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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

29 de setembro, morte de Machado de Assis

 

Passava das três horas da manhã do dia 29 de setembro de 1908 quando Machado de Assis deixou essa vida e entrou para a história como o maior de todos os escritores brasileiros. Morreu tranquilamente, aos 69 anos de idade e cercado de amigos queridos na casa de Cosme Velho no Rio de Janeiro.
O velório ocorreu na Academia Brasileira de Letras e Rui Barbosa proferiu o discurso fúnebre.



notícia do Jornal Do Brasil

“Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o desenlace de sua enfermidade (…) Na sala de jantar, para onde dizia o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras – ontem meninas que ele carregara no colo, hoje nobilíssimas mães de família – comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados em álbuns caprichosos.”

escreveu Euclides da Cunha, amigo que acompanhou Machado até o último momento.


Uma curiosidade:


Após a morte de Machado de Assis, todos os seus objetos foram inventariados. O que mais chama atenção na lista de bens avaliados é a grande quantidade de móveis velhos ou em mau estado, o que provavelmente prova que ele não tinha lá muito apego a bens materiais.


O espólio do escritor:

"Avaliação – 

Móveis existentes no prédio à rua Cosme Velho, n. 18: 

1 Mobília de sala de jantar de vieux chène, constante de mesa elástica com 5 tábuas; 

12 cadeiras; 2 étagères, 1 trinchante e 1 mesinha: 500$000; 

2 Dunkerques de jacarandá, com espelho 100$000; 1 Grupo estofado, velho; (3 peças): 50$000; 1 Divã estofado (mau estado) 36$000; 

1 Dito idem idem 30$000; 

10 Cadeiras de bambu 30$000; 

1 Conversadeira estofada (velha) 60$000;

 2 Cadeiras de braço, estofadas, em mau estado 20$000; 

1 Cadeira de balanço, idem 10$000; 

4 Cadeiras de jacarandá 32$000; 

1 Lavatório de canela, com espelho 80$000; 

1 Guarda-vestidos vinhático, muito velho 50$000; 

1 Guarda-casacas com frente de madeira (muito velho) 60$000; 

1 Cômoda de canela (mau estado) 30$000; 

1 Armário pequeno (canela) 30$000; 

1 Aparador vinhático, com pedra mármore (mau estado) 20$000; 

1 Guarda-comida de vinhático, em mau estado 5$000;

 4 Cadeiras de vime, em mau estado 20$000;

 1 Divã de palhinha, em mau estado 40$000; 

1 Grupo de 2 cadeiras de balanças conjugadas, mau estado 10$000; 

1 Porta-chapéu idem 10$000; 

1 Cômoda com pedra mármore e espelho, mau estado 10$000; 

1 Cômoda de vinhático, velha, em mau estado 5$000; 

1 Cama de ferro nova 30$000; 

1 Lavatório com pedra mármore em péssimo estado 5$000; 

1 Sofá-cama, austríaco, em mau estado 5$000; 1 Secretária de vinhático 30$000; 

1 Cadeira para secretária 10$000; 

3 Armários envidraçados 30$000;

 1 Estante de madeira 5$000; 

2 Estantes de ferro 4$000; 

1 Relógio de parede 15$000; 

1 Jardineira de metal 15$000; 

1 Espelho oval com guarnição dourada (estragado) 15$000; 

2 Quadros a óleo (paisagem – cópias) 20$000; 

1 Quadro a óleo (marinha) idem 10$000; 

1 Quadro a óleo (figura) original de Pontorn 30$000; 

2 Aquarelas de Pacheco 10$000; e Gravuras coloridas (paisagem) 20$000; 

20 Quadros com gravuras diversas 40$000; 

1 Serviço de lavatório (incompleto) 15$000; 

1 Serviço de christofle constando de 1 colher para sopa, 1 pá para peixe, 4 facas grandes, 4 facas pequenas, 13 garfos grandes, 12 garfos pequenos, 5 colheres para sopa, 7 colheres para sobremesa, 11 colheres para chá (58 peças) tudo por 70$000; 

1 Colher de metal 2$000; 

3 Esteirinhas de palha 14$000; 

1 Serviço de granito, constando de 1 terrina, 1 saladeira, 2 travessas, 1 prato coberto, 1 molhadeira, 1 fruteira, 19 pratos rasos, 1 prato fundo, 5 xícaras, 3 canequinhas para café, 10 pires avulsos, tudo 25$000; 

12 copos de vidro (1/2 cristal) 10$000; 8 cálices de cores (vidro) 6$000; 

7 cálices cristal para licor 5$000; 2 Garrafas cristal para licor 6$000; 

2 Garrafas vidro para vinho 4$000; 

1 Compoteira de vidro 1$000; 

2 Fruteiras de vidro 2$000; 

1 Fruteira vidro de cor 3$000; 

2 Copos vidro de cor 1$000; 

1 Bandeja metal (mau estado) 1$000; 

1 Cesta de metal 2$000; 

2 Bules e 1 açucareira metal (em mau estado) 5$000; 

4 Taças de cristal para champanhe 5$000, 

2 Toalhas e 4 guardanapos 14$000; 

1 Lote de roupas de uso 2$000.

Livros – 

400 volumes encadernados de diversos autores 600$000; 

600 volumes em brochura de diversos autores 300$000;

 400 Folhetos de diversos autores 120$000.

2:718$000 – Importa a presente avaliação na quantia de dois contos, setecentos e dezoito mil réis."


Uma última imagem


Possivelmente a última foto de Machado em vida.

Nessa nova foto, Machado aparece de forma muito diferente da imagem tirada por Malta: de pé, altivo, com a mão na cintura e um semblante sério, elegantemente vestindo um fraque. 

A foto foi publicada na revista argentina “Caras y Caretas” em edição de 25 de janeiro de 1908, e sua descoberta se deu praticamente por acaso. O publicitário paraense Felipe Rissato foi pesquisar o acervo do site da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional de España atrás de uma caricatura do Barão do Rio Branco – e acabou se deparando com a imagem de Machado em uma reportagem.

 


terça-feira, 20 de julho de 2021

140 anos da publicação de "Memórias póstumas de Brás Cubas"

 


Em 1881, 
era publicado o livro
 "Memórias póstumas de Brás Cubas", 
de Machado de Assis.




É considerada uma das principais obras do autor. Foi desenvolvido, entre março a dezembro de 1880, como folhetim para a Revista Brasileira e editado no ano seguinte como livro pela então Tipografia Nacional.






A 1ª edição está disponível na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - USP, nesse link.


sábado, 30 de janeiro de 2021

Curiosidades cariocas...Machado de Assis

 

No dia 30 de janeiro de 1971, 
há 50 anos...


 recorte do jornal O GLOBO



sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O ESPELHO: revista carioca e semanal do século XIX

 

O Espelho 
é um exemplo de periódico que, 
apesar de não ter circulado 
por mais de seis meses, 
marcou a sua época. 

capa da edição n° 1


Foi editado sob a responsabilidade de F. Eleuterio de Souza, no Rio de Janeiro, sempre aos domingos, a partir de 4 de setembro de 1859, pela Typographia de F. de Paula Brito. 

Seu último exemplar, o de número 19, foi impresso pela Typ. Commercial de Regadas, a 8 de janeiro de 1860. Nele pode ser encontrado um panorama da vida cultural do Segundo Reinado, em parte graças a sua equipe de colaboradores, entre os quais Machado de Assis (1839-1908), Moreira de Azevedo, Silva Rabello, Macedo Junior (José Joaquim Candido de Macedo Junior), Justiniano José da Rocha e, eventualmente, Casimiro de Abreu (1839-1860)..

É na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, que se encontram os originais desta coleção. 

O seu primeiro editorial, entitulado “Prospecto”, faz uma reflexão, sobre a imprensa, esta “grande seita fundada por Guthemberg”. Um subtítulo extenso e abrangente quer mostrar que a revista tem finalidade.


“Variada, mas de uma variedade que deleite e instrua, que moralize e sirva de recreio quer nos salões do rico, como no tugurio do pobre. Para este fim temos em vista a publicação dos romances originaes ou traduzidos, que nos parecem mais dignos de ser publicados, artigos sobre litteratura, industria e artes, poesias, e tudo quanto possa interessar ao nosso publico e especialmente ao bello sexo. Tambem publicaremos o que de novo apparecer sobre modas e opportunamente daremos os mais modernos figurinos, que de Paris mandaremos vir, e bem assim retratos e gravuras.”


É no segundo número do periódico que Machado de Assis (1839-1908) passa a ter sua primeira coluna fixa, a “Revista de theatros”, onde apresenta críticas teatrais com a assinatura de M.-as. Nas páginas d’O Espelho aparece um poema de sua autoria intitulado “A. D. Gabriella da Cunha”, uma atriz portuguesa. 

Na edição de n° 10, 
pesquisa recente encontra um texto, 
considerado inédito, de
 Machado de Assis, que fala sobre D. Pedro II

Apesar de não assinado, por que afirmar que o texto é de Machado de Assis?
São apontadas características marcantes do estilo da escrita, inclusive a ironia fina de Machado e também o fato  da localização do texto na edição. Sempre foi por ali que os textos de Machado foram publicados.

Vale ler e saborear!













sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Crônica Carioca de Todos os Tempos... Machado e a Política


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Machado de Assis e o jogo de xadrez



21 de junho 
comemoramos 
os 180 anos 
de 
MACHADO DE ASSIS


Resolvi destacar a data contando uma curiosidade sua, pouco divulgada: Machado de Assis e sua paixão pelo jogo de xadrez

"Meu bom xadrez, 
meu querido xadrez...
Tudo pode ser, 
contanto que me salvem o xadrez." 


Machado de Assis. A Semana. 12/1/1896 Vol. 3, pag. 84.


Machado de Assis foi um apaixonado do jogo de xadrez. Seu interesse pelo jogo levou-o a ocupar posição destacada nos círculos enxadrísticos do tempo do Império.

Mantinha correspondência com as seções especializadas dos periódicos da época; compunha problemas e enigmas, e, indo mais além, participou do primeiro torneio de xadrez efetuado no Brasil, realizado em 1880, com a participação dos seis mais destacados amadores residentes no Rio, teve como local da disputa a residência de Artur Napoleão -  o grande pianista português influenciador da paixão machadiana pelo jogo -  na Rua Marquês de Abrantes.


Em 1868 já frequentava Machado de Assis o Clube Fluminense, com a finalidade de jogar xadrez, conforme confessa em uma de suas crônicas reunidas na coleção de A Semana. Anos mais tarde praticava no Grêmio de Xadrez, que funcionava em cima do Clube Politécnico, na rua da Constituição, nº 47. Nesse salão realizou-se o match contra Artur Napoleão, que lhe deu partido do cavalo da dama e, ainda assim, venceu a disputa por 7 a 2.

O interesse de Machado de Assis pelo jogo prolongou-se por muitos anos, conforme revelação constante da correspondência com Joaquim Nabuco que, em 1883, lhe enviava de Londres retalhos de jornais com transcrições de partidas, atendendo ao pedido que lhe fora feito.

Em 4 de janeiro de 1882 fundava-se no Rio o Clube Beethoven.  Por lá Machado passou a exercer na diretoria funções de bibliotecário. Esse Clube era uma sociedade restrita, que fazia os seus saraus íntimos em uma casa na Rua do Catete, nada se sabendo cá fora senão o raro que os jornais noticiavam.

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convite do Clube Beethoven


Pouco a pouco se foi desenvolvendo, até que um dia mudou de sede, e foi para a Glória, Cais da Glória, 62.  O salão do fundo, tão vasto como o da frente, servia aos concertos, e enchia-se de uma porção de homens de várias nacionalidades e ocupações.

"O nome do Clube cresceu, entrou pelos ouvidos do público; este, naturalmente curioso, quis saber o que se passava lá dentro. Mas, não havendo público sem senhoras, e não podendo as senhoras penetrar naquele templo, que o não permitiam as disciplinas deste, resolveu o Clube dar alguns concertos especiais no Cassino.
"Mas tudo acaba, e o Clube Beethoven, como outras instituições idênticas, acabou. A decadência e a dissolução puseram termo aos longos dias de delícias".
Machado de Assis. A Semana. Vol. 3, 5 de julho de1896.


A qualidade do jogo de Machado, examinada através do estudo de suas partidas, e a facilidade com que solucionava os problemas publicados na imprensa dão-nos uma idéia lisonjeira de sua força como jogador.

Imagem relacionada

O pianista português era aficionado fortíssimo. Dividiu, durante muito tempo, com João Caldas Vianna, filho do Visconde de Pirapetinga, o reinado do xadrez entre nós. Publicou, em 1898, uma coleção de problemas, seus e de outros, sob o título de Caissana Brasileira, redigiu várias seções especializadas em revistas e no Jornal do Commercio e possuía uma fabulosa biblioteca de livros técnicos, em vários idiomas, incluindo obras raríssimas hoje disputadas a peso de ouro. Para ajudar as pesquisas dos amadores publicou, em anexo ao seu livro, o catálogo minucioso dessa coleção. Já idoso, continuava a compor problemas, muitos dos quais podem ser apreciados em várias edições do Almanaque Garnier. O Traité Manuel des Échecs, de Henri Delaire, em sua edição de 1930, ainda transcreve uma de suas melhores composições.

Enfrentando o mestre Artur Napoleão, ainda que levando partido do cavalo da dama, conseguiu ganhar-lhe duas partidas do match.  Outro grande enxadrista que Machado de Assis enfrentou, de igual para igual, foi João Caldas Vianna. Este pode ser considerado o maior jogador surgido no Brasil até 1930.  

Nos torneios efetuados pelo Clube, a partir de 1882, não há referências à sua participação. Teria começado a declinar o seu entusiasmo pelo xadrez? 

As referências ao jogo, colhidas em suas obras, vão rareando desse ano para a frente. No Clube dos Diários, onde se jogava muito, não consta a participação de Machado de Assis, ao contrário de Caldas Vianna e de Artur Napoleão, cujos nomes constam da relação de associados. De 1892 a 1896 saíram as crônicas de A Semana e, em 1898, Artur Napoleão fez uma publicação onde se encontra, sob o nº 17, na página 11, um problema de autoria de Machado de Assis, que já havia figurado na Ilustração Brasileira de 15 de junho de 1877. Esta constitui, cronologicamente, a última referência enxadrística que encontramos sobre o romancista, publicada quando este ainda era vivo.

Encontramos referências ao jogo de xadrez em vários contos, crônicas e romances da obra de Machado de Assis. 

Como por exemplo em

Questão de vaidade. Conto
"Era, com efeito, um grande jogador de xadrez o tio Silvério. Por desgraça, Eduardo não o era menos, de modo que mal se anunciou a visita deste, correu Silvério para a porta com os braços abertos." 
"E contudo este moço joga bem o xadrez! A palavra "xadrez" fez estremecer Eduardo. Era o sinal de um perigo iminente. Todavia, como fino cavalheiro que era, ofereceu o braço à Sara, e seguiu acompanhado de todos para a mesa do jantar."

Iaiá Garcia. Romance.
 "Tentou ensinar-lhe o xadrez, mas desanimou no fim de cinco lições.Ah! mas nem todos têm o seu talento! exclamou triunfante o pai de Estela.Luiz Garcia jogava o xadrez. Era o recreio usual entre ele e Jorge; outras vezes saíam a passeio até curta distância."
"No fundo do jardim estava Luiz Garcia, com o tabuleiro do xadrez: acabava de dar uma lição à filha, que lha pedira desde antes do jantar. Iaiá levou até lá o filho de Valéria. Pela primeira vez sentou-se ao pé dos dois para vê-los jogar; fincou os cotovelos na mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ela, em três semanas.
– Três semanas! repetiu o pai a sorrir e a olhar para Jorge.
Das qualidades necessárias ao xadrez, Iaiá possuía as duas essenciais: vista pronta e paciência beneditina, qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas."

A Cartomante
 "Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; ela mal, – Ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal."

Revista
A Semana. Crônica de 12 de janeiro de 1896.
"Meu bom xadrez, meu querido xadrez, tu que és o jogo dos silenciosos, como te podes dar naquele tumulto de frequentadores? Quero crer que ninguém te joga, nem será possível fazê-lo. Basta saber que há uma hora certa, às seis da tarde, em que sai de dentro de um tubo de ferro uma bandeira com o nome de um jogo. Como podes correr a ver o nome da bandeira, se tens de defender o teu rei – branco ou preto, – ou atacar o contrário, preto ou branco?"
"Creio, mas o que não creio, é que dois verdadeiros jogadores de xadrez, aplicados ao ataque e à defesa, possam consentir em deixar tão nobre ação para ir ao pau de sebo ou qualquer outra recreação gratuita."
"Tudo pode ser, contanto que me salvem o xadrez. A polícia, ou para não confundir este jogo com o nome vulgar da sua prisão, ou porque efetivamente queira restituir cada um ao seu ofício, mandou que os bilhetes não tragam nenhum nome de divertimento."



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

110 anos sem Machado de Assis


Nesse mês  de setembro relembramos  
110 anos sem Machado de Assis.


Remexendo no baú do blog...
vale revisitar a postagem que fala de um curioso encontro de Machado e outro ilustre carioca.





CLIQUE AQUI... E CURTA!




quarta-feira, 28 de março de 2018

Nessa Semana Santa...



... A Paixão de Cristo e o carioca Machado de Assis




Tema recorrente nos seus escritos, vale revisitar...AQUI

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Machado de Assis em foto sobre abolição da escravatura




Hoje, 21 de junho, 
aniversário de Machado de Assis. 
Faria 178 anos.


E o RIO QUE MORA NO MAR comemora com uma foto rara e descoberta recentemente.

Em 17 de maio de 1888 aconteceu em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, a missa em Ação de Graças pela Abolição da Escravatura. O evento aconteceu quatro dias após a Princesa Isabel assinar a Lei Áurea. Cerca de 30 mil pessoas participaram dessa missa e, entre negros, intelectuais, jornalistas e representantes do império e da igreja estava... MACHADO DE ASSIS.

A fotografia é um documento histórico e faz parte da coleção do Instituto Moreira Salles. Foi registrada por Antonio Luiz Ferreira, que, de posição privilegiada, conseguiu uma visão panorâmica e registrou o momento.






Nesta imagem da missa, aparecem princesa Isabel, conde D Eu (ao fundo), Machado de Assis (no canto direito, o segundo de baixo para cima)


Machado de Assis era abolicionista e criticou em diversas de suas obras o regime escravocrata.

A foto mostra também a importância de Machado perante a sociedade da época, sua posição junto à realeza brasileira, e ao lado de importantes figuras políticas e da igreja. Além da já mencionada posição do escritor contra o regime de escravidão.





sexta-feira, 19 de maio de 2017

O carioca Machado de Assis já disse

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"Ouça-me este conselho: 
em política, não se perdoa 
nem se esquece nada."

Em "Quincas Borba" (1891)

sábado, 1 de outubro de 2016

O sábio Machado de Assis

Em agosto de 1892, meditando sobre a participação nas eleições municipais, Machado de Assis concluía: o absenteísmo era uma "moléstia"



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"Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. 
Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: 
"A urna da 8ª seção  está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n". 
Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. 
Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. 
Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso".


sábado, 5 de julho de 2014

Um encontro inusitado de dois cariocas




Aliás, um encontro de dois cariocas ...
inspirado por um inglês: 

Machado de Assis, 
Carlos Lyra e... 
Shakespeare







Machado de Assis escreveu
o lindo poema Quando ela fala,
em homenagem à sua amada Carolina.

Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala

Meu coração dolorido
As suas mágoas exala
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala

Pudesse eu eternamente
Ao lado dela, escutá-la
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala

Minh'alma, já semimorta
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala

Esse poema comprova  o contrário de muitas afirmações a respeito de Machado de Assis, de que seria um prosador puro. Esse poema é lírico, leve, gracioso como só um poeta poderia fazer. Quem não tem a vocação da poesia, não tem a singeleza própria de um poeta.

Machado , grande prosador, grande poeta! Ele publicou duzentos e setenta e oito poemas e quase 21 mil versos.

Em 1999, Carlos Lyra musicou o poema Quando ela fala.

A canção foi interpretada por sua filha Kay Lyra na cerimônia do translado dos restos mortais do escritor e de sua esposa Carolina para o Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.


Onde está Shakespeare na história?

 Machado um apaixonado dele, se inspirou nos seus versos

“She speaks!/ O speak again, bright angel!”
da fala de Romeu,  em Romeu e Julieta , que escreve como epígrafe do poema Quando ela fala.

Versos do século XIV,
inspiram um poema no século XIX ,
que ganha melodia no século XX.


QUE PARCERIA!




quinta-feira, 28 de março de 2013

A Paixão de Cristo e o carioca Machado de Assis


 

“Perdoai-lhes, Senhor”, disseste quando
Quase a expirar os olhos levantaste
Ao céu anuviado
E já da morte gélido arquejando
Com fraca e triste voz pronunciaste: 

“Tudo está consumado!”
E o mundo remiu-se! De Deus à morada,
Gozando outra vida, se eleva Jesus!…
Cristãos! Penetremos a casa sagrada,
E a Cristo adoremos em torno da cruz!


caricatura de Machado de Assis
por Fabio Nienow


A Paixão de Cristo sempre ganha releituras e adaptações. O poema acima chama-se Consummatum est! e foi publicado em 1856 por um jovem de apenas 16 anos nos primeiros passos na literatura. O autor?  Machado de Assis.

Dois anos depois de lançar Consummatum est!, Machado publica no jornal Marmota Fluminense - jornal de modas e variedades do jornalista Francisco de Paula Brito - ,
o poema A morte no Calvário,
dedicado ao amigo Padre Silveira Sarmento.







A MORTE NO CALVÁRIO

Ao meu amigo 
PADRE SILVEIRA SARMENTO 
Consummatum est!

 EI-LO, VAI sobre o alto Calvário

Morrer piedoso e calmo em uma cruz!
Povos! naquele fúnebre sudário
Envolto vai um sol de eterna luz!

Ali toda descansa a humanidade;
É o seu salvador, o seu Moisés!
Aquela cruz é o sol da liberdade
Ante o qual são iguais povos e reis!

Povos, olhai! - As fachas mortuárias
São-lhe os louros, as palmas, e os troféus!
Povos, olhai! - As púrpuras cesáreas
Valem acaso em face do Homem-Deus?

Vede! mana-lhe o sangue das feridas
Como o preço da nossa redenção.
Ide banhar os braços parricidas
Nas águas desse fúnebre Jordão!

Ei-lo vai sobre o alto do Calvário
Morrer piedoso e calmo em uma cruz!
Povos! naquele fúnebre sudário
Envolto vai um sol de eterna luz!
II
Era o dia tremendo do holocausto...
Deviam triunfar os fariseus...
A cidade acordou toda no fausto,
E à face das nações matava um Deus!

Palpitante, em frenético delírio
A turba lá passou: vai imolar!
Vai sagrar uma palma de martírio,
E é a fronte do Gólgota o altar!

Em derredor a humanidade atenta
Aguarda o sacrifício do Homem-Deus!
Era o íris no meio, da tormenta
O martírio do filho dos Hebreus!

Eis o monte, o altar do sacrifício.
Onde-se vai operar-se a redenção
Sobe a turba entoando um epinício
E caminha com ela o novo Adão!

E vai como ia outrora às sinagogas
As leis pregar do Sião e do Tabor!
É que no seu sudário as alvas togas
Vão cortar os tribunos do Senhor!

Planta-se a cruz. O Cristo está pendente;.
Cingem-lhe a fronte espinhos bem mortais;
E cospe-lhe na face a turba ardente,
E ressoam aplausos triunfais!

Ressoam corno em Roma a populaça
Aplaudindo o esforçado gladiador!
É que são no delírio a mesma raça,
A mesma geração tão sem pudor!

Ressoam como um cântico maldito
Pelas trevas do século a vibrar!
Mas as douradas leis de um novo rito
Vão ali no Calvário começar!

Sim, é a hora. A humanidade espera
Entre as trevas da morte e a eterna luz;
Não é a redenção uma quimera,
Ei-la simbolizada nessa cruz!

É a hora. Esgotou-se a amarga taça;
Tudo está consumado; ele morreu,
E aos cânticos da ardente populaça
Em luto a natureza se envolveu!

Povos! realizou-se a liberdade,
E toda consumou-se a redenção!
Curvai-vos ante o sol da Cristandade
E as plantas osculai do novo Adão!

Ide, ao som das sagradas melodias,
Orar junto do Cristo como irmãos,
Que os espinhos da fronte do Messias
São as rosas da fronte dos cristãos! 


Quase cinqüenta anos após a primeira publicação sobre o assunto Paixão de Cristo e quatro antes de morrer, Machado revisita a Sexta-feira Santa com o texto A Paixão de Jesus, e o publica anonimamente no Jornal do Commercio.

 
   Quem relê neste dia os evangelistas, por mais que os traga no coração ou de memória, acha uma comoção nova na tragédia do Calvário. A tragédia é velha; os lances que a compõem passaram, desde a prisão de Jesus até a condenação judaica e a sanção romana; as horas daquele dia acabaram com a noite de sexta-feira, mas a comoção fica sempre nova; por mais que os séculos se tenham acumulado sobre tais livros. A causa, independente da fé que acende o coração dos homens, bem se pode dizer de duas ordens.

   Não é preciso falar de uma. A história daqueles que, pelos tempos adiante, vieram confessando a Jesus, padecendo e morrendo por Ele, e o grande espírito soprado do Evangelho ao mundo antigo, a força da doutrina, a fortaleza da crença, a extensão dos sacrifícios, a obra dos místicos, tudo se acumula naturalmente diante dos olhos, como efeito daquelas páginas primitivas. Não menos surge à vista o furor dos que combateram, pelos séculos fora, as máximas cristãs ouvidas, escritas e guardadas, alguma vez esquecidas, outras desentendidas, mas acabando sempre por animar as gerações fiéis. Tudo isso, porém, que será a história ulterior, é neste dia dominado pela simples narração evangélica.

  A narração basta. Já lá vai a entrada de Jesus em Jerusalém, escolhida para o drama da paixão. A carreira estava acabada. Os ensinamentos do jovem profeta corriam as cidades e as aldeias, e todos se podiam dizer compendiados naquele sermão da montanha, que, por palavras simples e chãs, exprimia uma doutrina moral nova, a humildade e a resignação, o perdão das injúrias, o amor dos inimigos, a prece pelo que calunia e persegue, a esmola às escondidas, a oração secreta. Nessa prédica da montanha a lei e os profetas são confessados, mas a reforma é proclamada aos ventos da terra. Nela está a promessa do benefício aos que padecem, a consolação aos que choram, a justiça aos que dela tiverem fome e sede. Jerusalém destina-se a vê-lo morrer. Foi logo à entrada, quando gente do povo correu a receber Jesus, juncando o chão de palmas e ramos e aclamando o nome daquele que lhe vinha trazer a boa-nova, foi desde logo que os escribas e fariseus cuidaram de lhe dar perseguição e morte, não o fazendo sem demora, por medo do povo que recebia a Jesus com hosanas de amor e de alegria.

  Jesus reatou então os seus atos e parábolas, mostrando o que era e o que trazia no coração. Os fariseus viram que ele expelia do templo os que lá vendiam e compravam, e ouviram que pregava no templo ou fora dele a doutrina com que vinha extirpar os pecados da terra. Alguma vez as imprecações que lhe saíam da boca, eram contra eles próprios: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque devorais as casas das viúvas, fazendo longas orações...” — “Ai de vós, escribas e fariseus, porque alimpais o que está por fora do copo e do prato, e por dentro estais cheios de rapinas e de imundícies...” — “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque rodeais o mar e a terra por fazerdes um prosélito, e depois de o terdes feito, o fazeis em dobro mais digno do inferno do que vós”. Era assim que bradava contra os que já dali tinham saído alguma vez, a outras partes, a fim de o enganar e enlear e ouviram que ele os penetrava e respondia com o que era acertado e cabido. As imprecações seguiram assim muitas e ásperas, mas de envolta com elas a alma boa e pura de Jesus voltava àquela doce e familiar metáfora contra a cidade de Jerusalém: “Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar teus filhos, do modo que uma galinha recolhe debaixo das asas os seus pintos, e tu não o quiseste!”

  A diferença que vai desta fala grave e dura àquele sermão da montanha, em que Jesus incluiu a primeira e ingênua oração da futura igreja, claramente mostra o desespero do jovem profeta de Nazaré. Não havia esperar de homens que a tal ponto abusavam do templo e da lei, e, em nome de ambos, afivelavam a máscara de piedade para atrair os que buscavam as doutrinas antigas de Israel. Sabendo que tinha de morrer às mãos deles, não lhes quis certamente negar o perdão que viessem a merecer, mas condenar neles a obra da iniqüidade e da perdição. Todo o mal recente de Israel estava nos que se davam falsamente por defensores do bem antigo.

  A comoção nova que achamos na narração evangélica abrange o espaço contado da ceia à morte de Jesus. Judeus futuros, ainda de hoje, ao passo que negam a culpa da sua raça, confessam não poder ler sem mágoa essa página sombria. Em verdade, a melancolia do drama é grande, não menor que a do próprio Cristo, quando declara ter a alma mortalmente triste. Era já depois da ceia, naquele horto de Gethsemani, a sós com Pedro e mais dois, enquanto os outros discípulos dormiam, foi ali que ele confessou aquela profunda aflição. Tinha já predito a proximidade da morte. A aversão dos escribas e fariseus, indo a crescer com o poder moral do Nazareno, punha em ação o desejo de o levar ao julgamento e ao suplício, e cumprir assim o prenúncio do jovem Mestre. Tudo foi realizado: a noite não acabou sem que, pela traição de Iscariotes, Jesus fosse levado à casa de Anás e Caifás e, pela negação de Pedro, se visse abandonado dos seus amigos. Ele predissera os dois atos, que um pagou pelo suicídio e o outro pelas lágrimas do arrependimento.

  Talvez ambos pudessem ser dispensados, não menos o primeiro que o segundo, por mais que o grupo dos discípulos escondesse o Mestre aos olhos dos inimigos. Se assim fosse, o suplício seria igualmente certo, mas a tragédia divina não teria aquela nota humana. Nem tudo é lealdade, nem tudo é resistência na mesma família.

  A parte humana nasceu ainda, não já naqueles que deviam amor a Jesus, se não nos que o perseguiam; tal foi esse processo de poucas horas. Jesus ouviu o interrogatório dos seus atos religiosos e políticos. Era acusado de querer destruir a lei de Moisés e não aceitar a dominação romana, fazendo-se Rei dos Judeus. “Mestre, devemos pagar o imposto a César?”, tinham-lhe perguntado antes, para arrastá-lo a alguma palavra de rebelião. A resposta (uma de tantas palavras que passaram daqueles livros às línguas dos homens) foi que era preciso dar a César o que era de César e a Deus o que era de Deus. Caifás e o Conselho acabaram pela condenação; para o crime político e para a pena de morte era preciso Pilatos. Segundo o sacerdote da lei, era preciso que um homem morresse pelo povo.

  Pilatos foi ainda a nota humana, e acaso mais humana que todas. Esse magistrado romano, que, depois de interrogar a Cristo, não lhe acha delito nenhum; que, ainda querendo salvá-lo da morte, pensa em soltá-lo pelo direito que lhe cabia em tal ocasião, mas consulta ao povo, e ouve deste que solte Barrabás, e condene a Jesus; que obedece ao clamor público, e faz a única ressalva de lavar as mãos inocentes de tal sangue; esse homem não finge sequer a convicção. A consciência brada contra o crime que lhe querem impor, mas a fraqueza cede aos que lho pedem, e entrega o acusado à morte.

  A morte, fecho da Paixão, termo de uma vida breve e cheia, foi cercada de todos os elementos que a podiam fazer mais trágica. O riso deu as mãos à ferocidade, e o açoite alternou com a coroa de espinhos. Fizeram do profeta um rei de praça, com a púrpura aos ombros e a vara na mão. Vieram injúrias por atos e palavras, agravação do suplício dado entre dois ladrões; mas ainda nos falta alguma coisa para completar a parte humana daquela cena última.

  As mulheres vieram rodear o instrumento do suplício. Com outro ânimo que faltou alguma vez aos homens, elas trouxeram a consolação e a paciência aos pés do crucificado. Nenhum egoísmo as conservou longe, nenhum tremor as fez estremecer de susto. A piedade era como alma nova incutida naqueles corpos feitos para ela. Com os olhos nos derradeiros lampejos de vida, que estavam a sair daquele corpo, aguardavam que este fosse amortalhado e sepultado para lhe darem os bálsamos e os aromas.

  Tal foi a última nota humana, docemente humana, que completou o drama da estreita Jerusalém. Ela, e o mais que se passou entre a noite de um dia e a tarde de outro completaram o prefácio dos tempos. A doutrina produzirá os seus efeitos, a história será deduzida de uma lei, superior ao conselho dos homens. Quando nada houvesse ou nenhuma fosse, a simples crise da Paixão era de sobra para dar uma comoção nova aos que lêem neste dia os evangelistas.

 
(Machado de Assis, 1904)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Relíquia Culinárias de Machado de Assis


Não há dúvidas de que além de poeta, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário, Machado de Assis também era gastrônomo.

A obra de Machado de Assis ganhou um outro olhar. O apurado em banquetes, confeitarias e cafés que moldaram o paladar da sociedade carioca, no período entre o segundo império e o início da República.

A socióloga Rosa Belluzzo após dois anos de pesquisas em toda a obra do autor,além de obras literárias e relatos de viajantes como Jean-Baptiste Debret, Carl Seidler, Adèle Toussant-Samson, Ina von Binzer, Daniel Kidder, Maria Graham e John Luccock escreve sobre o olhar na gastronomia – restaurantes, confeitarias, cardápios, iguarias e livros de receitas da época, tema tão presente em seus romances e crônicas. Fala da presença marcante da alimentação como mediadora das transformações, de uma etnografia do gosto na obra do maior nome da literatura nacional.

“Machado de Assis, relíquias culinárias” (Ed. Unesp), com prefácio de Carlos Lessa,  apresenta o bruxo do Cosme Velho como um crítico gastronômico ácido atento às mudanças na vida urbana carioca. Avesso aos estrangeirismos culinários, acompanha a tendência de publicação de livros de culinária como “Cozinheiro Nacional” e “Dicionário do Doce Brasileiro”. Critica a introdução do roast beef, do croquete, do sandwich e das bouchées de dames. Preferia os sabores da terra e as velhas tradições de seu país. Comentava com sarcasmo as influências francesas e inglesa nos hábitos da elite.

Quando o assunto era o resgate das tradições culinárias do Rio, Machado enaltecia com fervor o lançamento de mais um título brasileiro. Um ano antes do lançamento de “O Confeiteiro Popular”, o escritor publicou em 2 de junho na revista O Cruzeiro a seguinte crítica: “É fora de dúvida que a literatura confeitológica sentia necessidade de mais um livro em que fossem compediadas as novíssimas fórmulas inventadas pelo engenho humano para o fim de adoçar as amarguras deste vale de lágrimas”. No mesmo texto ele diz que “o princípio social do Rio de Janeiro é o doce de coco e a compota de marmelos”.

Rosa passeia por Machado pinçando evidências que comprovam que a alimentação é capaz de dar conta de fenômenos socioculturais. Durante os séculos XIX e XX, a então capital do Brasil passou por uma profunda evolução gastronômica. E tal mudança não passou despercebida ao boêmio e frequentador privilegiado da boa mesa.
O livro também reúne 25 receitas que compõe uma miscelânea da influência européia que tanto combateu o autor. Do croquete de carne ao bouillabaisse; dos pastéis de nata ao sorvete de pitanga. Não há dúvidas de que além de poeta, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário, o também bruxo do Cosme Velho era gastrônomo. Suas sobremesas preferidas eram cocada amarela e mãe-benta, chocolat à la creme ou bouchées des dames.

Nessa abordagem do cotidiano, a cozinha doméstica tradicional foi sacudida pela inovação, com jantares de cerimônia adornados com toalhas de linho bordadas e louças de faiança (forma de cerâmica branca). De acordo com a socióloga, era na sala de jantar onde repercutia a educação e o refinamento dos anfitriões. “Também afloraram, na capital brasileira, os restaurantes, acompanhando o projeto civilizador que acompanhou as transformações urbanas e sociais entre Segundo Império e da República”, explica.

A autora conclui que Machado de Assis reflete em sua obra o estado de espírito e uma virada na história do gosto da sociedade carioca do século XIX. “As suas crônicas e romances fornecem um reflexo da sensibilidade gastronômica e as mudanças de hábito”, completa. Da mesma forma que Machado era um entusiasta das publicações nacionais, é pertinente se alegrar com mais esta publicação por reconstruir a memória e a identidade alimentar no Brasil. Ao valorizar títulos como estes de Rosa, tem-se a oportunidade de preservar tradições, reconhecer tendências, inovar e consolidar a gastronomia local


Fonte:Pimenta Malagueta

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dia de lembrar Machado de Assis

Com 5 frases atualíssimas.
"Está morto: podemos elogiá-lo à vontade."
"Há coisas que melhor se dizem calando."
"A vaidade é um princípio de corrupção."
"As ocasiões fazem as revoluções."
Então...
"Ao vencedor as batatas!"
*************


Machado de Assis faleceu em 29 de setembro de 1908.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Há cem anos

Há cem anos ele saiu da cena da vida ...
... e nos deixou um rico legado
que redescobrimos a cada dia.

  • Inspirado em ‘Hamlet’, de Shakespeare,
    Machado inovou com o narrador que dialoga com o leitor

    “O maior defeito deste livro és tu, leitor”.
    ( Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas)
  • Machado se ocupou da loucura em suas obras
    (‘O Alienista’ - 1882 - ou em ‘Quincas Borba’ - 1891 - , por exemplo)
  • Já que rir em público não era de bom tom, machado usava de uma fina ironia.
    “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”.
    (‘Memórias Póstumas de Brás Cubas )

Muito mais no site oficial de Machado de Assis.
Clique na imagem acima e se delicie!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O apelido Bruxo do Cosme Velho, a origem

Machado de Assis virou lenda 
no bairro do Cosme Velho. 
É conhecido até pelo apelido de 
Bruxo do Cosme Velho. 
No entanto, não se sabe ao certo 
a origem desse apelido.

Famoso chalé à rua Cosme Velho, nº 18, onde morou a partir de 1883, hoje inexistente.


Uma das possibilidades é que tenha surgido a partir do poema A um Bruxo, com Amor, de Carlos Drummond de Andrade em ‘A Vida Passada a Limpo’ (1959).

Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trajestada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurar alguma coisa
que não se estende logo
a parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
É Flora,
com olhos dotados de um mover particular
ente mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de mulher nova...
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.

 

A outra possibilidade é que Drummond tivesse popularizado o apelido, que teve origem no objeto que está no acervo da Academia Brasileira de Letras: um braseiro. 

Como Machado gostava de queimar suas cartas e colocava o caldeirão do lado de fora, os vizinhos o chamariam, por isso,  de... bruxo.