domingo, 29 de novembro de 2009

Estrela a reluzir na tarde...

A primavera no Rio tem cara de verão.

Mas a natureza nos diz, apesar dos 40ºC, que ainda não chegamos lá, embora com dias quentes, praias cheias, horário de verão e por do sol lá pelas sete, quase oito.

No Jardim Botânico, nesse mês de novembro vemos jambeiro, mulungu, ninfeia, jasmim, e passeamos entre seus vermelhos, laranjas, azuis, esperando as begônias de dezembro. Nas ruas vem chegando o final da floração dos flamboyants, rumo a seu término, em janeiro.

É primavera!

Aliás, essa frase foi dita uma vez, lá no início da década de 60 por Vinícius de Moraes a Carlos Lyra, e acabou título de uma das mais belas canções dos dois.

A história, com certeza , é ótima, já foi contada muitas vezes, mas vale repetir. Certa vez Carlos Lyra levou um gravador com mais de dez músicas, pro Vinícius por letra. Sem receber notícia por algum tempo, resolveu voltar e saber do poetinha o que havia acontecido, se acaso não tinha gostado. Para surpresa de Carlos Lyra, Vinicius descobrira, naquela sequência musical, uma peça de teatro. Assim nasceu Pobre Menina Rica, a história de um mendigo-poeta que se apaixona por uma menina-rica-zona-sul.

Carlos Lyra, em seu site, conta com propriedade e bom humor, como Vinícius - e sua verve no diminutivo - lhe diz a idéia da história da peça. Reproduzo, em parte, aqui.
"- ...um terreninho baldio carioca. Do lado do baldio tem um edifício de apartamentos e lá na cobertura mora a Pobre Menina Rica! E o terreninho, por sua vez, é habitado por uma comunidade de mendigos...”
“De mendigos, Vinícius?” - interrompi.
Logo na minha comédia - pensei - é que ele vai botar mendigos!”

O poeta me tranqüilizou:

- “Não se preocupe, não, parceirinho. São uns mendiguinhos simpaticíssimos, incrementadíssimos e superorganizados, viu? ...liderados por um Mendigo-chefe...um crioulo todo grande, todo gótico, dentadura cintilante e um pé quarenta e quatro. A outra perna é uma perninha de pau, mas que em nada o envalida nem para o amor nem para o samba...

...Então parceirinho, vai chegando naquela comunidade um novo mendigo. É o Mendigo-poeta e ele é o galã da história. Mas já vai encontrando dificuldade com um outro mendigo que habitava previamente a comunidade: o Mendigo-ladrão ( Num-Dô), ou melhor, oadministrador dos bens da comunidade. Os dois entram em conflito, mas o Mendigo-poeta deu fim no ladrão.
Com uma canção, parceirinho ....

...No final de um belo dia, chega na comunidade outro mendigo! Era a explosão demográfica. Trata-se de um mendiguinho tão miserável que chega a inspirar pena nos outros mendigos. Ele é um Pau-de-Arara chegado do Ceará...
...Um dia, o Mendigo-poeta está lá zanzando pelo terreninho baldio, quando, de repente, olha para o alto do edifício e se depara com a Pobre Menina Rica na cobertura. Lá estava ela, na
sacada, linda de morrer. Ah! Aquele mendiguinho se apaixonou perdidamente por ela.”

Vinícius fez uma pausa.
- “Mas aí, sabe, parceirinho, aquela Pobre Menina Rica também se apaixonou pelo Mendigo poeta”.

Não pude me conter:
- “Peraí, Vinícius. Você acha que as pessoas vão
acreditar que uma menina rica se apaixone por um mendigo?”
-" E por que não, parceirinho?
É primavera!”
...

A primeira a cantar Primavera foi Nara Leão, depois a ouvimos nas vozes de Alaíde Costa, Leny Andrade, Silvinha Teles, Claudete Soares, dentre tantas outras belas interpretações, inclusive instrumentais.
Pois é... estou ouvindo exatamente agora... Primavera. Daí esse post.
Nesse dia de primavera , o som (clique e ouça) dessa canção é realmente estrela a reluzir na tarde...


O meu amor sozinho
É assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste se sentir saudade
É que eu gosto tanto dela
Que é capaz dela gostar de mim
Acontece que eu estou mais longe dela
Que da estrela a reluzir na tarde
Estrela, eu lhe diria
Desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver nascer a primavera
Para não morrer
Não há amor sozinho
O meu amor sozinho
É assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste se sentir saudade
É que eu gosto tanto dela
Que é capaz dela gostar de mim
Acontece que eu estou mais longe dela
Que da estrela a reluzir na tarde
Estrela, eu lhe diria
Desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver nascer a primavera
Para não morrer
Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade
É que o meu amor é tanto
É um encanto que não tem mais fim
E no entanto ela não sabe que isso existe
É tão triste se sentir saudade
Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ah! quem me dera eu pudesse ser
A tua primavera e depois morrer
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade
É que o meu amor é tanto
É um encanto que não tem mais fim
E no entanto ela não sabe que isso existe
É tão triste se sentir saudade
Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ah! quem me dera eu pudesse ser
A tua primavera e depois morrer

4 comentários:

  1. Beth
    como sempre excelente
    sergio

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  2. Ah, Beth, o seu blog é tão bom... Parabéns renovados!
    Bjs
    VAmélia

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  3. Pedro Calmon Filho1 de dezembro de 2009 09:12

    Elizabeth,
    Obrigado por mais este seu email.
    E fiquei contente em ver que a foto dos onibus eletricos foi aproveitada.
    Quanto aop edificio Brasilia, no qual vc tinha aulas de piano, lembro-me que quando criança acompanhava meus pais a um dentista que tinha consultorio em varias salas de um andar naquele edificio.
    Hoje todos estão mortos. Meus pais e o dentista.
    Mas o edificio continua lá, firme e forte, e muito valorizado.
    E nós por aqui ainda, apreciando esta primavera com cara de verão.
    Abraços e bom domingo. Paz e bem.
    Pedro

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  4. OI amiga
    Você que é PHD em Rio de Janeiro
    Bjs
    Dinéa

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