita Nascimento...a carioca que revolucionou o Maracanãzinho



Todos os anos, entre maio e junho a cidade se envolvia e torcia por sua representante das passarelas.
Era tempo de desfiles no Maracãzinho. Era tempo de Miss Guanabara!

Assim, naquele junho de 1963, entre mais de duas dezenas de concorrentes, que desfilavam  oito jovens  eram anunciadas  finalistas do concurso Miss Guanabara 1963, dentre elas, a mulata Aizita Nascimento. Aizita Nascimento , enfermeira formada, era a representante do Renascença Clube.




O Renascença Clube foi um clube fundado em 1951, por um grupo de 29 negros pertencentes à classe média, cansados das discriminações sofridas em outros clubes e agremiações do Rio de Janeiro. Criado como um espaço social  e cultural próprio, o Renascença nasceu numa casa antiga, pequena, com grande quintal arborizado, localizada no bairro do Méier , na Rua Pedro Carvalho e mais tarde se mudou para o atual endereço, Rua Barão de São Francisco.

O público daquele sábado ,que lotava o Maracanãzinho - estimado em 25 mil pessoas - queria o título para Aizita Nascimento e gritava ... QUEREMOS A MULATA !

Vi tudo isso pela televisão. Tinha 10 anos. A transmissão pela TV do concurso de miss ía ao ar pela antiga  TV Tupi.

Mas o resultado foi decepcionante. Quando foi anunciado , um choque:  Aizita Nascimento em ...SEXTO lugar.
 Miss Fluminense , Vera Lúcia Maia e  Miss Clube Riachuelo, Eliane Silveira, tinham empatado no primeiro lugar  com 50 pontos.

E Vera Lúcia Maia ganhou no desempate.
BAITA SURPRESA!


Muitas vaias, inconformismo e constrangimento, com a continuação do grito QUEREMOS A MULATA !

Aliás, QUEREMOS A MULATA,  é o título da crônica do jornalista Henrique Pongetti, na revista MANCHETE, publicada na edição de 6 de julho de 1963, sobre o acontecido.

Voilá...
"Como quase todo mundo sabe, fiz parte dos olheiros que escolheram a Miss Guanabara deste ano. Doce tarefa! Sobretudo muito melhor do que fazer parte do júri para eleger um daqueles gigantes bolotudos, de músculos pulando fora do corpo, tipo Mister Universo, nos quais a robustez chega a parecer um abuso contra a natureza, e dos quais as próprias mães que os tiveram pequeninos, iguais aos outros, devem levar constantes sustos.

Mas se doce é a tarefa, nem por isso deixa de ser difícil. Entre seis mulheres de uma beleza equivalente, você, juiz, fica num drama de consciência terrível. Tem vontade de escrever o nome delas em papelinhos e de fazer o sorteio. Saiu a Riachuelo no lugar da Flamengo? Ou a Madureira no lugar da Fluminense ? Quem manda não haver uma esmagadoramente bela para ganhar à primeira vista e deixar sem sentimento de culpa o júri e sem pretexto de vaias a torcida?

Acresce que a beleza, para a maioria do povo, não obedece a cânones: é uma opinião, ou melhor dizendo, uma sensação. Se tiver quadris bem roliços, se estiver mais para a tanajura do que para a Miss Universo, ganhará aplausos frenéticos ao longo de toda a passarela. O público não quer Donas Estátuas: quer Donas Boas.

É isso mesmo, meu amigos. Eu sou um esteta., vi de perto a Vênus de Milo, estou em excelentes relações com Fídias e outros “ cobras” da estatuária, sei de cor as medidas julgadas ideais para um corpo feminino, tomei banho de sol com as mais certinhas de Saint-Tropez e de Portofino, mas o homem da arquibancada do Maracanãzinho não tem nada com isso. Se eu aprovo a cara, ele aprova a coroa. Jogamos com a mesma moeda de forma inconciliável: numa face a minha Vênus, na outra face a sua alucinante tanajura.

- É bonita, não resta dúvida, mas repare como é defeituosa de quadris.
- Defeituosa? O senhor acha defeito aquela generosidade de Deus? Então viva o defeito e fique com aquelas achatadas, aquelas tábuas de passar a ferro!
- Um momento: o senhor conhece os cânones da beleza mulata?

Havia uma mulata do Renascença Clube na passarela do Maracanãzinho. Uma cara bonita, com um sorriso desses que dão vontade de pegar a mulher no colo e sair com ela sorrindo entre filas de angustiados e de vencidos. Um sorriso para cartazes de campanhas contra a depressão, pró planos trienais, ou muito mais. Contagioso, sedativo, euforizante. Eu votei nela para uma das oito finalistas. Pelo seu sorriso, pela sua maneira de olhar deixando mel na menina dos olhos da gente, pela sua humanidade em não se sentir diferente das outras vinte e três por ter a pele mais escura.

Não poderia vencer o primeiro lugar porque havia outras de corpo mas bem feito e de rosto igualmente bonito, e certamente mais harmonioso. Era um pouco baixa e pecava também por aquele excesso característico da acima referida espécie de formigas. Que pensava o povo a respeito?

Ora, o povo! O povo acabou, como sempre, que num caso desses, antes tanajura do que tábua de passar a ferro, e esquecendo seus clubes e suas candidatas passou a pedir em coro o primeiro lugar para ela: - Queremos a mulata ! Queremos a mulata! Queremos a mulata!

Tem, havido vários queremos na história deste país, inclusive o queremos Vargas, mas queremos, assim, inflamado e imperativo, duvi-d-o-dó. Era o grito do instinto, do sangue, e, em o percebendo, a mulata cada vez apurava mais o dengo e o ritmo do molejo, aumentando atrás de si as palmas que conquistara à sua frente, gloriosa na cara e ultra gloriosa na coroa.

Ah, meu caro Embaixador Lincoln Gordon ! Que pena não estar ao meu lado, na mesa julgadora, um daqueles racistas ferozes dos Estados Unidos do Sul do seu país, para ver a escurinha vencendo vinte três brancas diante do júri extra-oficial de uns quinze mil homens, quase todos brancos! De toda aquela noite eu não guardo tanto a silhueta esportiva da filha de Nora Ney, a vencedora, como guardo o sorriso da mulatinha, símbolo do nosso anti-racismo. Da nossa cristianidade igualitária. E em verdade vos digo que, nesta terra de gente igual pela alma, e não pela pele, a humanidade verá um dia ser proclamada mais bela do mundo uma negra cor de ébano ou uma mulata cor de canela. A musa de um Ataulfo, a musa de um Jamelão, pela vontade de Deus."

Aizita foi capa de muitas revistas, ingressou na carreira artística e também participou de jornalísticos na TV. 




No programa ALMOÇO COM AS ESTRELAS, de Aérton Perlingeiro, dividindo a mesa com Hebe Camargo, Leonardo Vilar e o próprio Aérton
 


Ao lado de Grande Otelo,  participou do grande sucesso  da época, o programa “Times Square”, da TV Excelsior, no quadro SAMBA DE BRANCO (composição de João Roberto Kelly)



Aizita e Grande Otelo
na entrada final do SAMBA DE BRANCO





No final dos anos 1980, Aizita Nascimento  passou a viver em São Paulo, trabalhando como enfermeira.

No próximo dia 14 de julho , a carioca Aizita Nascimento completará 74 anos.


Fontes:
acervo de revistas Manchete,
site Passarela Cultural
,
Clube Renascença


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